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UMA OUTRA VONTADE

foi ter guardado a foto desse livro:

era leitura da faculdade, peça de Beaumarchais (ou O barbeiro de Sevilha ou As bodas de Fígaro, ou as duas, visto que uma é continuação da outra). O que a foto diz do enredo? Não sei mais, sei lá se eu sabia na época. A data da foto, diz aqui, é 15 de junho de 2006. Ficou só ela, tirada mais ou menos na mesma posição em que me encontro agora enquanto escrevo.

MÚSICA PARA CORTAR OS PULSOS

para cantar junto o que se conhece de cor; para pensar que mais alguém ouve a mesma música que você e sofre junto, e se envenena também. Hoje, uma plateia toda de gente apaixonada, era o que me parecia. Uns chorinhos e suspiros aqui e ali, risos. Dos três – Isabela, Ricardo, Felipe – a gente ouve frases que contam nossa história; mas, como somos banais, elas contam todas as histórias. Aí a graça: saber que a gente vive coisas que não são só nossas.

Sabe quando você sabe que algo é bom? Quando esse algo dá vontade – e só faz com que essa vontade continue. Por toda a vida – é o que quero.

(a peça, esperando que seja mais no futuro!)

COISAS PEQUENAS

que vão aparecendo aqui e ali, sem ligação entre si e com mais nada além delas próprias:

  • depois do sonho que tive na Polônia, achei uma cantora polonesa gracinha;
  • semana passada experimentei de novo duas coisas que não gosto: quindim e água com gás; estavam ali à minha frente, me ofereceram, não me pareceram tão ruins, mas também não são coisas deliciosas;
  • finalmente peguei a linha amarela do metrô; bonitinha; esperei o metrô longe do vidros da plataforma; eles me assustam mais do que a plataforma sem eles;
  • fui ver Tropa de elite 2 e fiquei pensando talvez o óbvio: se o filme tivesse sido lançado antes do primeiro turno teria influenciado as discussões sobre os candidatos do legislativo?
  • descobri por acaso também quem é o Fraga do Tropa 2. E fico com outra pergunta: o filme precisa dizer que é ficção?

HOJE, 10 10 10,

é tão interessante quanto, em breve, 20/10/2010. A repetição agrada: casamentos marcados para durar, cesárias para as crianças terem um futuro promissor. Um menino inglês comemorou 10 anos às 10h10, uma campanha para a reduzir a emissão de co2 se centra na data. E mais informações aleatórias aparecem: em 1582 não houve 10 de outubro em alguns países, por conta de divergências nos calendários;  Ed Wood nasceu nesse dia, em 1924, Orson Welles morreu num 10/10, 1985. E a partir deste 10/10/10 as Antilhas Holandesas não existem mais, ganhando cada uma estatutos diversos.

DE REPENTE ME VEJO

numa livraria, com amigos. Cada um fui para um canto, o lugar grande de cor de madeira escura. Por acaso me deparo com o livro que tanto preciso para minha pesquisa: nele vou encontrar um rumo. É uma edição especial, formato grande, capa dura, mais de 500 páginas, com ilustrações em alta definição. Um detalhe: a encadernação está quebrada. Uma anotação a lápis na primeira página: desconto de 71,38%. Difícil entender se o preço final seria $ 31,87. Levo o livro ao caixa, mostro aos amigos. O moço do caixa não consegue me dizer o preço final. Não percebo que ele e meus amigos estão tirando as ilustrações do livro.

Finalmente: levei ou não o livro comigo? Não sei.

EU ANDAVA

muito pela cidade, meio cinza como ela está, mas era na Polônia. Estava com um livro para ler e um disco de uma cantora para cantar junto. Não consigo lembrar se a cantora existe só no sonho; as músicas eram geniais. Chego na Santa Casa, moças vão saindo aos pares, felizes, dando sorrisos e olhando para trás, em direção ao jardim. Fico pensando no que os médicos disseram a elas.

A mãe de um amigo está lá com uma criança, ambas doentes. Ofereço suco. Ela é rude comigo, resolvo ficar lendo no jardim. Lá chega um outro amigo: ele começa a cantar comigo as músicas da cantora, ficamos felizes, comentamos as melodias, as batidas, as letras, saímos andando pela Amaral Gurgel. Assim felizinha com essas músicas perdidas eu acordei.

O QUE É DRAGUER?

Verbo em francês, que veio do inglês to drag, no século 17. É primeiro equivalente a dragar, em português: retirar resíduos do rio, de canais, do mar – com um instrumento, rede, embarcação.

O sentido do verbo, seja em inglês, francês ou português, derivou ao longo do tempo. Entre eles há alguma relação, curiosa. No inglês drag, gíria londrina, seria “roupa feminina usada por homem”, as saias longas que se arrastam pelo chão como uma draga; no teatro, os papéis femininos feitos por homens vinham acompanhados da sigla drag para dressed as a girl; dessa mistura de explicações teríamos desde o começo do século 20 drag queen, depois drag king.

Em português draga pode ser uma pessoa que come muito, um carro velho, um revólver.

Em francês, draguer ganhou o sentido de procurar, coletar, buscar, em uso no vocabulário militar. A partir da década de 1960, draguer é procurar aventuras amorosas, paquerar. Para paquera não encontrei muitas informações, só que viria de paqueiro, cão caçador. Já com xaveco, gíria que descobri ser muito local (só em São Paulo?), interessante, voltamos ao vocabulário marítimo: é um tipo de embarcação mourisca; viria do árabe enredar, entrelaçar.

PODIA SER OUTUBRO

e eu planejava mudar de direção, fazer algo diferente das revisões que eu fazia. Queria entrar mais no mercado editorial, desenhar, diagramar. Resolvi dedicar um pouco do dinheiro que juntava pra essa mudança de rumos. Duas opções: comprar um computador novo ou fazer cursos de programas de design. Escolhi a segunda opção, para encher o currículo. Peguei uma escola de informática razoável, cursos intensivos em dezembro e janeiro. No fim das contas: começo do ano seguinte, eu tinha largado o estágio de revisão, cancelei o curso, peguei meus cheques de volta. Comecei a trabalhar na biblioteca, o que deu no que deu hoje.

E por que cancelei o curso? Fiquei pensando, hoje de manhã, que eu talvez tivesse pouca simpatia pela interface dos programas, a carinha dos ícones das ferramentas de vetores, coisas assim (se os cursos fossem no mac, penso agora, poderia ter sido mais facilmente seduzida).

O CANDIDATO A DEPUTADO

estadual tinha uma família simpática: a esposa, um filho, uma filha; talvez cachorro. Ele chamou a Karen e eu para conversarmos em seu apartamento. Não podíamos ficar muito, porque a gente tinha combinado de sair com a Maíra. Comemos hambúrguer, feito naquelas grelhas que deixam escorrer a gordura. A família nos acompanhou até a porta da rua. Lá o filho se mostrou um pouco rebelde, problemático demais – percebemos que havia algo de muito estranho na família. O menino pegava um molho de chaves e queria jogar para dentro de um carro.

Acordei com o celular, Maíra me chamando para sair. A Karen ligou o filho-problema-do-deputado ao filho do José Costa, personagem principal de Budapeste. Terminei de ver um filme e só pude voltar a dormir.