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SONHO NO ÔNIBUS

estava com amigos, passeando. Uma moça de cabelos bem pretos pergunta onde fica a rua Schumann. Penso logo: ela deve estar querendo dizer a avenida Henrique Schaumann. Subíamos a rua dos Pinheiros. Indiquei o ponto onde também íamos descer, esquina da Rebouças com a H. Schaumann.

Descendo, tudo parece diferente do que é. A Rebouças tem uma placa com outro nome: Norah … alguma coisa. Norah Lange, a escritora, ou Norah Jones, a cantora? E a rua que cruzava era realmente Schumann, o músico, a moça estava certa.

Depois disso sentamos os amigos na praça Benedito Calixto, conversamos sobre música, post-its, outros passeios. Um deles falava especialmente pouco comigo, deixei assim. Mas ele chegou perto de mim, falando baixo: – Eu queria conversar com você. Estou aqui, sabia? – deixando na minha mão umas florezinhas amarelas muito pequenas e frágeis.

DUAS FESTAS

uma dia 17 de agosto; essa bem-sucedida, Karen e eu organizamos outra, em novembro, dia 23.

A primeira queríamos que fosse inovadora: talvez a primeira festa dos anos 90 depois dos anos 90. Esforço do grupo de amigos em lembrar das músicas da década anterior, com bem menos recursos na internet do que hoje. A segunda era à fantasia, com tema dos personagens de desenhos, principalmente. Todo o trabalho, o tempo e as andanças para achar um lugar, salão, casa ou algo parecido, alugar por uma noite, ir comprar bebidas onde fosse mais barato, equipamento de som e luz, fazer um convite legal, retocar as imagens com os meios amadores que tinha, colar cartazes por aí, fazer lista de emails. Depois: limpar tudo, e ver o que ainda hoje sobrou.

CAFÉ COM CHOCOLATE

o café: preto, sem açúcar, de coador ou expresso; chocolate: pouco doce, meio amargo, já foi alpino mas ultimamente tem sido diamante negro. Comida utilitária, alegra e espanta o sono. No prédio da Sociais, antes da aula ou no intervalo, entre os banquinhos de cimento, embaixo das árvores, com pedaços de conversa e fumaça de cigarro.

Beijo para a Dani Prado que contribuiu nessa receita como em outras que virão.

ME AGRADAVA REPETIR

coisas pequenas no dia a dia: sentar-me sempre no mesmo lugar da mesa para comer, usar a mesma colher para mexer o chá mate, comer o mesmo lanche no recreio, no mesmo lugar do pátio; manter fixas na semana as datas de devolução dos livros na biblioteca; numa mesma ordem pentear o cabelo, escovar os dentes  e tomar banho; organizar na mochila os livros e cadernos para cima, os livros atrás, cadernos à frente; as cores os lápis e canetas no estojo; tomar o metrô no mesmo vagão, escolher, se livre, o mesmo banco.

Ainda continuam certas coisas assim, que percebo se elas mudaram de lugar.

O MITO DA LIBERDADE

não é uma boa versão em português para o título original do filme de David Robert Mitchell, The myth of the american sleepover. O mito americano da festa do pijama também soaria estranho para um filme que foge a qualquer lugar-comum do gênero filmes-de-festa (que não deixam de ser bons também) para explorar as pequenas aventuras de um grupo de jovens no último fim de semana antes da volta às aulas: a paixão à primeira vista, a procura por colegas de escola que já estão longe, querer fazer algo simplesmente diferente.

O filme todo é costurado em conversas, em pequenos amores que não acontecem nunca aos pares (ao menos um personagem observa outros dois), com diferenças de tempo e espaço (uns mais ou menos longe da infância), com procuras fracassadas que levam a outra coisa, resultados inesperados.

Tão saboroso quanto um fim de semana de festa, de passeio, que fica a vontade de rever e que ele seja mais visto – que o filme saia, mesmo que timidamente, em circuito.