ERA UMA VEZ

uma menina que escrevia; ela passava o dia todo pensando nas histórias que ia contar aos amigos: os passeios, os sonhos que ela teve com eles, com personagens de outras histórias, com diretores dos filmes que iam ver no cinema, matando aula; juntava desenhos que encontrava por aí, fotos e cartões postais perdidos no meio dos livros que ela espanava nas estantes; salvava imagens de sites perdidos na internet.

Ela tinha um jeito de escrever que não existe mais – diz um leitor, que sabe de cor um texto dessa menina, que ela mesma desconhece; texto lindo esse, que ele não consegue mais encontrar em lugar nenhum.

ESTAVA NUMA ALDEIA

como a do Astérix, devastada pelas enchentes dos últimos dias. Uma professora tinha um castelo por perto, dava instruções a todos. Fiquei encarregada de enviar uma mensagem para um povoado vizinho (ou seria realmente num acampamento dos romanos?).

Peguei uma biga; os cavalos estavam muito desorientados; ficamos travados na lama; depois deslizamos tão facilmente no chão molhado que perdemos o controle e batemos numa árvore.

EU FIZ LISTAS

de coisas a fazer, assuntos para conversar, datas importantes para lembrar, leituras, filmes, lugares para conhecer, alguns pedaços de música; mas de nada adianta: o que sai na hora é imprevisível.

Há também uma lista de regras que eu mesma me coloco, uma pequena disciplina para coisas simples do cotidiano: coisas que eu devo fazer todo dia, outras coisas pra não fazer sozinha. Elas valem durante um tempo. Por que deixo essas regras de lado?

Das duas uma: ou não sei fazer listas, ou não sei como segui-las – ou vai ver é assim mesmo que as listas são.

O PRIMEIRO QUE DISSE

tem o talento de conquistar bem aos poucos, de esconder história atrás de história, de fazer com que os personagens mais escondidos apareçam e cativem; por isso todos são coadjuvantes e ninguém é coadjuvante (são balas perdidas, como o título em italiano); tanto que não se sabe (como nos filmes bons assim) de qual deles você gostaria de ficar mais perto, sentar ao lado na mesa do jantar, dançar no baile, conversar para fazer perguntas no fim do filme.

INDO PRA ESCOLA

eu não gostava de chegar antes de o portão abrir; me desagradava a possibilidade de ficar parada no meio dos colegas, separada do restante, sem ter com quem falar. Então eu descia do ônibus uns dois pontos antes, na esquina com a Veridiana, e ia o resto do caminho a pé. Era o tempo exato para a entrada.

Ainda faço isso em algumas situações; pego o caminho mais longo, desço antes, invento um trajeto alternativo para chegar na hora – nem antes nem depois.

UM PEIXE GRANDE

daqueles de olhos esbugalhados e barbatanas longas mordeu meu dedo. Não sei se foi assim que o pescamos. Colocamos num balde, e ele ficou nadando na vertical. Balde pequeno.

Saí correndo pela Martim Francisco procurando uma loja onde pudesse encontrar um balde maior. Passei em frente ao Fidelino, na porta estavam as mesmas pessoas da época em que estudei. Pensava em Peixe grande, do Tim Burton.

Com custo arranjei outro balde, transparente. O peixe tinha diminuído, estava laranja, mas no balde novo cresceu, escureceu e começou a falar comigo.

Acordando com o despertador vi que esse sonho tem tudo a ver com Ponyo!

A PERSONAGEM DO SONHO

subiu no ônibus; era uma cantora francesa em São Paulo. Começou a cantar “dezesseis” do Legião Urbana e os passageiros começaram a acompanhá-la. Uma outra moça puxa conversa, elas ficam falando muito sobre música. As duas combinam de participar de uma manifestação na avenida Paulista, a favor dos artistas de rua.

A francesa vai de skate e guitarra, sobe a Augusta. Chegando na Paulista, o skate escapa, vai para perto de um cara tocando contrabaixo perto do banco do Brasil. Vários músicos se espalham pela avenida, todo mundo tocando. Parece que a francesa acaba perdendo o skate.