DOIS SONHOS

mãos se estendem; querem pegar ou largar?

no primeiro, a professora me repreendia, criticava, reprovava tudo o que eu fazia; eu me alterava, chorava, tentava me defender como podia; nada adiantava. A professora ria ao me ver naquele estado.

Em outro, eu estava dando uma palestra em conjunto com outras pessoas. Falava de tudo e de nada. Era algo como um relato pessoal sobre questões da educação superior. Defendíamos os cursos amplos, abrangentes, e nos colocávamos contra cursos muito especializados. As pessoas se movimentavam, eu não sabia onde ficar, pra que lado me dirigir.

ERA O COMEÇO

de uma aula, da graduação. Eu queria assistir como ouvinte. A sala em tons muito escuros, em alto contraste, de cinza e amarelo. A professora não parecia ela, mas uma reunião de professoras que eu conheço. Ela hesitava em falar. Os alunos pareciam todos vestidos de preto, mas um preto úmido (talvez como no começo de ‘Retrato do artista quando jovem’). E nos meus óculos tinham passado vicky vaporub.

Um colega começa a falar e eu vejo que ele colocou os cabelos no lugar da barba. A cabeça meio raspada. Fico com vergonha dele e da minha presença lá. Resolvo sair rápido.

Chego na seção de alunos, a funcionária está sentada no chão, sujeira e areia. Uns insetos rodopiam. São joaninhas de várias espécies e tamanhos. As maiores estão comendo as menores. Menores ainda são uns pulgões (agora me lembro que no livro de ciências as joaninhas comiam pulgões, tinha uma foto), e menores ainda talvez fossem ácaros.

Aparece um cara que trabalhou comigo, que cuidava da eletricidade. Fico pensando porque até hoje ele estaria solteiro; mas uma moça iria aparecer na vida dele; digo isso pra mim mesma enquanto ele vai embora de carro, para a casa dele, que fica num bairro tranquilo, muito longe e fora de mão.

FRAGMENTO

de uma página da agenda de 2008, 6 de fevereiro:

les revues étalées

imaginez que vous êtes dans un kioske à journaux, vous regardez les couvertures;

quelles idées elles vous transmettent : type, public, fréquence

[As revistas espalhadas, imagine que você está numa banca de jornais, você olha as capas; que ideias elas transmitem: tipo, público, frequência.]

Pensei em mil coisas (uma reportagem com meu vô na gazeta de Pinheiros, foto da minha mãe numa banca, um desenho de Sempé…) antes de me dar conta de que isso era muito provavelmente um pedaço de atividade para a aula de francês, que eu só vislumbrei mas não coloquei em prática.

CÍRCULOS CONCÊNTRICOS

foi com essa imagem na cabeça que eu fui pra cama ontem dormir.

Ela surgiu encostando no travessseiro, e mais mil outras que eu não vou saber dizer. Surgiu como imagem para eu conseguir falar ao mesmo tempo do gênero autobiográfico, do livro Bardadrac, do Genette (tema da aula), da minha pesquisa e do trabalho dos alunos. Mas pensando agora, não é exatamente de um mesmo centro que esses círculos podem partir. Ainda pode ser que vale a pena, mas fico me perguntando agora se a imagem de uma corda não seria a que mais caberia ao que eu tento mostrar na aula, na minha pesquisa. Se não é a minha maneira de ver as coisas, unidas por semelhanças que se interrelacionam mas não necessariamente percorrem todo o caminho.

Voltando aos meus pensamentos na hora de dormir, eu só lembro que eu disse a mim mesma, “é muita coisa que você está pensando, não seria melhor você se dedicar agora para dormir bem e acordar bem disposta amanhã?”

Devo ter tido sonhos com temas outros que a minha aula, que eu vou dar hoje para a disciplina de que sou monitora. Mas tudo se foi embora. Antes disso, tive a atitude de levantar da cama, pegar o celular que despertou no horário correto (bem cedinho, porque dou uma aula particular antes da aula da graduação, às 7h30), desligar o modo despertar e deixá-lo do meu lado na cama.

Como se eu quisesse também colocá-lo para dormir, que ele parasse de tocar e assim de me fazer esquecer de algumas coisas.

FOMOS PARA

Paris: Luís, meu pai e eu. Não sei para quê. Talvez simplesmente para passear. Ficamos na Bastilha, alguns lugarezinhos que eu não conhecia. Sol, andando bastante a pé pra cá e pra lá. Queria ir numa igreja, que eu chamava de Madeleine mas não era a Madeleine.

O apartamento onde ficamos lembrava o de Santa Cecília. Mas era um apartamento do Rogério, que mora em Barcelona. Ele nos emprestou o apartamento, ligou pra gente, queria saber se estava tudo ok. Meu pai me pergunta se aquele apartamento não seria o nosso, o mesmo, de Santa Cecília.

O Luís vai embora dois dias depois, talvez tivesse voltado para São Paulo.

Eu e meu pai também partimos de Paris, mas eu fui direto para Palmas, TO. Lá eu ia dar aula.
Encontrei claro o Sérgio, no corredor da escola-faculdade-não sei o que era, junto com outros professores. Daqui uns minutos o sinal ia tocar, e cada prof se dirigia a uma sala. A minha sala era a 10. A sala ficava naquele corredor, mas eu não encontrava a sala. Sem me preocupar muito do que ia fazer na aula, de quem eram os alunos, eu continuava a conversar, mas também não entendia muito do que as pessoas falavam.

Tinha um mosquito colorido, com cara de criança e boné, que abria uma telinha e começava a mostrar vídeos. Era um mosquito raro, disseram pra não matar o bichinho. Um professor já entrou na sala para onde o bichinho voou. O Sérgio também entrou na sala dele.

Eu procurei minha sala, com muita dificuldade achei. Na porta, para confundir, estava escrito assim:
123y X 18-10 D
Pode ser que os alunos colocaram números e letras na porta da sala, imaginei. Lá dentro, crianças e adolescentes, eu não sabia determinar que idade tinham, uniforme roxo. Estavam ensaiando uma peça de teatro. Não sabia se uma das adolescentes do grupo era realmente a professora substituta ou era um papel da peça.

Enquanto isso, o Luís continuava em Paris.
Ele mudou de visual, deixou um bigodinho, o cabelo ficou meio anos 90, estava usando umas roupas de rapper, jaqueta adidas, corrente no pescoço, essas coisas. Tinha um carrão.

Fui me encontrar com ele, estava com saudade. Me levou com uns amigos no carro dele para passearmos. Chegamos numa quebrada, uns caras nos assaltaram. Fiquei meio sem graça de mostrar que eu não tinha euros, meu celular e meu mp3 são velhos e não devem custar nada na França.

UMA PROVA

não sei de onde ela veio, mas era uma prova que eu tinha que fazer. Cheguei na sala de aula, o baque, como assim, o que é isso aqui? Não entendia nada do que estava acontecendo, nem saberia dizer o que eu estudava ali, do que se tratava as perguntas da prova. Gelei.

Resignada, me curvei frente à folha cheia de questões incompreensíveis. De repente, alguém começa a cantar Vai passar, do Chico Buarque – simplesmente próprio Chico Buarque.

Olha aí, ele de novo num sonho – penso eu.

Vai passar é uma das músicas que eu mais gosto dele, que não sou daquelas fãs que vão ao show. Cantei junto, dei risadas da vida, pensei que aquela prova não era nada frente à beleza da música, de todas as músicas.

A sala também começa a acompanhar o Chico e tudo termina feliz. O Chico Buarque não era o Chico Buarque mas o Luís, em quem eu dou um abraço.

COMO TODO COMEÇO DE ANO LETIVO

tive sonhos cujo assunto principal são aulas, colegas professores, alunos antigos e novos. Já sonhei outras vezes que dava aula de alemão sem saber nada do que estava fazendo, em outro só um aluno tinha entrado na sala, constrangido, sem termos idéia de onde estavam os outros… a maior parte desses sonhos traz situações ruins.
Essa noite foi repleta de coisinhas novas, mas mais do mesmo no fim das contas: eu perdia hora para dar aula, porque ficava sem razão em casa, meu pai chamando para ir ao cinema; eu tomava banho e conversava com colegas no banheiro, um deles tentava entrar no banheiro e eu ficava brava. Estava no ônibus na avenida Europa, uma vizinha do prédio muito simpática me liga querendo aula, eu aceito (nem lembro quem ela é), ela diz que preparou um presente pra mim.

Esses sonhos me preparam na marra, de uma certa maneira, ao ritmo das aulas, do imprevisto constante, da firmeza que se deve ter – até o fim do semestre e o recomeço das férias.