UM OUTRO ELE

Larry David, em Tudo pode dar certo,  faz o que se espera do que não se prevê: ser um ator diferente do Woody Allen e ao mesmo tempo encarnar algo do Woody Allen: ser o outro, ser e não ser mais um outro da lista de personagens neuróticos. Um exercício imenso, esse, de se fazer outro e se fazer sempre protagonista. Um deleite. Ri meio sozinha no cinema.

O CÉU SUECO

(em 2012, não só será possível ver a aurora boreal na Suécia, mas como de lá partir numa nave e ver os raios de pertinho; mais infos aqui)

tem aurora boreal. E não só isso:

o céu sueco é como ovonovo: vai e volta ao mesmo lugar. Tanto faz se percorrido de trás pra frente como na ordem em que se lê: é um palíndromo. Como vários outros palíndromos, são bonitinhos. Levantam voo e alcançam sempre outra coisa.

Não sei se já existe, mas ontem depois de comer pizza de alho, chegando em casa, criei esse aqui:

oh! lá, alho!

Talvez menos bonitinho que os outros, mas talvez seja só um começo.

O QUE É ENJEU?

[sugestão da Dani Prado]

Substantivo masculino. Do francês, palavra formada por en + jeu; logo, é possível, em alguns casos, traduzir-se enjeu por em jogo.

O Dictionnaire du moyen français atesta que o termo em sua origem designa o dinheiro que se colocava numa aposta, num jogo de dados, por exemplo; a aposta. Essa acepção continua em uso no francês de hoje em dia: aquilo que colocamos em jogo no momento em que ele começa, e que ficará com o ganhador.

A palavra ganhou então com o passar do tempo sentidos mais amplos. Por extensão, designa aquilo que se pode ganhar ou perder numa competição, empreendimento, debate. Tudo aquilo que colocamos em risco ou que esperamos obter.

Encontra-se frequentemente enjeu na imprensa, no discurso acadêmico, etc. Por exemplo: “dites quel est l’enjeu théorique du titre ‘Le langage et l’expérience humaine’, de Benveniste…”, questão com a qual me deparei faz pouco tempo. A presença de enjeu no enunciado me intrigou à beça.

O QUE É CONTRAINTE?

Do francês, do verbo contraindre: que exerce uma ação contrária a; forçar alguém a agir contra a vontade; obrigar, empurrar, controlar, condenar, reduzir.

Coerção, força, violência, intimidação, ameaça, pressão. Coisa que impede, que coloca obstáculo. Regra, disciplina, lei. Opressão.

[adaptado do dicionário le Petit Robert]

O dicionário le Petit Robert elenca ainda duas outras acepções para contrainte, uma para o mundo jurídico, outra para a física e geofísica. Mas não diz nada do emprego da contrainte na literatura (francesa principalmente) e nas artes.

Usar contrainte na criação artísitica é trabalhar sob regras e limitações, impostas arbitrariamente. Essas limitações podem ser dos mais variados tipos: na redação de um texto, pode-se limitar o número de palavras, pode-se proibir o uso de um dado tempo verbal ou mesmo de uma letra do alfabeto. Um exemplo: o escritor Georges Perec escreveu um romance sem usar uma única vez a letra “E”, a mais frequente no francês: La disparition.

Enquanto escrevia o texto abaixo me perguntava se eu estava fazendo sob uma limitação. E acho que sim, talvez mais de uma. Escrevendo sobre limitação sob limitações.

UM EXERCÍCIO

(de estilo? sob contrainte?) em torno de um tema que me obseda e que tem tomado conta de conversas:

DAS LIMITAÇÕES

Somos seres limitados que têm consciência disso – e talvez os únicos que tentam lutar contra algumas limitações ao mesmo tempo em que criam outras. Tendem a aceitar muito bem as próprias limitações (prova de bom-senso e respeito ao próximo), mas pouco provavelmente aceitam tão bem as limitações (escolhas) dos outros. Com isso, podem pregar uma liberdade que tiraniza: – exercício de dar nomes às coisas?