parece ter um foco muito preciso: a menina quer vingar a morte do pai. Mas há muitos desvios nesse percurso, e todos eles são essenciais para a vingança. Ela assiste a execução de três condenados à forca: um faz um discurso arrependido, o outro não se redime; o terceiro, índio, não pode dar suas palavras finais. Frente os três enforcados, uns gritam, outros choram, fecham os olhos; ela só observa.
Autor: anameliacoelho
FOMOS VISITAR
um casal que acabou de conseguir sua casinha; era um apartamento simples. Não somos muito próximos deles – quem são na verdade? – são da sua família? – amigos nossos? – que língua falamos com eles? Sei lá.
Ficamos pouco tempo – conversamos, comemos bolo, demos risadas. Antes de irmos embora, notei que o moço pregou tachinhas (aquelas de colocar em mural de avisos) no nariz, como se fossem um tipo novo de piercing.
O QUE É ISSO? #3

– VAMOS, VISCONDE
Bote aí seis pontos de interrogação – insistiu a boneca.
Depois de ler Memórias da Emília, ficam uns enormes pontos de interrogação frente a curiosidade sem igual, as tiradas geniais, as boas ideias e os xingamentos que ela solta a torto e a direito – principalmente aqueles contra a tia Nastácia, quem costurou a boneca de pano.
ABRIA UMA REVISTA
na sala de espera. Começo pela última página, ao contrário: fotos de museus pelo mundo. Na de baixo, um amigo, visitando um museu em Paris, o de arts premiers talvez. Na foto acima, de outro museu aqui em São Paulo, o mesmo amigo. E outras fotos sem ele.
Encontro com ele e comento: “como assim, você em duas fotos em museus diferentes?” Abrimos a revista, as fotos viram vídeos. Ficamos ainda mais intrigados com a coincidência – ou a perseguição.
TEMPO FECHADO

e parece que o céu é feito só de nuvens e mais nada.
CHEGOU UM DIA
de arrumar tudo: então abrimos os armários, separamos livros, trocamos de lugar algumas coisas na casa. Na bagunça, os vinis iam sozinhos para o toca-discos, a música começava – um susto! Tudo bem, os discos de vinil são assim mesmo, sabem tocar sozinhos. Fui lavar as mãos e a torneira era ao mesmo tempo uma cafeteira e uma máquina de costura. Só era preciso ter cuidado para não levar uma agulhada.
Bem que essa poderia ser a casa de Zazie, pensei eu.
Ou o apartamento de “Vinil verde“.
O QUE É ATTENDRE?
à primeira vista, é um falso cognato para o português: significa “esperar, aguardar; permanecer num lugar até que algo aconteça: que o trem chegue, que venha uma resposta, que o médico chame”.
Mas attendre não está tão distante do português atender; ao menos ambos vem do latim attendere: “obedecer, dar auxílio, observar com prudência, ser vigilante, prestar atenção”; e atenção/attention também: “concentrar-se, colocar a mente em escuta e reflexão”.
TENHO AGENDAS
desde uns 9 anos de idade. Anotava as coisas mais miúdas do dia: a rotina da escola, devolução de livros na biblioteca, colava recortes de jornal, figuras de revista. Também deixava recados para mim no futuro; em fevereiro, pegava uma página de outubro e deixava alguma pergunta enigmática.
Ontem num caderno, li algo como: “Ana, você não vai viver esse momento duas vezes”. Deve ter sido coisa que ouvi de alguém, não sei quem mais; nem que momento seria esse. De toda forma continua sendo verdade.
NÃO SEI ONDE ESTAVA
antes, mas em pouco tempo cheguei num lugar muito longe, longe de tudo. O terreno plano, poucas árvores, a terra muito vermelha e compacta. O dia estava acabando. Andamos muito; por pouco perdemos a van que nos levaria de volta (para onde?). Só dentro dele eu vi uma igreja muito diferente, feita de feixes de madeira, com umas imagens de santos locais muito estranhas. O olhar deles não parecia de santos; talvez quisessem zombar de tudo, até do respeito de santos que tinham.


