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A MULHER DO AVIADOR

é ao mesmo tempo a personagem mais importante e a menos importante de todo o filme. Ela é um monte de suspeitas e perguntas que aparecem umas atrás das outras, sem resposta – ou com respostas bem menos ambiciosas que as expectativas. Ela é o pretexto para um passeio sem rumo de tarde, com previsão de chuva, de ônibus, cortando caminho pelo parque, de volta no fim do dia à estação de trem. Passeio cheio de olhares e de conversas sobre nada, depois do qual se volta ao ponto de início.
Foi o primeiro filme que eu vi do Rohmer, no cinema, anos atrás. Depois de rever agora, o passeio continuou assistindo Nadja à Paris, (documentário?) que não me agradou tanto quanto A mulher do aviador, mas traz muito dessa rede de pretextos que levam as pessoas de um ponto a outro da cidade.
ESTAVA EM RECIFE
no topo de um prédio alto, fazia muito calor. Sol forte, eu me escondia na sombra da casa de máquinas do elevador. Dois senhores, talvez trabalhassem lá, me explicavam o que eu via lá embaixo. Os trabalhos no porto: grandes contâineres, carregamento de peixe, caminhões chegavam e iam embora. Muito óleo; eu perguntava para onde ele ia – direto para o mar? O que eu achava mais desconfortável: estar no alto ou o que eu via lá no chão?
Mesmo dentro do prédio, as mulheres que trabalhavam num grande apartamento colocavam coisas no parapeito: uma tela que eu pintei, por exemplo. Ela poderia cair, ou envergar – eu achei uma melhor posição ali para a minha pintura.
MINHA CÂMERA
anda desregulando o foco, já faz uns meses. Ainda não levei para o conserto. Fico esperando que seja algo passageiro, que ela vai acertar na próxima foto. E até acerta, quando insisto, quando eu mesma tento um outro ponto de vista. Quando não, me divirto com o efeito fora de tom que sai das coisas – que são, não tem jeito, sempre de outro jeito.
GUARDEI UMAS FOLHAS
no meio do caderno, para ler depois, anotações de um ciclo de palestras; mais de dois anos se passaram, peguei agora.
Pouca coisa das notas me dá alguma informação precisa – incompletas e lacunares demais. Não sei o que foi dito pelos professores e o que eu mesma pensei. Alguma coisa ali ainda é verdade para mim hoje.
ALGUNS CHEIROS
da pele da minha mãe, de creme talvez, mas que ficava bem só nela, eu procurava o braço dela quando menos esperava; do corredor do apartamento na Barão de Tatuí, que eu acreditava vir do lustre, de vidro fosco e contorno verde-água; dos biscoitos dentro da lata marrom, com flores amarelas; dos ares dos lugares: cada lugar, um cheiro diferente; o cheiro de bicho (um mamífero, sabe-se lá qual) nadando num rio; de funghi, que a moça da zona cerealista acha nojento; cheiro de chuva; cheiros dos livros novos no começo do ano; da fita 3M para os livros da biblioteca; de vinil novo, no plástico.
ESTENDE A MÃO

A MULHER DOS CINCO ELEFANTES

de novo um título que me chama; os elefantes são obras de Dostoievski traduzidas do russo para o alemão por uma ucraniana, Swetlana Geir, hoje já velhinha, passando de um cômodo a outro da sua casa, nas tarefas de todo dia: cortar cebolas, alinhar as fibras da roupa com o ferro de passar, juntar a família, trabalhar com os textos. E o trabalho, do qual não se sai impune (e não se entra sem razão alguma), não se faz apenas sozinho.

E em dupla, como num jogo de tabuleiro, ela nos dá uma lição: em vez de olhar só para o texto, o nariz virado para o umbigo, os olhares se levantam para o outro, e assim o nariz respira o texto que emana do papel.
JÁ PENSARAM
que eu era bailarina, por conta dos meus pés; que eu era arquiteta, pela minha letra; que eu tinha uma banda, porque falava muito de música durante as aulas; que eu me chamava Cristina ou Laís; que eu tinha nascido no interior, a família morava toda lá; que em São Paulo eu dividia um apartamento com meu irmão; que eu era carioca; do sul; chilena, árabe, italiana.
Já disseram que as mãos são de pianista, os dedos muito pra fora; que o nome é de personagem do Camilo Castelo Branco; o nariz mostrava minha origem grega; os pés, novamente, fenícios. Que os olhos têm íris exemplares; o jeito, de personagem de Jane Austen; ou Mafalda; que tenho tudo a ver com Talking Heads; que poderia ser adulta nos anos 80, comendo sempre no Frevinho, descendo a Augusta cantando Ná Ozetti.
– E não sou eu?
O ÚLTIMO ROMANCE DE BALZAC

me atraiu logo pelo título. Sala com bem pouca gente para ver a proposta incomum: docu-ficção sobre um romance psicografado atribuído a Balzac, publicado em português e descoberto por acaso por um leitor cuidadoso. Tão “engajado”, como ele mesmo diz, que dedicou anos a pesquisar as referências da obra e fazer paralelos com os romances da Comédia humana, em particular com Pele de onagro, que aproxima da vida de Balzac.
E tanto aproxima que o personagem da história não é mais Rafael, mas Lirinha encarnando Balzac num filme mudo – e, além dele, todos os outros leitores-escritores-pastichadores e os pactos que fazemos quando queremos alcançar a teoria das nossas vontades.


