VOCÊ PASSA

pelas mesmas ruas de todos os dias, de onde você mora já faz anos; poderia descer pelo caminho de olhos fechados, tudo é familiar e todos te conhecem, sabem quem você é e que horas vai e vem. Mas agora fica pensando: como será ver tudo isso com outros olhos – ver com os olhos de alguém que nunca passou por aqui, alguém chegando pela primeira vez onde você sempre viveu?

EU FIZ LISTAS

de coisas a fazer, assuntos para conversar, datas importantes para lembrar, leituras, filmes, lugares para conhecer, alguns pedaços de música; mas de nada adianta: o que sai na hora é imprevisível.

Há também uma lista de regras que eu mesma me coloco, uma pequena disciplina para coisas simples do cotidiano: coisas que eu devo fazer todo dia, outras coisas pra não fazer sozinha. Elas valem durante um tempo. Por que deixo essas regras de lado?

Das duas uma: ou não sei fazer listas, ou não sei como segui-las – ou vai ver é assim mesmo que as listas são.

TUDO É FEITO

de átomos, fomos informados numa aula de ciências. Já tinha visto na tevê: eram bolinhas que giravam umas em torno das outras.

Esses pedacinhos de tudo se mexiam, mesmo nas coisas mais sólidas que existem, eles estão lá, não param. E como poderíamos ser formados por algo que tem tantos espaços vazios?

Eu ficava pensando se poderíamos esfarelar como uma paçoca, se os átomos todos resolvessem se mexer de um jeito diferente, de repente.

MANDIOQUINHA COM QUEIJO

não é bem uma dupla, mas um grupo no qual a mandioquinha ocupa o primeiro lugar, incontestável, gosto de tempo frio, em qualquer forma que seja. Tem um nome carinhoso em português e outros muito particulares em outras línguas: white carrot, arracacha, apio criollo, etc. etc., que costumam aproximá-la sempre de outros vegetais com os quais ela parece – mas que nunca é.

CAFÉ COM CHOCOLATE

o café: preto, sem açúcar, de coador ou expresso; chocolate: pouco doce, meio amargo, já foi alpino mas ultimamente tem sido diamante negro. Comida utilitária, alegra e espanta o sono. No prédio da Sociais, antes da aula ou no intervalo, entre os banquinhos de cimento, embaixo das árvores, com pedaços de conversa e fumaça de cigarro.

Beijo para a Dani Prado que contribuiu nessa receita como em outras que virão.

MINHA CÂMERA

anda desregulando o foco, já faz uns meses. Ainda não levei para o conserto. Fico esperando que seja algo passageiro, que ela vai acertar na próxima foto. E até acerta, quando insisto, quando eu mesma tento um outro ponto de vista. Quando não, me divirto com o efeito fora de tom que sai das coisas – que são, não tem jeito, sempre de outro jeito.