percebi aquele alarme metálico que todos os livros das livrarias têm, um pouco diferentes dos alarmes magnéticos das bibliotecas – e semelhante aos alarmes de qualquer outro produto, da farmácia, da loja de departamentos, disfarçado de código de barras. Um elemento que não deve ser percebido, discreto, da cor do papel, ou no fim do livro ou colado entre as mesmas páginas em todo o acervo. Inativo quando o livro é nosso, se substitui à propriedade. Intermitente, o da biblioteca.
A imagem que me veio é a desses inúmeros campos magnéticos silenciosos, que não sabemos ao certo se estão dormindo somente, se ainda há neles uma força que os faz agir em meio às palavras do livro, aos princípios ativos do desodorante. Magnéticos como os dados que guardamos nos discos – e que se apagam com o tempo, sem garantia, sem razão.
acabaram. É a notícia que se mostra no dia que começa, o sol fresco. A água de novo.
Acabou – alguém repete. Uma voz dentro. Mas só se sabe que aqueles dias acabaram porque eles ainda estão aqui, ao redor, em cada pedaço de tudo. Como no livro, “tudo está em tudo”. Se tudo está em tudo, “por que se preocupar?” – é o que ouvi e fui repetindo, a caminho do bebedouro, encher a minha garrafa.
começar a sonhar, me deu uma vontade enorme de comer cachorro quente. Já deveria ser um sonho: eu ainda não teria pegado no sono, e me veio cachorro quente à cabeça. Nunca fui hiper fã de cachorro quente, estranho ter esse desejo, justo agora que não como mais carne.
Aí pensei naqueles carros que param na rua vendendo cachorro quente. Catchup e mostarda.
Talvez porque eu de tarde comi hamburguer de soja, e pensei que o da Sadia combina mais com pão branco, e não com pão integral. E que não é necessário nenhum tempero com esse hamburguer, tão forte ele é nos condimentos. Aquela coisa: “é de soja mas é gostosinho”.
Aí pensei que poderia comprar no mercado salsicha de soja. Ou melhor: que a banquinha de tapioca da ECA teria cachorro quente prensado de soja.
Teve vários sonhos depois disso, uma filha de professora que não existe, mais uma criança para eu dar aula.
O que me restou foi esse cachorro quente. E não a vontade de comer cachorro quente: essa acho que passou.
ANTES DISSO
vi uma cena histórica que não conhecia: um discurso do Ronald Reagan em frente à porta de Brandenburgo, justo no limite entre Berlin ocidental e oriental.
Era criancinha na época, passou batido. Pra mim, soou ousado. Sei lá. Gostei, independente de qualquer outra coisa.
Foi como ver Che, quinta-feira de cinema lotado no Unibanco. Fiquei pensando se o que nos resta agora é assistir – e só isso…
VER O CHE
me fez ter um sonho lindo.
Estava em Santos, naquela parte mais centrão da cidade, construções antigas, pintadas de cores alegres. Dia de sol agradável.
esse dia em Santos estava agradável somente dentro do aquário
Olhando com mais atenção para o que acontecia nas ruas, deu pra perceber que tínhamos bondes andando. Olha bondes!
Provavelmente Santos teve bondes. Pois então. Eles saíam das garagens e dos depósitos, voltavam à ativa.
Havia vários modelos, uns que mais pareciam trens de carga, mas ok, o transporte era barato, tinha lugar pra todo mundo.
RESOLVI VOLTAR
a pé para São Paulo. Não foi difícil escalar a serra.
Aprendi vendo um filme que precisamos ter três membros firmes na pedra, um braço e as pernas, para poder procurar com outro braço uma pedra mais acima. E foi assim.
As pedras, chegando no planalto, tinham duas cores, um bege clarinho e marrom mais forte, que pareciam pintadas ou um efeito da luz do sol.
Chegando, cometi um erro. Coloquei Guarulhos no sul, no lugar de Diadema.
Fiquei procurando um ônibus intermunicipal, os bondes talvez voltando também a funcionar, mas nada estava mais certo.
Peguei um bonde andando, acho…