CHEGOU UM DIA

de arrumar tudo: então abrimos os armários, separamos livros, trocamos de lugar algumas coisas na casa. Na bagunça, os vinis iam sozinhos para o toca-discos, a música começava – um susto! Tudo bem, os discos de vinil são assim mesmo, sabem tocar sozinhos. Fui lavar as mãos e a torneira era ao mesmo tempo uma cafeteira e uma máquina de costura. Só era preciso ter cuidado para não levar uma agulhada.

Bem que essa poderia ser a casa de Zazie, pensei eu.
Ou o apartamento de “Vinil verde“.

O QUE É ATTENDRE?

à primeira vista, é um falso cognato para o português: significa “esperar, aguardar; permanecer num lugar até que algo aconteça: que o trem chegue, que venha uma resposta, que o médico chame”.

Mas attendre não está tão distante do português atender; ao menos ambos vem do latim attendere: “obedecer, dar auxílio, observar com prudência, ser vigilante, prestar atenção”; e atenção/attention também: “concentrar-se, colocar a mente em escuta e reflexão”.

TENHO AGENDAS

desde uns 9 anos de idade. Anotava as coisas mais miúdas do dia: a rotina da escola, devolução de livros na biblioteca, colava recortes de jornal, figuras de revista. Também deixava recados para mim no futuro; em fevereiro, pegava uma página de outubro e deixava alguma pergunta enigmática.

Ontem num caderno, li algo como: “Ana, você não vai viver esse momento duas vezes”. Deve ter sido coisa que ouvi de alguém, não sei quem mais; nem que momento seria esse. De toda forma continua sendo verdade.

NÃO SEI ONDE ESTAVA

antes, mas em pouco tempo cheguei num lugar muito longe, longe de tudo. O terreno plano, poucas árvores, a terra muito vermelha e compacta. O dia estava acabando. Andamos muito; por pouco perdemos a van que nos levaria de volta (para onde?). Só dentro dele eu vi uma igreja muito diferente, feita de feixes de madeira, com umas imagens de santos locais muito estranhas. O olhar deles não parecia de santos; talvez quisessem zombar de tudo, até do respeito de santos que tinham.

DENTRO

de dois apartamentos vizinhos, que vão se transformando, os personagens circulam. Tetos e paredes caem, a água infiltra; um fogão explode; entram ladrões; descobrem onde ficam os quartos escondidos, onde a comida é guardada; chegam em momentos inadequados, sem avisar; a polícia chega.

Mas todos vão embora no final; e ficamos nós no apartamento, ouvindo os passos de alguém do outro lado.