O QUE É PASSEPARTOUT?

palavra do francês, usada tal qual também em inglês e em português. A grafia com o hífen, passe-partout, é mais comum, mas caiu na reforma do francês da década de 1990 (poucos a seguem). Composta do verbo “passar” e da palavra partout, “em todos os lugares, de todos os lados”.

Primeiramente, seria uma chave-mestra, que abre as várias portas de um mesmo edifício, por exemplo. Mas também: uma serra de lâmina longa, que deve ser manipulada por duas pessoas, uma de cada lado; o apoio de papel cartão, que fica entre uma gravura e a moldura; a máquina das embarcações para quebrar grandes geleiras; a peça que se adapta a diferentes calibres de seringas, de trilhos de trem.

Em sentido figurado, é aquilo que convém a toda e qualquer situação, que vai bem e agrada em todo tipo de contexto – assim como as palavras e tudo o que elas podem significar. Nelas muita coisa cabe.

O QUE É DRAGUER?

Verbo em francês, que veio do inglês to drag, no século 17. É primeiro equivalente a dragar, em português: retirar resíduos do rio, de canais, do mar – com um instrumento, rede, embarcação.

O sentido do verbo, seja em inglês, francês ou português, derivou ao longo do tempo. Entre eles há alguma relação, curiosa. No inglês drag, gíria londrina, seria “roupa feminina usada por homem”, as saias longas que se arrastam pelo chão como uma draga; no teatro, os papéis femininos feitos por homens vinham acompanhados da sigla drag para dressed as a girl; dessa mistura de explicações teríamos desde o começo do século 20 drag queen, depois drag king.

Em português draga pode ser uma pessoa que come muito, um carro velho, um revólver.

Em francês, draguer ganhou o sentido de procurar, coletar, buscar, em uso no vocabulário militar. A partir da década de 1960, draguer é procurar aventuras amorosas, paquerar. Para paquera não encontrei muitas informações, só que viria de paqueiro, cão caçador. Já com xaveco, gíria que descobri ser muito local (só em São Paulo?), interessante, voltamos ao vocabulário marítimo: é um tipo de embarcação mourisca; viria do árabe enredar, entrelaçar.

DEIXA

pra lá, não pega, não leva agora. Você precisa mesmo disso? Posso ir atrás depois, mais tarde. Agora não, assim tá bom, como está. Calma. Não é pra gritar. Não precisa chorar. Não importuna, você está enchendo o saco. Não tou afim de falar. Reclama menos das coisas. Ainda tem tempo. Amanhã é melhor, hoje não. Deixa eu falar, não estressa. Você não sabe como é. Pra que sair correndo? Ela é quem sabe. Você quer controlar tudo. Você não tem ideia de como é difícil. O que você tem a ver com isso? Os incomodados que se mudem. A vida não é do jeito que você quer.

O QUE É ENVISAGER?

É um verbo muito prático em francês, porque funciona como um substituto para pensar, planejar, considerar, fazer um projeto. O Robert traz a citação do Estrangeiro, de Camus, para exemplificar o uso de “envisager de”:

« Masson, Raymond et moi, nous avons envisagé de passer ensemble le mois d’août à la plage » (Camus)

“Masson, Raymond e eu, nós pensamos em passar juntos o mês de agosto na praia” (tradução minha).

E, sabendo o que acontece com Meursault naquele dia de planos e pensamentos sobre o futuro na praia, vemos que envisager pode ser só a criação de vagos planos, considerações. O que a gente tenta enxergar no futuro. Mas que pode se afastar dele.

Não há equivalente em português com essa mesma raiz de envisager, que vem de visage, que vem de vis, rosto, a aparência, aquilo que é visto. Há visagem em português, mas seu uso é restrito.

Visage está relacionado ao mesmo radical de inúmeras palavras em português: visão, revisor, aviso, prudente (aquele que provê), evidência, entrevista, previsto, improviso, revista, vídeo, visitação, vistoria.

O QUE É CONCERTO?

Em português, há tanto concerto como conserto.

[num concerto, a olhos vistos o músico fazendo a sua música, como o ator na peça ou mesmo num filme; e como vemos o escritor em seu fazer?]

Um concerto: qualquer apresentação musical (equivalente a show); uso que deriva por metonímia da composição musical feita para orquestra e solistas, no vocabulário da música erudita. Em francês essa distinção aparece: para eles há concert para a apresentação em geral (diz-se show no francês quebequense) e concerto para a música erudita.

Essas acepções aparecem, contudo, nos dicionários, depois de outras. Concerto é sinônimo de combinação, ajuste, reunião, pacto. Sua formação está ligada a certo, acertar, desconcertante. Envolve uma ação em grupo.

Concertar, o verbo: entrar em decisão por meio de um comum acordo, deliberar em conjunto; preparar, armar. O verbo consertar é uma “especialização”, e compartilha ainda algumas das acepções de concertar. Confusão que em francês não se dá: há concerter para a organização feita em grupo e réparer para fazer desaparecer erros e problemas, retornar algo ao seu estado de origem, reparar um erro.

O INGLÊS

que o Caetano fala parece só dele, um inglês que parece o melhor articulado, o mais clear. O sotaque de nenhum outro falante, mas o inglês de todos os falantes. Um som que me agrada em particular vem das músicas que ele canta em inglês.

Talvez tudo tenha começado com London, London, a versão dele em contraste com o que Paulo Ricardo fez nos anos 80 – as músicas acompanhadas de piano e violino também ocupavam um lugar especial na infância; assim como “Flores em você” do Ira, “London London” do Paulo Ricardo devia ser acompanhado parado em frente ao rádio, deixando os minutos passarem.

Conhecendo depois o disco do Caetano de 1969, de capa branca com a assinatura dele, um dos primeiros CDs que compramos em casa, vi que o repertório em inglês dele é maiorzinho e igualmente me encanta. Bem mais recentemente ele fez um CD todo de repertório dos EUA. Mas ainda uma música de 1969 me parecia alienígena, também procurava flying saucers in the sky: “Não identificado”. Pequena, eu achava que o refrão era uma língua distante, vinda da Índia, um dialeto de urdu renovado: como um objeto não identificado…

O CÉU SUECO

(em 2012, não só será possível ver a aurora boreal na Suécia, mas como de lá partir numa nave e ver os raios de pertinho; mais infos aqui)

tem aurora boreal. E não só isso:

o céu sueco é como ovonovo: vai e volta ao mesmo lugar. Tanto faz se percorrido de trás pra frente como na ordem em que se lê: é um palíndromo. Como vários outros palíndromos, são bonitinhos. Levantam voo e alcançam sempre outra coisa.

Não sei se já existe, mas ontem depois de comer pizza de alho, chegando em casa, criei esse aqui:

oh! lá, alho!

Talvez menos bonitinho que os outros, mas talvez seja só um começo.

O QUE É ENJEU?

[sugestão da Dani Prado]

Substantivo masculino. Do francês, palavra formada por en + jeu; logo, é possível, em alguns casos, traduzir-se enjeu por em jogo.

O Dictionnaire du moyen français atesta que o termo em sua origem designa o dinheiro que se colocava numa aposta, num jogo de dados, por exemplo; a aposta. Essa acepção continua em uso no francês de hoje em dia: aquilo que colocamos em jogo no momento em que ele começa, e que ficará com o ganhador.

A palavra ganhou então com o passar do tempo sentidos mais amplos. Por extensão, designa aquilo que se pode ganhar ou perder numa competição, empreendimento, debate. Tudo aquilo que colocamos em risco ou que esperamos obter.

Encontra-se frequentemente enjeu na imprensa, no discurso acadêmico, etc. Por exemplo: “dites quel est l’enjeu théorique du titre ‘Le langage et l’expérience humaine’, de Benveniste…”, questão com a qual me deparei faz pouco tempo. A presença de enjeu no enunciado me intrigou à beça.

O QUE É CONTRAINTE?

Do francês, do verbo contraindre: que exerce uma ação contrária a; forçar alguém a agir contra a vontade; obrigar, empurrar, controlar, condenar, reduzir.

Coerção, força, violência, intimidação, ameaça, pressão. Coisa que impede, que coloca obstáculo. Regra, disciplina, lei. Opressão.

[adaptado do dicionário le Petit Robert]

O dicionário le Petit Robert elenca ainda duas outras acepções para contrainte, uma para o mundo jurídico, outra para a física e geofísica. Mas não diz nada do emprego da contrainte na literatura (francesa principalmente) e nas artes.

Usar contrainte na criação artísitica é trabalhar sob regras e limitações, impostas arbitrariamente. Essas limitações podem ser dos mais variados tipos: na redação de um texto, pode-se limitar o número de palavras, pode-se proibir o uso de um dado tempo verbal ou mesmo de uma letra do alfabeto. Um exemplo: o escritor Georges Perec escreveu um romance sem usar uma única vez a letra “E”, a mais frequente no francês: La disparition.

Enquanto escrevia o texto abaixo me perguntava se eu estava fazendo sob uma limitação. E acho que sim, talvez mais de uma. Escrevendo sobre limitação sob limitações.