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MINHA MÃE DISSE

que ia buscar a gente no fim do dia. Era no pré. Mas ela não garantiu inteiramente: daí veio o problema. Ela disse que se não chegasse exatamente no horário da saída, a gente deveria pegar a perua e ir embora pra casa. Será que eu não ouvi, não entendi, ou queria que ela fosse nos buscar custe o que custasse?

A questão é que ficamos, os três, sentados por muito tempo esperando. Eu dizia que ela iria chegar a qualquer momento. E não chegava, muito tempo passou e nada. As funcionárias da escola precisaram ligar pra casa e avisar que estávamos lá, olhando o movimento da rua, aguardando que alguém entre os passantes da avenida Pedroso de Morais fosse ela.

FAZIA UM ESTÁGIO

numa escola pública; começo do ano letivo. O secretário da educação estava na sala de aula, distribuindo cadernos aos alunos. Ele autografava cada caderno, junto com uma mensagem e uma foto sua. A ideia era motivar os alunos… como estagiária, eu fazia a distribuição aos adolescentes, com zombaria discreta.

Uns quatro alunos chegam atrasados. Como castigo, eles devem deixar os documentos conosco, e teriam o nome anotado no livro negro. Não eram brasileiros: tinham carteiras de identidade estrangeiras, passaporte, rne. Um deles começa a falar japonês conosco, sorridente (estaria ele tirando uma com a nossa cara?). Aponta para uma televisão que está atrás de nós, ao lado da lousa. Estava passando um episódio das tartarugas ninja. Mas elas estavam velhas e muito gordas, quase irreconhecíveis.

DE NOVO, UM SONHO

com espionagem; repetem-se algumas peças do jogo: pessoas com missões secretas, transporte público em movimento. Dessa vez estávamos num ônibus circular, que percorria o centro de S. Paulo, saía e voltava para a Lapa. Descobriam a nossa missão e éramos perseguidos. Havia luta dentro do ônibus, tentavam pegar notebooks que guardavam informações importantes. O mecanismo se repetia dentro do próprio sonho, e cada vez algo nessa repetição mudava, fazia com que a gente aprendesse algo novo: jogar o computador pela janela na hora certa, esquivar-se de um soco, reconhecer alguém que nos perseguia.

MANDIOQUINHA COM QUEIJO

não é bem uma dupla, mas um grupo no qual a mandioquinha ocupa o primeiro lugar, incontestável, gosto de tempo frio, em qualquer forma que seja. Tem um nome carinhoso em português e outros muito particulares em outras línguas: white carrot, arracacha, apio criollo, etc. etc., que costumam aproximá-la sempre de outros vegetais com os quais ela parece – mas que nunca é.

ERA UMA AMIGA

que reunia todas as amigas, as mais próximas e distantes. Ela marcou de se encontrar comigo numa feira de roupas, calçados, bolsas. Chegando lá eu vejo que ela tinha uma banca; estava vendendo coisas suas: não coisas que ela tinha fabricado, mas presentes de ex-namorados.

Vejo uma bolsa linda, meio roxa, meio azul, sem cor definida. Fico sem graça de comprar algo que ela ganhou de presente. Dentro da bolsa, cartas, bilhetinhos, recortes de jornal que o cara tinha dado a ela – que não se lembrava mais de nada sobre ele, tanto tempo já fazia… Os papéis todos caem no chão.

ESTAVA NUM TREM

e em trens há sempre histórias misteriosas. Esse trem cruzava a Europa, já estávamos nos Bálcãs, num país imaginário. Algo como a Sildávia, das histórias do Tintim, o Cetro de Otokar, por exemplo.

interessante que foi redesenhado, para ganhar traços menos ocidentais

Relembrando o Tintim, o que eu sonhei tem um pouco a ver; o restante veio talvez do filme A origem. Eu fazia parte de um grupo de espiões-bandidos. Disfarçados, íamos entrar nesse país para recuperar algo valioso. O trem para na frente de um hospício (ou campo de concentração?). Um motim dos pacientes dominou o hospício e atacou o trem. As armas eram feitas de brinquedo, pedacinhos de madeira que viravam arco e flecha. Mesmo de maneira pueril, o trem foi dominado pelos loucos, que como crianças brincavam de lutar.

 

ELE SE CHAMAVA FERNANDO

fazia técnico em edificações, morava na Saúde, trabalhava com a gente. Tinha namorada, a menina que morava perto de mim e estudava na mesma escola. Ela me disse um dia voltando para casa, esquina da Paulista com a Pamplona: – Você está gostando dele, né?

Parecia então muito claro. Ela foi viajar, tiramos folga ele e eu no mesmo dia. Combinamos de nos encontrar de manhã cedo. Passeamos: ele queria ir ao shopping, tirar dinheiro do banco, muitos ônibus… mas onde mais fomos?

Subindo a Brigadeiro de volta à Paulista, de noite já, a cabeça dele no meu ombro. Um abraço na mesma esquina com a Pamplona, ele ia pegar o metrô; e dissemos tiau. Nenhum dia foi mais como aquele.