É ESSE O DISCO

que vi na biblioteca quando comecei o curso de alemão; a imagem da capa me atraiu, levei para casa. São poemas do Heine com acompanhamento de jazz. Isso já faz um tempo.

Ontem sonhei que íamos atrás de Gert Westphal, a voz dos poemas de Heine.

Sei que fomos numa loja de discos, procuramos por mais trabalhos que Gert tivesse feito. O que no sonho achamos, não sei, mas foi divertido. Agora descubro que ele se tornou famoso por suas leituras (era o rei dos leitores) de Flaubert, Dostoievski, Mann; e é ao lado da sepultura deste último que está enterrado, num cemitério em Zurique.

DIRIGINDO UM JIPE

eu chegava num lugar cheio de subidas e árvores, uma região de serra. Lá, ia encontrar alguns amigos. Estava sozinha e precisava arranjar um lugar para estacionar. O terreno era difícil, circulei muito, de um lado para outro, procurando uma vaga. Pessoas esperavam, em fila, alguma coisa que eu não sei. Quando estacionei, o jipe virou uma maleta preta, muito bonita e prática. Uma moça estava por perto; disse a ela: – Você tome cuidado com essa maleta, ela é o meu carro. A moça ficou surpresa, começou a examinar a maleta, achando fabuloso que isso fosse possível.
Foi quando eu também percebi que meu jipe tinha algo que dificilmente outros teriam – e acordei.

FUI PRO AEROPORTO

e, antes de entrar no avião, apresentei a uma moça da companhia aérea vários cartões de embarque de voos que não estavam pontuados. Ela vai analisando um por um e me fazendo perguntas: como assim esse voo é operado por duas companhias? que significa esse adesivo? e que voo é esse aqui, de SCR a TDV?
Ela pega um bastão de cola para juntar alguns pedaços desses bilhetes, cheios de adesivos de brasões e siglas que eu não consigo explicar. Eram de viagens que eu não lembrava ter feito.

O QUE É ROUTE?

palavra aparentemente muito simples: caminho, trajeto, estrada. Pode opor-se a caminho, no sentido em que a route é algo planejado, demarcado oficialmente, sinônimo de estrada. O adjetivo derivado, routier, é equivalente ao nosso rodoviário. Logo, temos transport routier para transporte rodoviário; gare routière para a nossa rodoviária, o terminal rodoviário (rodoviaire em francês não existe).

Outro derivado de route, routard: aquele que viaja com poucos recursos, o mochileiro, hitchhiker. A palavra é patenteada em francês, por um dos criadores do famoso Guide du routard.

De route também vem routine, um caminho frequente.

A etimologia pode desconcertar: route, assim como rota, vem do latim rupta, caminho aberto, particípio passado no feminino do verbo rumpere, romper. Assim, rota (estrada) divide sua origem com roto (rompido, danificado).

O PASSAPORTE NOVO

tinha saído; fui buscar o meu num guichê.

A senhora me entregou o passaporte, muito gentil; e junto com ele vários pequenos papéis – como aqueles comprovantes de votação que a gente tem que ir acumulando eleição após eleição. Cada papelzinho daquele deveria ser entregue em países diferentes: uns para a Dinamarca e o resto da Escandinávia, outros para os países asiáticos, cada grupinho de uma cor diferente:

– Tome cuidado para não perdê-los; esses tíquetes são muito importantes – dizia a senhora.

FOMOS VISITAR

um casal que acabou de conseguir sua casinha; era um apartamento simples. Não somos muito próximos deles – quem são na verdade? – são da sua família? – amigos nossos? – que língua falamos com eles? Sei lá.

Ficamos pouco tempo – conversamos, comemos bolo, demos risadas. Antes de irmos embora, notei que o moço pregou tachinhas (aquelas de colocar em mural de avisos) no nariz, como se fossem um tipo novo de piercing.

ABRIA UMA REVISTA

na sala de espera. Começo pela última página, ao contrário: fotos de museus pelo mundo. Na de baixo, um amigo, visitando um museu em Paris, o de arts premiers talvez. Na foto acima, de outro museu aqui em São Paulo, o mesmo amigo. E outras fotos sem ele.

Encontro com ele e comento: “como assim, você em duas fotos em museus diferentes?” Abrimos a revista, as fotos viram vídeos. Ficamos ainda mais intrigados com a coincidência – ou a perseguição.

NÃO SEI ONDE ESTAVA

antes, mas em pouco tempo cheguei num lugar muito longe, longe de tudo. O terreno plano, poucas árvores, a terra muito vermelha e compacta. O dia estava acabando. Andamos muito; por pouco perdemos a van que nos levaria de volta (para onde?). Só dentro dele eu vi uma igreja muito diferente, feita de feixes de madeira, com umas imagens de santos locais muito estranhas. O olhar deles não parecia de santos; talvez quisessem zombar de tudo, até do respeito de santos que tinham.