DIRIGINDO UM JIPE

eu chegava num lugar cheio de subidas e árvores, uma região de serra. Lá, ia encontrar alguns amigos. Estava sozinha e precisava arranjar um lugar para estacionar. O terreno era difícil, circulei muito, de um lado para outro, procurando uma vaga. Pessoas esperavam, em fila, alguma coisa que eu não sei. Quando estacionei, o jipe virou uma maleta preta, muito bonita e prática. Uma moça estava por perto; disse a ela: – Você tome cuidado com essa maleta, ela é o meu carro. A moça ficou surpresa, começou a examinar a maleta, achando fabuloso que isso fosse possível.
Foi quando eu também percebi que meu jipe tinha algo que dificilmente outros teriam – e acordei.

HÁ IDIOMAS

em que a palavra “outono” não existe – explicava um senhor que dominava muitas e muitas línguas diferentes. Sem a palavra outono, as folhas das árvores não mudam de cor, não caem. E também chega a primavera – continua ele. Só se vive os dois grandes momentos opostos do ano: o verão e o inverno.

Por outro lado, há palavras escondidas para momentos do dia e cores do céu que não conseguimos enxergar.

UM POETA AFRICANO

fazia uma visita por aqui. Ele compunha seus poemas em frente ao público, por escrito, numa grande lousa. O público se sentava ao redor e olhava o trabalho do poeta. Ao mesmo tempo, ele escrevia com o que observava nos rostos das pessoas que o assistiam, em silêncio. Era então, na lousa, um poema daquele encontro, feito para aquele instante.

FUI PRO AEROPORTO

e, antes de entrar no avião, apresentei a uma moça da companhia aérea vários cartões de embarque de voos que não estavam pontuados. Ela vai analisando um por um e me fazendo perguntas: como assim esse voo é operado por duas companhias? que significa esse adesivo? e que voo é esse aqui, de SCR a TDV?
Ela pega um bastão de cola para juntar alguns pedaços desses bilhetes, cheios de adesivos de brasões e siglas que eu não consigo explicar. Eram de viagens que eu não lembrava ter feito.

MEDUSA

da Annie Lennox, foi o primeiro CD que compramos em casa, junto com o aparelho. Era um lançamento na época; No more i love you’s era trilha de novela? Ainda hoje ouvimos muito: agrada a todos.

Os covers do disco foram escritos por homens – isso poderia explicar o título, Medusa. Mesmo que no clipe de Why (do disco anterior) ela esteja mais próxima de uma Medusa, montada e colorida, o encarte cinza, em que ela aparece com os cabelos curtos de costume e o nome escrito à máquina de escrever na testa também intriga. Os cabelos em forma de serpente viraram letras e, tão cheia de cores antes, a Medusa agora toma o tom de pedra.

O QUE É ROUTE?

palavra aparentemente muito simples: caminho, trajeto, estrada. Pode opor-se a caminho, no sentido em que a route é algo planejado, demarcado oficialmente, sinônimo de estrada. O adjetivo derivado, routier, é equivalente ao nosso rodoviário. Logo, temos transport routier para transporte rodoviário; gare routière para a nossa rodoviária, o terminal rodoviário (rodoviaire em francês não existe).

Outro derivado de route, routard: aquele que viaja com poucos recursos, o mochileiro, hitchhiker. A palavra é patenteada em francês, por um dos criadores do famoso Guide du routard.

De route também vem routine, um caminho frequente.

A etimologia pode desconcertar: route, assim como rota, vem do latim rupta, caminho aberto, particípio passado no feminino do verbo rumpere, romper. Assim, rota (estrada) divide sua origem com roto (rompido, danificado).

VIA NO ESPELHO

umas manchas estranhas no rosto. Algumas pareciam desenhos, reunião de pintas. Elas ficavam piores com o passar do tempo, me davam medo. E parecia que anos se passaram no sonho. Eu voltava ao espelho e as marcas tinham mudado de cor, de tamanho; mantinham-se todavia no mesmo lugar.

Estavam ali para me fazer lembrar quem eu sou, as coisas que eu fiz.