A MATERNIDADE E O ENCONTRO COM A PRÓPRIA SOMBRA, DE LAURA GUTMAN

é outro dos livros interessantes que descobri durante a gravidez. Estava lendo um relato de amamentação e lá encontrei a referência a ele. Fui atrás, encomendei, comecei logo a ler. Depois disso, em vários blogs, sites, relatos que eu acompanhava, via a mesma indicação de leitura.

Laura Gutman é uma best-seller. Tem um instituto em Buenos Aires, onde orienta famílias; muitos livros publicados; dá palestras, entrevistas. Em razão do sucesso de A martenidade…, ano passado, dois outros livros seus ganharam tradução para o português.

O livro parte de uma ideia muito elementar: a de que mãe e bebê vivem, nos primeiros momentos, uma relação fusional. O bebê vive no interior do corpo de sua mãe, durante a gestação. Mas, mesmo ao nascer, separado daquele corpo, a fusão ainda se mantém — falar de mãe ou de bebê é falar dos dois ao mesmo tempo.

Essa dimensão fusional é tratada em diversos escritos. Até mesmo em Shantala: a massagem conduz mãe e bebê a se descobrirem.

O bebê tem a capacidade de revelar à mãe sua sombra, ou seja, tudo aquilo que ela rejeita ou renega a respeito de si mesma. O pós-parto seria o momento-chave, durante o qual a mãe entra em contato com sentimentos contraditórios, inesperados.

Cabe à mãe colher a oportunidade de encontrar com sua própria sombra. Mas como a sombra dá medo — é obscura, misteriosa, pesada — muitas mães evitam esse processo de autodescoberta. Deixam a cargo da criança manifestar a sombra, das maneiras mais diversas: problemas na amamentação, doenças, desvios de comportamento, por aí vai… Em suma, qualquer interferência na relação fusional vai se manifestar, muito provavelmente, por meio do bebê.

Por esse ponto de vista, a autora comenta uma série de situações da maternidade: a gravidez, o parto, o papel do pai, a amamentação, a vida sexual, o sono, o nascimento de um segundo filho, a escola, o retorno à vida profissional…

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Outro ponto que me chamou muito a atenção durante a leitura: o bebê que temos nos braços se vincula ao bebê que também somos. Isso me encantou: acompanhar o Francisco me faz rever e renovar a criança que sou eu, que eu fui. Minha descoberta do papel de mãe envolve questionar como eu vivi minha infância, relembrar situações, buscar novos meios de me relacionar com o mundo.

Gutman também trata das doenças como manifestação da sombra — como uma mensagem que enviamos a nós mesmos. A mudança de alimentação pela qual estou passando faz parte desse meu esforço em entender melhor meu corpo e minhas necessidades (escrevi sobre isso aqui e aqui). Já me perguntei se a água que bebia em exagero não era algo que eu escondia de mim mesma.

Minha intenção neste post não é resumir o livro, até porque um post não dá conta disso, dada a variedade de temas que ela aborda. Escrevendo como fiz nos parágrafos acima, o livro pode parecer confuso, hermético. E não é. A escrita de Gutman é bem simples, sensível. Ela ilustra suas ideias com casos de mães, pais e filhos que ela atendeu em sua longa experiência como psicóloga.

O livro se dirige não somente a gestantes, mas a mães e pais de bebês, crianças pequenas, até mesmo adolescentes. Desde a gravidez, já o reli em vários momentos, discutindo sempre com o Marco.

Para finalizar, aponto dois aspectos que faltam ao livro. Primeiro: sinto falta de relatos autobiográficos. Gutman é mãe: como ela viveu sua autodescoberta? Ela se limita a descrever seus partos. Por que não fala mais sobre si? Segundo: em poucos momentos ela traz a referência às ideias que apresenta: Jung e Rüdiger Dahlke são alguns deles. Winicott parece ser um autor que a inspira mas ela não o cita. De qualquer maneira, o tema me interessa tanto que estou começando a ir atrás dessas leituras relacionadas. Assunto para outros posts…

BLW: BABY-LED WEANING

é uma expressão em inglês que muitas vezes traduzem como “desmame guiado pelo bebê”. Eu prefiro dizer que se trata de um método de introdução alimentar guiado pelo bebê — visto que o termo “desamame” pode dar a impressão que o leite materno está sendo suprimido da alimentação do bebê. Há pessoas também que interpretam o desmame como um longo processo, a partir do qual o leite materno deixa de ser a única fonte de alimento do bebê, até o momento em que ocorre o desmame total. Questão de ponto de vista…

Independente de como se pode traduzir, o BLW tem se tornado mais popular, nos últimos tempos. O termo foi cunhado por Gill Rapley, agente de saúde britânica. Ela percebeu, durante seu trabalho já uns 30 anos atrás, que muitos bebês tinham dificuldade para começar a comer com colher. Rejeitavam as papinhas que lhes eram oferecidas.

Pelo BLW, o próprio bebê conduz sua refeição. Ele pega os alimentos com suas mãozinhas e os leva à boca. Mais simples e elementar do que isso, impossível. De maneira intuitiva, descobre os primeiros alimentos, saboreia, rejeita, se lambuza… tudo de acordo com sua própria vontade e interesse.

Muitos bebês vão ficando curiosos com a alimentação dos pais e da família, quando se sentam à mesa, já por volta dos 4 meses. De toda forma, o que se recomenda é manter os seis meses de amamentação exclusiva. Mesmo depois disso, o leite materno se mantém como a principal fonte de alimento até um ano.

Quando o Francisco completou os seis meses, compramos uma cadeirinha, mas montamos sem aquela bandeja que vem na maior parte dos modelos. Assim, o Francisco come à mesa, como nós, sem distância. Até agora, ele provou frutas e legumes. Tudo cozido em casa, nada de papinha industrializada nem comida pronta de supermercado. Tempero pouco, orégano, manjeiricão, alecrim, azeite. Colocamos em pratinhos de plástico. Come-se junto conosco, no café da manhã, nos lanches, no almoço, na janta. Não me preocupo se ele está dormindo e perde alguma dessas refeições.

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É natural que haja, sobretudo, bagunça. Muitos pedaços de comida pela cozinha toda. Preciso sempre dar uma limpada no chão quando terminamos de comer. Roupas manchadas de comida, idem. O Francisco já tem várias camisetas e bodies com marcas de banana, manga, beterraba, coisas do tipo. Às vezes usa babador, mas tem momentos que ele mesmo o tira! Quando não quer comer mais, brinca com pratos e colheres.

Nesses primeiros meses, tenho visto que o Francisco tem tido cada vez mais interesse pelo que comemos. Gostou praticamente de tudo o que lhe foi oferecido. Frutas ácidas ainda evitamos, por conta das assaduras. De resto, ainda preciso aprender muito a me planejar e cozinhar, poder variar o cardápio, incrementar de maneira saudável sem apelar para industrializados, molhos com muito sal ou açúcar, etc. etc.

Tenho me informado muito pela internet, em sites, blogs e grupos de discussão. Gosto muito desse texto aqui: ressalta que comer é uma atividade sensorial e um momento em família. O blog todo, aliás, é muito inspirador.

Visito também a página oficial do BLW, que traz inclusive algumas receitas. Comprei também o livro de receitas delas, mas sinceramente não me agrada que tantas delas contenham farinha de trigo… Estou pesquisando alternativas, como farinha de arroz, por exemplo.

Além disso, acho legal recomendar esse blog de uma mãe falando sobre BLW e seus dois textos “teóricos”: 1 e 2. Essa outra blogueira também traduziu algumas diretrizes para o BLW, muito boas.

Para finalizar, um texto que não fala diretamente sobre BLW, mas tem muito a ver com o assunto: existe alimento infantil? A resposta é bem simples: salvo o leite materno, não existe “alimento para criança”! Infelizmente somos levados a acreditar que o melhor para os bebês são as comidinhas pré-fabricadas, com seus rótulos gentis e que escondem tanta porcaria. Continuo num próximo post…

DIZER NÃO

pode ser difícil, em alguns momentos. Escutar, compreender, filtrar o que se ouve é muito importante. Ainda assim, é preciso não ceder às próprias opiniões e princípios.

Estava relembrando situações em que disse não, quando li um texto de Eliane Brum que levanta essa discussão. Ela coloca o não como um elemento importante no caso da cesárea forçada a que foi submetida Adelir, no começo deste mês; um trecho:

Ao dizer “não”, Adelir tornou-se perigosa. Como uma mulher, usuária do SUS, moradora da zona rural, recusa-se a cumprir a ordem de uma doutora? Como ela ousa escolher o que considera melhor para ela e para seu bebê? Não como uma inconsequente, mas como alguém que se preparou para o parto, informou-se, contratou uma doula para ajudá-la? Nem mesmo quando botam um termo de responsabilidade diante dela, sempre assustador para todos e mais ainda para os pobres, Adelir recua. Ela assina. E vai para casa continuar a se preparar para dar à luz sua filha.
(…)
O que se torna claro no comportamento de Adelir é que ela tem a coragem de se responsabilizar. E se responsabilizar é ser mãe.
(…)
Quem já ousou enfrentar um diagnóstico médico, seja na rede pública ou na privada, sabe como essa é uma batalha penosa. Pode, inclusive, apalpar o tamanho da coragem de Adelir.

Adelir afrontou todo um sistema quando disse não às médicas que a atenderam. Infelizmente, sua vontade não foi respeitada — já tratei um pouco do assunto em outro post. E vale muito a pena ler o texto da Brum na íntegra.

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Aqui vai uma lista de nãos bem marcantes que dissemos ultimamente:

Não para o ginecologista. Numa consulta de rotina, já quase dois anos atrás, o doutor pergunta as datas em que menstruei. Ele se dá conta de que meu ciclo é irregular. Isso eu soube desde sempre, e vivo bem com essa irregularidade. Ele se preocupa e recomenda que eu faça um tratamento de fertilidade. Segundo ele, eu teria dificuldades para engravidar. Disse não repetidas vezes. Não via necessidade em controlar minha ovulação. Queria muito engravidar, mas não queria me preocupar com isso. Se não rolasse, tudo bem. Alguns meses depois, eu estava grávida. Falo disso também aqui e aqui.

Não para uma outra ginecologista. Ela estava cobrindo as férias da médica com quem eu estava fazendo o pré-natal. Durante o ultrassom, ela diz que o bebê é pequeno. E me propõe uma consulta adicional, em uma semana. Recuso. Ela insiste. Recuso novamente. E, como já disse, teria feito o pré-natal de outra maneira, sem tantos controles e exames, cuja necessidade é discutível. Pouca gente fala a respeito das imprecisões e riscos do ultrassom. Dias depois desse controle, a bolsa rompeu, entrei em trabalho de parto e o Francisco nasceu, sem nenhuma intervenção.

Não para a parteira. No relato de parto essa história já foi contada. Recusei o medicamento para dormir, que a parteira me recomendava. Ela pensava que melhor seria se eu poupasse minhas forças dormindo, sob efeito de medicamento. Eu queria um parto sem qualquer intervenção.Felizmente, foi o que vivemos. Prefiro nem imaginar como teria sido se eu tivesse tomado o remédio.

Não para o dermatologista. Tenho um problema de pele. Para tratar pela via tradicional, não poderia amamentar. O Francisco tinha 3 meses quando fui ao dermatologista e ele disse: “pare de amamentar. Dar de mamar é coisa do passado”. Sim, ele disse isso, contrariando todas as evidências e benefícios da amamentação. O que eu respondi: não! Eu quero amamentar! Hoje estou fazendo um tratamento alternativo, com base na minha alimentação. Está me fazendo super bem e o problema está melhorando aos poucos, naturalmente. O assunto é vasto, falo mais em outro post.

Não para a pediatra. Já contei sobre a consulta dos quatro meses. É impressionante como médicos estimulam que as mães desmamem! Por que será?

Certamente, essa lista poderia se estender…

Como tanta coisa na vida, dizer não é um exercício constante. Percebo que com o tempo tenho melhorado nessa prática de recusar, discordar, refutar — mas ainda há tanto o que aprender! Acima de tudo, é preciso saber que o quero para mim. Eis aí outro tema para desenvolver, em outro momento: “eu sei o que quero para mim?” Rende bastante assunto.

A CONSULTA DOS 4 MESES

do Francisco merece um relato. Nas anteriores, tudo correu bem; a pediatra tinha me felicitado por amamentar em livre demanda (o que ao meu ver deveria ser regra geral, mas enfim…). Por isso, voltamos lá aos 4 meses muito tranquilos. Procedimentos de rotina: pesar, medir. Francisco ainda bem nunca teve nada a assinalar, só uns dois resfriadinhos que passaram com o tempo.

Aí ela me mostra um gráfico: curvas de crescimento. A altura está na média, mas o peso, o pontinho, aparece mais abaixo. Ela pergunta se estou amamentando: sim. — Quantas vezes por dia? — Todas as vezes em que ele pede para mamar, inclusive de madrugada. A resposta desconcerta a médica: — Mas quantas vezes? Ah, ela quer um número. Não basta eu satisfazê-lo sempre… é preciso um número para preencher o prontuário. Arrisco: — Olha, mais que oito vezes ao dia.

Ela se vira do computador — claro, a maioria dos médicos hoje em dia olha mais para o computador, para os exames, gráficos, ultrassons do que para os pacientes e seus acompanhantes — e diz que preciso começar a medir a quantidade de leite que dou a ele. Devo pesá-lo antes e depois da mamada, para ver a diferença de peso. E — tchan tchan nanan — complementar com leite artificial. Mais uma vez, o mito de que o leite materno não é suficiente para atender ao que o bebê necessita.

A minha resposta, serena e firme: — Não, não farei essas coisas. Não concordo e pretendo seguir com amamentação exclusiva até os seis meses, ou mais, até ele começar a comer.

A médica arregala os olhos, enfurece: — Mas por quê?

Ao que eu argumento que a indústria de alimentos gera uma pressão enorme em torno de médicos, mães e pais a respeito da saúde e do peso do bebê. Que toda mãe, em ambiente tranquilo, tem a capacidade de amamentar e suprir as necessidades do bebê. Pesar, controlar, apenas atrapalhariam esse momento. O Francisco está absolutamente saudável, é simpático, ri, interage, se move. Não apresenta nenhuma razão para que eu mude o que quer que seja.

A consulta termina num clima estranho, a médica contrariada. Provavelmente não esperava minha reação. Saímos de lá perguntando para nós mesmos: — Quantas mães e pais contestam o que dizem os médicos? Quantas pessoas tem confiança naquilo que fazem?

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Voltando para casa, fui pesquisar sobre curvas de crescimento. As que a médica possui em seu consultório são diferentes daquelas que estão disponíveis no site da OMS.

Mas o que me salvou foi um maravilhoso texto do pediatra espanhol Carlos González, publicado nas Delícias do Dudu — vale muito a pena ler qualquer coisa que ele escreve, aliás; muita gente compartilha trechos dos livros dele pela internet, é só ir atrás. Caiu como uma luva: bebês que mamam no peito tem um crescimento diferenciado; aos 4 meses, mamam com mais velocidade. Era tudo o que estava acontecendo conosco.

Aliviada por encontrar algum tipo de apoio, mesmo que pela internet, ainda mais confiante, o que me restava era somente manter a calma, um ambiente confortável para nós, estar sempre de olho na pega, dar de mamar sempre que o Francisco pedir (ou que eu achar necessário). Isso é livre demanda, assim como o mesmo Carlos González define em outro texto seu; gosto tanto que vou me dar a liberdade de citar o trecho final aqui:

a livre demanda não é uma escravidão, mas sim uma liberação para a mãe. A maioria das vezes pode fazer o que quer o seu filho, de modo que o bebê está feliz e não chora e portanto, a mãe também está feliz e não chora. E de vez em quando pode fazer o que ela quer. A escravidão é o relógio.

ovonovo_-45Temos aprendido muito com o Francisco o quanto somos apegados a controlar o tempo, medir, prever… — escrevi inclusive um post sobre isso. O importante, em meio a tanta informação ao nosso redor, é escutar nosso coração, entrar em sintonia com ele.

Ainda continuo sobre o tema. Comecei já no post anterior, sobre as dificuldades que rondam a amamentação, a partir de casos que conhecemos. A seguir, pretendo falar das minhas dificuldades em particular.

VOCÊ QUER AMAMENTAR?

— Sim; foi sempre essa a minha resposta.

Ao longo da gravidez, informei-me bastante sobre amamentação. De toda forma, sinto que ainda não sei o suficiente. E por mais que tivesse lido estudos e guias, relatos, visto vídeos, acompanhado grupos de discussão, só depois, na pele, fui perceber o quanto um ato fundamentalmente instintitvo (somos mamíferos, não é mesmo?), que faz tão bem à criança e à mãe, é cercado de tanta dificuldade.

Pois sim: amamentar é difícil — mas cada pedra no caminho não supera a beleza, a conexão e o amor que envolvem esse ato. É triste constatar que a delicadeza da relação entre mãe e bebê pode ser rompida tão facilmente. Basta um momento de insegurança em relação ao leite materno, ao sono e ao peso do bebê; basta uma indicação médica errônea; basta um olhar enviesado de algum membro da família ou amigos; basta uma prateleira no supermercado repleta de mamadeiras e leites artificiais, com rótulos gentis… Em suma, a falta de informação e de apoio — frente ao forte apelo das indústrias de alimento — rompe todo um processo natural e importante para mães e bebês.

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Nada se compara ao olhar do bebê ao mamar no peito — olhar profundo esse que é também da mãe, observando seu bebê. Ambos silenciosos, ambos alimentando-se um do outro.

De maneira bem sucinta: o recomendado é amamentar exclusivamente e em livre demanda até que o bebê atinja os seis meses de idade. A partir daí, o leite materno continua sendo a principal fonte de alimento do bebê até um ano, período em que vai começando a comer outros alimentos. O desmame deveria acontecer a partir dos dois anos, em acordo entre o bebê e a mãe.

Ao visitar amigos com filhos pequenos, vez ou outra, Marco e eu perguntamos sobre como foi a amamentação. A partir das experiências que ouvimos, é possível desenhar algumas situações em que o desmame acontece de maneira precoce.

A mais drástica: o bebê não amamenta desde o início ou desmama nos primeiros meses. Conversando com a podóloga, ela disse que era uma exceção quando criava seus filhos pequenos, 20 anos atrás, na Grécia. 9 entre 10 mulheres deixavam de amamentar o mais rápido possível, para que pudessem voltar a fumar. Já haviam interrompido o hábito durante a gravidez, o que parecia muito tempo… Era moda fumar, e não dar de mamar. Pode-se dizer que esse tipo de caso não acontece somente na Grécia, tampouco se limita àquela época.

De maneia mais frequente, a substituição do leite materno por artificial acontece aos 4 meses, momento em que a mãe volta ao trabalho. A licença-maternidade é curta demais para que ela dedique-se ao bebê. O leite artificial mostra-se mais “prático”. Outras pessoas da família podem dar a mamadeira ao bebê. Ele bebe uma quantidade definida. O leite artificial é mais pesado, o que faz com que ele durma ininterruptamente durante a noite. Mas não se mede os prejuízos que toda essa praticidade traz ao bebê, aos seus vínculos afetivos com a mãe, ao seu aparelho digestivo ainda imaturo, ao seu ritmo de sono… Mesmo mães que ficam em casa com os filhos acabam largando a amamentação por conta dessas aparentes vantagens — algo semelhante às mães gregas de que falei acima.

Uma mãe que conhecemos resolveu dar mamadeira com leite artificial à filha para que ela tivesse mais liberdade: ela queria voltar a sair de noite com as amigas, ir ao cinema. A bebê tinha por volta de 5 meses… O que aconteceu? Ela começou a rejeitar o peito, quando a mãe oferecia seu leite. Beber na mamadeira oferece menos dificuldade do que sugar o seio (o movimento de sucção dos bebês no peito favorece toda a musculatura bucal, auxilia a fonação e o processo de fala, que acontecerá no futuro). Perderam as duas, mãe e filha. A mãe entristeceu-se, pois não havia se informado sobre a confusão de bicos e que oferecer mamadeira (e outros bicos artificiais, como chupeta) pode colocar em risco a amamentação. Ela gostaria de ter prolongado aquele momento tão singular que tinha com sua bebezinha.

Outra amiga também entristeceu-se muito ao perceber que seu filho estava demonstrando cada vez mais interesse pela mamadeira. Ele desmamou quando tinha pouco mais de 6 meses. Ela não precisava voltar ao trabalho, não sentia necessidade de sair sem o filho. O que houve dessa vez? A preocupação com a fome do bebê. Ele sempre pedia para mamar. Ela decidiu então dar o leite artificial como complemento, pensando que seu leite não fosse o suficiente.

Esse é um dos mitos que mais circulam: que o leite materno não satisfaz e não dá conta das necessidades do bebê. Fico imaginando se uma mãe gorila, morcega ou capivara vacile quanto ao seu próprio leite. Arrisco dizer que só mães humanas desconfiam de suas capacidades. As razões são inúmeras, um post é pouco para tratar disso.

O Francisco pede muito o meu peito. Não é somente por fome no sentido estrito. É fome de calor do meu corpo, do conforto dos meus braços, do acalanto das batidas do meu coração; é vontade do meu cheiro, do meu toque, de estar juntinho o tempo que for. Por isso, como disse acima, amamentar é uma relação — amorosa, sobretudo. Numa amizade ou num namoro, conta-se quanto tempo dura uma conversa no bar, as ligações telefônicas, quantos beijos e abraços foram trocados? Por que devo então contar quantos mililitros de leite meu bebê ingere, durante quantos minutos ele fica no peito? Por que achamos um exagero um bebê querer ficar junto do corpo de sua mãe, dormir com ela?

E, para terminar o post (mas sem dar o assunto por encerrado): por que uma experiência tão singular para todos nós — afinal, todos um dia fomos bebês — é abreviada e frustrada em muitos casos? Que consequências isso traz para a nossa formação e crescimento?

ANTES, EU ACHAVA QUE

ovonovo_-10— o Francisco dormiria no berço; mas Marco e eu, em pouco tempo, sentimos que era muito mais bonito que ele ficasse do nosso ladinho, na cama mesmo; foi a melhor mudança que fizemos (textos legais sobre cama compartilhada aqui e aqui; recomendações e cuidados, aqui)

— eu enrolaria o Francisco num cueiro, para ele dormir todo aconchegante e apertadinho, como no útero; mas, da primeira vez que eu tentei, ele reagiu com tanta força que deixei a ideia de lado (recomendo que se leia sobre exterogestação; faz todo o sentido e ajuda os bebês na transição dos primeiros meses: aqui, aqui e aqui).

ruído branco ajudaria a acalmar os momentos de mais desconforto; afinal, o barulho do sangue pulsando dentro de mim, que ele ouvia continuamemte antes de nascer, é um ruído branco; tentei algumas vezes e não vi um efeito que me fizesse adotar a prática; dormimos ouvindo música: Ayo, Mayra Andrade, Cesária Évora, Lambchop, Nick Drake, Balaké Sissoko, João Gilberto, Beck, qualquer coisa calma.

— o sling de argolas seria meu preferido; mas não me acostumei com a argola, a todo momento preciso ajustar e nunca fica bom; estou usando muito o pouch, tanto em casa como na rua (meus posts sobre slings aqui).

— usaríamos o balde para dar banho; no começo foi uma maravilha, mas o Francisco cresceu e não queria mais ficar lá dentro; faz uns meses o banho é de chuveiro mesmo: Marco o segura e eu vou lavando; ele ama.

— eu não daria de mamar na posição deitada, por receio de dormir e me movimentar; pois essa é a nossa posição preferida! e mesmo que eu durma, não me movo; dizem que é um instinto da mãe, coisa que eu acredito; é lindo, selvagem, ajuda a descansar, ideal para amamentar de madrugada; só é preciso controlar sempre que possível a pega — como sempre, aliás.

— eu faria shantala todo dia, seguindo todos os movimentos; mas, como Francisco não reagiu bem das primeiras vezes, eu faço uma massagem própria nossa, quase toda concentrada nos pés, o que ele prefere e curte. Ainda vou escrever um post sobre o livro “Shantala”, emocionante relato do Frédérick Leboyer, que recomendo muito. Um bom guia sobre shantala: aqui.

A lista poderia continuar. Há sempre algum plano, sonho ou ideia que muda totalmente no momento em que colocamos em prática. E não estaria no imprevisível a graça de ir vivendo e aprendendo sempre?

O QUE COMER DURANTE A AMAMENTAÇÃO?

essa pergunta me vinha à mente todo o momento, nos primeiros dias. Eu já sabia que o sabor do leite materno muda em função daquilo que a mulher come, mais doce, mais salgado. Além disso, se o alimento prende ou solta mais o intestino, se provoca mais acidez, eram detalhes que eu tinha ouvido falar. A parteira, por exemplo, logo me disse para eu não tomar suco de laranja, ou poderia provocar uma diarreia no Francisco; nem poderia comer pêssego, damasco ou ameixa, porque dariam dores de barriga. Com o passar dos dias, percebia que uma cólica vinha logo pela manhã — um incômodo antes de fazer cocô. Ele acordava reclamando de dor e se contorcendo. Isso era uma razão e tanto para ficar atenta ao que eu comia.

Outro fator: batia uma fome grande, muitas vezes ao dia. Era uma fome mais forte do que aquela da gravidez. Eu já acordava na madrugada para ir comer algo, quando grávida. Amamentando, então, virou uma regra.

Agora, aos quase seis meses de amamentação, essa super larica já diminuiu (acredito também que era um pouco de ansiedade, confesso…). Mas, nos primeiros meses, eu comia muito e, ao contrário do que se espera — que amamentar em livre demanda faz a pessoa emagrecer muito rápido — não perdi um quilo sequer até o momento. Somente depois que o Francisco começar a desmamar (sabe-se lá quando, é coisa pra nós dois decidirmos) é que vou começar a pensar em comer menos, para perder os quilos da gravidez.

Voltando ao início, quando eu me perguntava o que seria ideal comer: naquele momento, não conhecia esse texto, publicado no gva (grupo virtual de amamentação) do facebook. Aliás, vale muito a pena entrar no grupo para ter acesso a vários textos sobre amamentação. Recebi uma lista da casa de parto, bem simples, que vale a pena compartilhar aqui:

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– comer alimentos com pouca gordura e pouco sal (eu praticamente tirei o sal da comida, tempero levinho com manjericão, orégano, azeite de oliva); preferir integrais.

– evitar: feijão, vagem, couve flor, ervilha, repolho, alho poró, pimentão, cebola, aspargos, alho; entre as frutas, abacaxi, morango, laranja, pêssego, damasco, ameixa, uva, limão, nem os sucos dessas frutas.

– o que comer? beringela, couve de bruxelas, cenoura, beterraba, espinafre, abóbora, abobrinha, tomate, alface; dentre as frutas, maçã (cozida ou assada de preferência) banana, pêra, amora, framboesa, kiwi.

– desde a gravidez, deixei de lado o café, chás com cafeína, sucos industrializados; doces vou tentando evitar!

– água, sempre, e principalmente durante a mamada.

– quinoa; não estava na lista que recebi, mesmo assim estamos investindo muito nela! eu cozinho simples, na água (400g para 1 litro de água), depois vou adicionando outros legumes, peixe, tempero; rende para quase todos os almoços da semana. trigo ou lentilha eu percebi que davam mais cólica no Francisco, por isso vamos consumindo mais moderadamente.

Procurando na internet, não se encontra um consenso a respeito da questão. De qualquer maneira, é interessante ficar de olho no que se come. Tenho observado, comigo e com o Francisco, que há uma relação entre o que como e sua digestão. Mesmo já com seus cinco meses e um intestino mais desenvolvido, ele sente mais dificuldade pra digerir meu leite depois de eu ter comido algo mais pesado. É uma coisa para acompanhar, caso a caso.

O CORPO TODO AMAMENTA

foi o que senti desde o começo. O meu corpo todo estava dedicado àquela atividade: dar de mamar; e não somente o corpo mas a mente também. Dar. Dar o seu tempo, a sua atenção, os seus pensamentos, os seus sentimentos e expectativas. Amamentação é sobretudo entrega. Já ouvi dizer que seria uma prolongação da gravidez, mas mais que isso.

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O bebê é pequeno, magrinho. Eu o observava, cada pequeno movimento, para identificar os sinais da fome. Colocava pertinho de mim. Mas como, de que lado? Onde posiciono os seus bracinhos? E a cabeça? Mais pra cima, mais pro meio? Onde é melhor: no sofá, na cadeira, na cama? O bebê se debate, fica ansioso. A mãe, desajeitada, compartilha a ansiedade. O coração bate depressa. Vem o choro. Vem a preocupação. Estou fazendo certo? Ele está pegando o peito direitinho? Está realmente saindo leite do peito?

Para o bebê, é tudo ou nada. Mamar é questão de vida ou morte. Fome, essa coisa que ele sente só agora, aqui fora. Ainda tem a lembrança daquela vida lá dentro da mãe: não respirava, não tinha frio, não tinha vazio. Fora é a enorme claridade, o ar que entra e sai do corpo, a barriga que pede leite. Mas não só leite. Acima de tudo, ele quer aquele corpo de volta, aquele corpo que não é mais seu. A mãe. Ele quer a mãe, quer olhos nos olhos, quer tocá-la, quer sentir a pele, a voz, o cheiro.

O bebê pede pra mamar quando você está almoçando, quando você precisa ir ao banheiro, quando o zelador toca a campainha, quando o carteiro está entregando um pacote pesado, quando você está dormindo. Quanto leite ele deve beber, por quanto tempo ele vai mamar? Essas perguntas não significam nada para o bebê, que não conhece tempo, que não conhece quantidade.

Há toda uma dimensão selvagem da amamentação que é simplesmente deixada de lado. Esquecemos que somos animais, que somos mamíferos… e que dar de mamar não se resume somente a alimentar.

A sensação da primeira sugada é estranha e ao mesmo tempo maravilhosa. Ao longo dos minutos de mamada, o corpo todo dói. Os braços segurando o bebê. As costas, sentada numa mesma posição minutos a fio. E os seios, é claro, delicados e ao mesmo tempo poderosos.

Eu olhava para o relógio e via as horas passarem. Meu corpo ali, sentado, com o Francisco nos braços.

Repetindo o que já disse, é uma entrega; e eu me entregava, de corpo e mente.

OS TRÊS DIAS NA CASA DE PARTO

foram muito bons, principalmente pelo fato de que pude me concentrar no Francisco, dormir bastante e com toda a calma começar a amamentar, afastada dos afazeres de todo dia. Ao contrário de um hospital/maternidade, nós três, Francisco, Marco e eu, dormimos juntos, na mesma cama aliás.

Como o nome já indica, estávamos em uma casa, sob a gestão de parteiras. A comida era feita ali, alguns dos vegetais vinham da horta. Fazíamos as refeições juntos, todas as mulheres que tinham parido nos últimos dias, os maridos, alguns dos filhos inclusive. Do quarto era possível escutar os choros dos outros bebês, e mesmo os gritos das mulheres em trabalho de parto. Era, por isso, um lugar de convivência, sem a privacidade e impessoalidade que predomina em um hospital, mais amplos — com mais pacientes — e com mais trocas de turno de funcionários. Lembrava sempre de um trecho do relato de parto de Laura Gutman, em seu livro A maternidade e o encontro com a própria sombra; ela, ao presenciar o parto de outra mulher, conseguiu dar andamento ao seu próprio.

No primeiro dia, logo depois do parto nós dormimos e assim que o Francisco acordou uma das parteiras veio me instruir sobre como dar de mamar. Elas se preocupavam com o peso dele, temiam que ele perdesse ainda alguns gramas. Não só por isso, mas para manter o vínculo, deixava o Francisco quase o tempo todo no seio, dando uma pausa para comer ou dormir (esqueci de levar o sling dentro da mala…) . Ofereceram um tipo de vitamina que “reforçaria” o leite: eu deveria dar uma mamadeira a ele com essa vitamina depois do leite.

— O quê? Mamadeira? Não, eu não quero dar mamadeira pro meu filho. Ele vai confundir os bicos e deixar de mamar no meu peito.

— Isso não existe, confusão de bicos é psicológico.

Confusão de bicos não é psicológico — mamadeira desestimula a amamentação, de um jeito ou de outro. Outro problema grave é o mito de que o leite materno não é suficiente para o bebê. Eu, sem querer argumentar muito, recusei. Já não era a primeira vez que eu recusava algo (é só lembrar do remédio pra dormir no começo do trabalho de parto). Também recusei gentilmente o “presentinho” que dão a todo bebê: uma chupeta, amarrada num cordãozinho com o nome dele. Arrumei uma tesoura, deixei a chupeta e levei o cordão pra casa, porque era fofinho. Mas como podem presentear algo que comprovadamente causa problemas de todo tipo na criança? Numa tacada, fomos confrontados com vários dos fatores que afetam a amamentação…

O leite desceu entre o segundo e o terceiro dia. O cocô já não era mais o mecônio escuro, mas aquela clássica pastinha amarela, uhu! sinal de que estava correndo tudo bem. A pediatra examinou-o no segundo dia — foi o único contato com um médico naqueles dias lá. No terceiro, uma enfermeira me deu muitas dicas para cuidar dos seios, que já estavam super carregados: folhas de repolho branco geladas dentro do sutiã, chá de sálvia para limpar e desinfetar naturalmente os mamilos; além de massagem, repouso e seios ao ar livre sempre que possível.

Lá o Francisco tomou banho naquele maravilhoso balde, no terceiro dia. Fiquei maravilhada! Ele parecia flutuar lá dentro… — Quero dar banho nesse balde em casa também! Logo que voltamos para casa, o Marco foi correndo comprar um balde. Banho de balde é tudo de bom.

Balanço: dentre as opções que tínhamos, a cada de parto foi a melhor de todas. Gostamos muito de podermos ficar o tempo todo juntos, num quarto só, dormindo, escutando música, recebendo as visitas. E junto também de outras mães e bebês, vivendo experiências próximas. Mas isso não quer dizer que seja perfeita. Desagrada o fato de terem recomendado mamadeira e chupeta. Coube a mim, é claro, nos defender e recusar. Mas fico pensando em quantas mães aceitam, por falta de informação, e como isso pode interferir negativamente na amamentação e em todo o vínculo entre mãe e bebê.

A questão é, independente de como ou onde é possível parir, o importante é ter-se informado muito bem, previamente, sobre os procedimentos de rotina do lugar (havíamos feito duas visitas à casa antes do parto). E, mais do que isso, ter muito firmes seus princípios. Quer realmente um parto normal? Quer realmente amamentar em livre demanda? Então informe-se e mantenha-se firme, recuse o que vai contra o que pensa e defende. O pós-parto é um momento muito delicado, em que muitas escolhas e convicções importantes podem ser deixadas de lado mais facilmente do que se imagina…