A MÚSICA FAZ

o que ela diz:

– Ando pela rua, cantarolando uma das suas músicas. Eu só sei um versinho lá do meio, e me dá vontade de ouvi-la de novo, de novo e de novo. Todos os dias eu ouço a sua música, agora, todo dia, o dia todo. Aí eu fico cantarolando a música, andando.

Eu só sei um versinho lá do meio, e me uma dá vontade ouvi-la de novo, de novo e de novo; de novo, de novo e de novo…

O PASSAPORTE NOVO

tinha saído; fui buscar o meu num guichê.

A senhora me entregou o passaporte, muito gentil; e junto com ele vários pequenos papéis – como aqueles comprovantes de votação que a gente tem que ir acumulando eleição após eleição. Cada papelzinho daquele deveria ser entregue em países diferentes: uns para a Dinamarca e o resto da Escandinávia, outros para os países asiáticos, cada grupinho de uma cor diferente:

– Tome cuidado para não perdê-los; esses tíquetes são muito importantes – dizia a senhora.

BRAVURA INDÔMITA

parece ter um foco muito preciso: a menina quer vingar a morte do pai. Mas há muitos desvios nesse percurso, e todos eles são essenciais para a vingança. Ela assiste a execução de três condenados à forca: um faz um discurso arrependido, o outro não se redime; o terceiro, índio, não pode dar suas palavras finais. Frente os três enforcados, uns gritam, outros choram, fecham os olhos; ela só observa.

FOMOS VISITAR

um casal que acabou de conseguir sua casinha; era um apartamento simples. Não somos muito próximos deles – quem são na verdade? – são da sua família? – amigos nossos? – que língua falamos com eles? Sei lá.

Ficamos pouco tempo – conversamos, comemos bolo, demos risadas. Antes de irmos embora, notei que o moço pregou tachinhas (aquelas de colocar em mural de avisos) no nariz, como se fossem um tipo novo de piercing.

– VAMOS, VISCONDE

Bote aí seis pontos de interrogação – insistiu a boneca.

Depois de ler Memórias da Emília, ficam uns enormes pontos de interrogação frente a curiosidade sem igual, as tiradas geniais, as boas ideias e os xingamentos que ela solta a torto e a direito – principalmente aqueles contra a tia Nastácia, quem costurou a boneca de pano.

ABRIA UMA REVISTA

na sala de espera. Começo pela última página, ao contrário: fotos de museus pelo mundo. Na de baixo, um amigo, visitando um museu em Paris, o de arts premiers talvez. Na foto acima, de outro museu aqui em São Paulo, o mesmo amigo. E outras fotos sem ele.

Encontro com ele e comento: “como assim, você em duas fotos em museus diferentes?” Abrimos a revista, as fotos viram vídeos. Ficamos ainda mais intrigados com a coincidência – ou a perseguição.