É ESSE O DISCO

que vi na biblioteca quando comecei o curso de alemão; a imagem da capa me atraiu, levei para casa. São poemas do Heine com acompanhamento de jazz. Isso já faz um tempo.

Ontem sonhei que íamos atrás de Gert Westphal, a voz dos poemas de Heine.

Sei que fomos numa loja de discos, procuramos por mais trabalhos que Gert tivesse feito. O que no sonho achamos, não sei, mas foi divertido. Agora descubro que ele se tornou famoso por suas leituras (era o rei dos leitores) de Flaubert, Dostoievski, Mann; e é ao lado da sepultura deste último que está enterrado, num cemitério em Zurique.

O QUE É PRÊT?

há o substantivo e o adjetivo: o primeiro, derivado do verbo prêter, emprestar, deixar algo à disposição de alguém por um tempo determinado; o segundo, o estado de algo preparado, feito, pronto. Um pouco diferentes no sentido, os dois surgem do latim praesto: à disposição, à mão, aqui presente.

Em português, o equivalente mais próximo é prestes: próximo, iminente, que está a ponto de acontecer, ligeiro, rápido – mas os usos de prestes já são arcaicos para prêt em francês; o que também vale para o verbo prestar.

Com o mesmo som de prêt em francês existe près: a pequena distância – mas nesse caso a origem é outra, também latina: a mesma de pressa, pressão.

NO PRIMEIRO SONHO

de ontem, o filho de um aluno estava um pouco mais crescido, e já falava coisas de adulto: a rotina corrida do pai, a vontade de assistir um show de samba. Eu olhava para ele e me dizia que duas coisas estavam fora de lugar: ele já tão grande e a conversa dele.

Em outro, eu tinha muitas coisas para fazer num curto espaço de tempo. Meio atradasa, resolvo sair voando por cima dos prédios, para chegar mais rápido. Olhando para tudo de lá do alto me dou conta: se isso é um sonho, porque preciso cumprir obrigações e respeitar horários?

EU SONHAVA

e não queria acordar; alguém me chamava; eu respondia que estava sonhando. Esforcei-me muito para sair do sono. Quando saí percebi que estava em outro sonho, também deitada na cama, esperando acordar. Dessa vez foi mais fácil acordar – dois minutos antes de realmente me chamarem.

DIRIGINDO UM JIPE

eu chegava num lugar cheio de subidas e árvores, uma região de serra. Lá, ia encontrar alguns amigos. Estava sozinha e precisava arranjar um lugar para estacionar. O terreno era difícil, circulei muito, de um lado para outro, procurando uma vaga. Pessoas esperavam, em fila, alguma coisa que eu não sei. Quando estacionei, o jipe virou uma maleta preta, muito bonita e prática. Uma moça estava por perto; disse a ela: – Você tome cuidado com essa maleta, ela é o meu carro. A moça ficou surpresa, começou a examinar a maleta, achando fabuloso que isso fosse possível.
Foi quando eu também percebi que meu jipe tinha algo que dificilmente outros teriam – e acordei.

HÁ IDIOMAS

em que a palavra “outono” não existe – explicava um senhor que dominava muitas e muitas línguas diferentes. Sem a palavra outono, as folhas das árvores não mudam de cor, não caem. E também chega a primavera – continua ele. Só se vive os dois grandes momentos opostos do ano: o verão e o inverno.

Por outro lado, há palavras escondidas para momentos do dia e cores do céu que não conseguimos enxergar.

FUI PRO AEROPORTO

e, antes de entrar no avião, apresentei a uma moça da companhia aérea vários cartões de embarque de voos que não estavam pontuados. Ela vai analisando um por um e me fazendo perguntas: como assim esse voo é operado por duas companhias? que significa esse adesivo? e que voo é esse aqui, de SCR a TDV?
Ela pega um bastão de cola para juntar alguns pedaços desses bilhetes, cheios de adesivos de brasões e siglas que eu não consigo explicar. Eram de viagens que eu não lembrava ter feito.