EU QUERIA MAS

(até para conseguir o que quero) tenho que aceitar: – que algum termo no dicionário explica o que parece não encontrar palavra; – que não sou eu quem conta minha história; – que eu sou na verdade personagem, personagem ou aparição de sonho que quer contar uma história dentro de outras, mas que vive uma outra história que outra pessoa me conta.

O QUE É ENVISAGER?

É um verbo muito prático em francês, porque funciona como um substituto para pensar, planejar, considerar, fazer um projeto. O Robert traz a citação do Estrangeiro, de Camus, para exemplificar o uso de “envisager de”:

« Masson, Raymond et moi, nous avons envisagé de passer ensemble le mois d’août à la plage » (Camus)

“Masson, Raymond e eu, nós pensamos em passar juntos o mês de agosto na praia” (tradução minha).

E, sabendo o que acontece com Meursault naquele dia de planos e pensamentos sobre o futuro na praia, vemos que envisager pode ser só a criação de vagos planos, considerações. O que a gente tenta enxergar no futuro. Mas que pode se afastar dele.

Não há equivalente em português com essa mesma raiz de envisager, que vem de visage, que vem de vis, rosto, a aparência, aquilo que é visto. Há visagem em português, mas seu uso é restrito.

Visage está relacionado ao mesmo radical de inúmeras palavras em português: visão, revisor, aviso, prudente (aquele que provê), evidência, entrevista, previsto, improviso, revista, vídeo, visitação, vistoria.

O QUE É CONCERTO?

Em português, há tanto concerto como conserto.

[num concerto, a olhos vistos o músico fazendo a sua música, como o ator na peça ou mesmo num filme; e como vemos o escritor em seu fazer?]

Um concerto: qualquer apresentação musical (equivalente a show); uso que deriva por metonímia da composição musical feita para orquestra e solistas, no vocabulário da música erudita. Em francês essa distinção aparece: para eles há concert para a apresentação em geral (diz-se show no francês quebequense) e concerto para a música erudita.

Essas acepções aparecem, contudo, nos dicionários, depois de outras. Concerto é sinônimo de combinação, ajuste, reunião, pacto. Sua formação está ligada a certo, acertar, desconcertante. Envolve uma ação em grupo.

Concertar, o verbo: entrar em decisão por meio de um comum acordo, deliberar em conjunto; preparar, armar. O verbo consertar é uma “especialização”, e compartilha ainda algumas das acepções de concertar. Confusão que em francês não se dá: há concerter para a organização feita em grupo e réparer para fazer desaparecer erros e problemas, retornar algo ao seu estado de origem, reparar um erro.

O QUE É ENJEU?

[sugestão da Dani Prado]

Substantivo masculino. Do francês, palavra formada por en + jeu; logo, é possível, em alguns casos, traduzir-se enjeu por em jogo.

O Dictionnaire du moyen français atesta que o termo em sua origem designa o dinheiro que se colocava numa aposta, num jogo de dados, por exemplo; a aposta. Essa acepção continua em uso no francês de hoje em dia: aquilo que colocamos em jogo no momento em que ele começa, e que ficará com o ganhador.

A palavra ganhou então com o passar do tempo sentidos mais amplos. Por extensão, designa aquilo que se pode ganhar ou perder numa competição, empreendimento, debate. Tudo aquilo que colocamos em risco ou que esperamos obter.

Encontra-se frequentemente enjeu na imprensa, no discurso acadêmico, etc. Por exemplo: “dites quel est l’enjeu théorique du titre ‘Le langage et l’expérience humaine’, de Benveniste…”, questão com a qual me deparei faz pouco tempo. A presença de enjeu no enunciado me intrigou à beça.

O QUE É CONTRAINTE?

Do francês, do verbo contraindre: que exerce uma ação contrária a; forçar alguém a agir contra a vontade; obrigar, empurrar, controlar, condenar, reduzir.

Coerção, força, violência, intimidação, ameaça, pressão. Coisa que impede, que coloca obstáculo. Regra, disciplina, lei. Opressão.

[adaptado do dicionário le Petit Robert]

O dicionário le Petit Robert elenca ainda duas outras acepções para contrainte, uma para o mundo jurídico, outra para a física e geofísica. Mas não diz nada do emprego da contrainte na literatura (francesa principalmente) e nas artes.

Usar contrainte na criação artísitica é trabalhar sob regras e limitações, impostas arbitrariamente. Essas limitações podem ser dos mais variados tipos: na redação de um texto, pode-se limitar o número de palavras, pode-se proibir o uso de um dado tempo verbal ou mesmo de uma letra do alfabeto. Um exemplo: o escritor Georges Perec escreveu um romance sem usar uma única vez a letra “E”, a mais frequente no francês: La disparition.

Enquanto escrevia o texto abaixo me perguntava se eu estava fazendo sob uma limitação. E acho que sim, talvez mais de uma. Escrevendo sobre limitação sob limitações.