O QUE É PASSEPARTOUT?

palavra do francês, usada tal qual também em inglês e em português. A grafia com o hífen, passe-partout, é mais comum, mas caiu na reforma do francês da década de 1990 (poucos a seguem). Composta do verbo “passar” e da palavra partout, “em todos os lugares, de todos os lados”.

Primeiramente, seria uma chave-mestra, que abre as várias portas de um mesmo edifício, por exemplo. Mas também: uma serra de lâmina longa, que deve ser manipulada por duas pessoas, uma de cada lado; o apoio de papel cartão, que fica entre uma gravura e a moldura; a máquina das embarcações para quebrar grandes geleiras; a peça que se adapta a diferentes calibres de seringas, de trilhos de trem.

Em sentido figurado, é aquilo que convém a toda e qualquer situação, que vai bem e agrada em todo tipo de contexto – assim como as palavras e tudo o que elas podem significar. Nelas muita coisa cabe.

TUDO É FEITO

de átomos, fomos informados numa aula de ciências. Já tinha visto na tevê: eram bolinhas que giravam umas em torno das outras.

Esses pedacinhos de tudo se mexiam, mesmo nas coisas mais sólidas que existem, eles estão lá, não param. E como poderíamos ser formados por algo que tem tantos espaços vazios?

Eu ficava pensando se poderíamos esfarelar como uma paçoca, se os átomos todos resolvessem se mexer de um jeito diferente, de repente.

VIAJANDO PELA EUROPA

as minhas notas de euro já eram muito antigas, enormes e de cores apagadas. Novas notas, mais coloridinhas, estavam em circulação. Os bancos não trocavam mais notas antigas por novas. Precisava encontrar colecionadores para ao menos trocar 100 euros.

Fui numa região da cidade (em que país eu estava? Romênia?) que parecia mercado negro. Começavam a falar comigo em árabe. Depois, passavam para um português de Portugal, francês. Ofereciam 30 euros pela minha nota de 100. Eu queria mais – deveria então procurar mais.

Mais adiante, fazia-se queijo, as próprias cabras trabalhavam na produção. Achei curioso. Em outro lugar, faziam queijo de cabra falsificado. Nesse ponto lembrei de outro sonho, que tive antes, de uma velha loja que vendia produtos agrícolas falsificados, cujos donos eram a família de Shoshanna Dreyfus, dos Bastardos inglórios.

Voltei a essa loja, mas agora um chinês das histórias do Tintim era o dono, ela estava reformada. No fim das contas, continuava com minha nota de 100 euros. O máximo que me ofereceram foi 60; eu recusei.

A RUA PAIM FICOU

sem mais algumas casinhas, demolidas nesses últimos dias, onde anos atrás funcionavam a cantina Posilippo, uma loja de jornais e produtos de papelaria, artigos para construção, marcenaria.

A rua Paim que se vê pelo Google street view já é muito diferente da que passo todos os dias. As imagens que captaram são de antes da copa, que fotografei. Mais algumas casinhas serão em breve demolidas, já com portas e janelas fechadas por blocos de concreto. A árvore da calçada vai continuar ali?


Talvez o problema nisso tudo seja a minha dificuldade de imaginar a rua com os prédios que nos anunciam.

NO CURSO DE INGLÊS

o primeiro professor se chamava Marcos: nunca falava em português, entendíamos tudo o que dizia. Depois, uma senhora ex-secretária bilíngue. O sotaque dela era criticado discretamente pelo professor do básico 3: um japonês que trabalhava na Varig e viajava pelo mundo, dando preferência aos lugares obscuros da Ásia, como Bandar Seri Begawan, capital do Brunei.

No intermediário o professor era apaixonante. Ele não conseguia nos convencer que tinha 14 anos – assim como eu também parecia mais velha. Ia no Balafon, balada na rua Sergipe, entrava porque enganava a idade. Era de Recife, quando falava português ficava evidente. Amava Pink Floyd, passou Wish you were here e umas outras deles. Sobre ele, me confundo particularmente: ele usava camisa xadrez azul de flanela, como eu também?

NÃO LEIA A ORELHA

de Cicatrizes, de David Small. Não leia nenhum texto que você pode encontrar por aí, releases frustrantes e repetitivos, cópias uns dos outros – spoilers!

Só a palavra do título, capa e a réstia de luz bastam para você entrar.

Não folheie o livro antes de começar, disciplinado, pela primeira página, seguindo uma a uma as sequências da infância do menino que desenha. Não pergunte nada, não diga nada. Vá.