eu chegava num lugar cheio de subidas e árvores, uma região de serra. Lá, ia encontrar alguns amigos. Estava sozinha e precisava arranjar um lugar para estacionar. O terreno era difícil, circulei muito, de um lado para outro, procurando uma vaga. Pessoas esperavam, em fila, alguma coisa que eu não sei. Quando estacionei, o jipe virou uma maleta preta, muito bonita e prática. Uma moça estava por perto; disse a ela: – Você tome cuidado com essa maleta, ela é o meu carro. A moça ficou surpresa, começou a examinar a maleta, achando fabuloso que isso fosse possível.
Foi quando eu também percebi que meu jipe tinha algo que dificilmente outros teriam – e acordei.
Categoria: sonho
HÁ IDIOMAS
em que a palavra “outono” não existe – explicava um senhor que dominava muitas e muitas línguas diferentes. Sem a palavra outono, as folhas das árvores não mudam de cor, não caem. E também chega a primavera – continua ele. Só se vive os dois grandes momentos opostos do ano: o verão e o inverno.
Por outro lado, há palavras escondidas para momentos do dia e cores do céu que não conseguimos enxergar.
UM POETA AFRICANO
fazia uma visita por aqui. Ele compunha seus poemas em frente ao público, por escrito, numa grande lousa. O público se sentava ao redor e olhava o trabalho do poeta. Ao mesmo tempo, ele escrevia com o que observava nos rostos das pessoas que o assistiam, em silêncio. Era então, na lousa, um poema daquele encontro, feito para aquele instante.
FUI PRO AEROPORTO
e, antes de entrar no avião, apresentei a uma moça da companhia aérea vários cartões de embarque de voos que não estavam pontuados. Ela vai analisando um por um e me fazendo perguntas: como assim esse voo é operado por duas companhias? que significa esse adesivo? e que voo é esse aqui, de SCR a TDV?
Ela pega um bastão de cola para juntar alguns pedaços desses bilhetes, cheios de adesivos de brasões e siglas que eu não consigo explicar. Eram de viagens que eu não lembrava ter feito.
VIA NO ESPELHO
umas manchas estranhas no rosto. Algumas pareciam desenhos, reunião de pintas. Elas ficavam piores com o passar do tempo, me davam medo. E parecia que anos se passaram no sonho. Eu voltava ao espelho e as marcas tinham mudado de cor, de tamanho; mantinham-se todavia no mesmo lugar.
Estavam ali para me fazer lembrar quem eu sou, as coisas que eu fiz.
O PASSAPORTE NOVO
tinha saído; fui buscar o meu num guichê.
A senhora me entregou o passaporte, muito gentil; e junto com ele vários pequenos papéis – como aqueles comprovantes de votação que a gente tem que ir acumulando eleição após eleição. Cada papelzinho daquele deveria ser entregue em países diferentes: uns para a Dinamarca e o resto da Escandinávia, outros para os países asiáticos, cada grupinho de uma cor diferente:
– Tome cuidado para não perdê-los; esses tíquetes são muito importantes – dizia a senhora.
FOMOS VISITAR
um casal que acabou de conseguir sua casinha; era um apartamento simples. Não somos muito próximos deles – quem são na verdade? – são da sua família? – amigos nossos? – que língua falamos com eles? Sei lá.
Ficamos pouco tempo – conversamos, comemos bolo, demos risadas. Antes de irmos embora, notei que o moço pregou tachinhas (aquelas de colocar em mural de avisos) no nariz, como se fossem um tipo novo de piercing.
ABRIA UMA REVISTA
na sala de espera. Começo pela última página, ao contrário: fotos de museus pelo mundo. Na de baixo, um amigo, visitando um museu em Paris, o de arts premiers talvez. Na foto acima, de outro museu aqui em São Paulo, o mesmo amigo. E outras fotos sem ele.
Encontro com ele e comento: “como assim, você em duas fotos em museus diferentes?” Abrimos a revista, as fotos viram vídeos. Ficamos ainda mais intrigados com a coincidência – ou a perseguição.
CHEGOU UM DIA
de arrumar tudo: então abrimos os armários, separamos livros, trocamos de lugar algumas coisas na casa. Na bagunça, os vinis iam sozinhos para o toca-discos, a música começava – um susto! Tudo bem, os discos de vinil são assim mesmo, sabem tocar sozinhos. Fui lavar as mãos e a torneira era ao mesmo tempo uma cafeteira e uma máquina de costura. Só era preciso ter cuidado para não levar uma agulhada.
Bem que essa poderia ser a casa de Zazie, pensei eu.
Ou o apartamento de “Vinil verde“.
NÃO SEI ONDE ESTAVA
antes, mas em pouco tempo cheguei num lugar muito longe, longe de tudo. O terreno plano, poucas árvores, a terra muito vermelha e compacta. O dia estava acabando. Andamos muito; por pouco perdemos a van que nos levaria de volta (para onde?). Só dentro dele eu vi uma igreja muito diferente, feita de feixes de madeira, com umas imagens de santos locais muito estranhas. O olhar deles não parecia de santos; talvez quisessem zombar de tudo, até do respeito de santos que tinham.
