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FUI VIAJAR

senecio, paul klee

talvez tenha largado tudo, ou talvez as férias já tivessem chegado. Sei que cheguei na cidade cheia de sol, sem mar, só terra seca, uma casinha nova para visitar. Uma senhora de cabelos brancos olhou para mim e disse: – ahn, então é você? – sim! Era só o que eu sabia responder, era como se não falássemos a mesma língua.

E não falava a mesma língua de meu anfitrião, um sotaque forte que escondia toda uma distância que não sabíamos como diminuir. Muita conversa de silêncios. Ele me mostrou as fotos de Akemi, menino com nome de mulher em japonês. Ele dizia que eu tinha conhecido Akemi na viagem anterior. Não lembrava.

Sentamos na calçada da rua calma de sua casa, olhando o céu e o sol, sem fazer nada. Uma televisão ao longe. Eu  via meu anfitrião como um retrato cubista, seu nariz parecia sua orelha, os cabelos uma parte da barba.

Em outro sonho eu era uma camareira de hotel que acaba se tornando próxima de um cantor de rock meio desconhecido. A porta do quarto tinha uma chave como tramela. O cantor de rock adorava conversar com todo mundo. Era como se fosse um Heath Ledger velho, como se ele não tivesse morrido e se tornado cantor barato. Lembrávamos daquele filme em que ele foi cavaleiro medieval, que eu não vi.

RECEBI UMA MENSAGEM

pelo celular, de uma colega de trabalho que voltava da Europa para morar aqui em São Paulo: “caso eu passe mal na rua, corro risco de morte; peço que me leve a um centro especializado, etc. etc.”. Ela tinha uma doença grave que poderia causar uma morte fulminante.

Não conheço direito essa colega. Aos poucos foram chegando informações: ela tinha nascido em Campo Grande-MS, os pais como sabia eram europeus, ela tinha vivido em várias cidades pelo Brasil. Por que estaria voltando para o Brasil, se estava bem em Paris? Como ela tinha meu número de celular?

Um dia no metrô recebo uma mensagem dela: “estou quase morrendo, na estação do metrô…” O texto, interrompido, poderia mostrar que ela estava já num estado muito grave. Por acaso estou numa estação de metrô. Saio desesperada, indo para todos os lados, tentando saber em que estação ela estaria.

Na rua, corro entre os carros, bondes e motos; escapo por pouco de algum me pegar.

A MIM TAMBÉM ME DÓI

foi a única coisa que escreveu, um dia, entre tantos desenhos. Durou pouco tempo, não mais que duas horas: logo a própria polícia veio apagar o muro. E foram apagados tantas outras vezes os traços que você fazia, que eu achava serem para mim. Traços de mim mesma, que com os meus desenhos procurava outros vazios, em outras línguas, imaginando que você fazia outros desenhos, saindo à noite logo em seguida para encontrar os meus. Grafites.

ESCOLHENDO FRIGIDEIRAS

me lembrei de um sonho recente: estava fritando ovo. Era ovo frito pra quem não gosta de ovo: eu. E eu sabia fritar ovo muito bem. O ovo caiu na frigideira e se acomodou ali sozinho; a parte de baixo ficando dura eu virei e a gema ficou, depois de um tempinho, com uma casa crocante, marronzinha. Parecia bom.

Mais alguém assistia a toda essa cena inédita, mas que me lembrava a infância, porque quando pequena eu ao menos comia gema mole com pão francês. E acho que pedia para mim fazer outro ovo frito.

ERA PRA SER

um diário de viagem; anotações do que ia, um dia depois do outro, acontecendo. Para isso ele teria que ser feito a qualquer momento, tirado da bolsa tão logo se passasse algo digno de nota: um chiste, uma nova palavra, uma placa de um lugar já conhecido que se reconhece, depois de anos. Um caderninho de capa bonita, floral. Que chamasse a atenção de quem está ao lado: – nossa, que bonito! deixa ver? – não.

Um diário que fala de todos mas que ninguém sabe o que diz.

Mas foi um caderninho – como outros que tenho, de folhas que se soltam – que me acompanhou mais enquanto estava sozinha. Para eu não dormir sem cuidados.

ERA O COMEÇO

de uma aula, da graduação. Eu queria assistir como ouvinte. A sala em tons muito escuros, em alto contraste, de cinza e amarelo. A professora não parecia ela, mas uma reunião de professoras que eu conheço. Ela hesitava em falar. Os alunos pareciam todos vestidos de preto, mas um preto úmido (talvez como no começo de ‘Retrato do artista quando jovem’). E nos meus óculos tinham passado vicky vaporub.

Um colega começa a falar e eu vejo que ele colocou os cabelos no lugar da barba. A cabeça meio raspada. Fico com vergonha dele e da minha presença lá. Resolvo sair rápido.

Chego na seção de alunos, a funcionária está sentada no chão, sujeira e areia. Uns insetos rodopiam. São joaninhas de várias espécies e tamanhos. As maiores estão comendo as menores. Menores ainda são uns pulgões (agora me lembro que no livro de ciências as joaninhas comiam pulgões, tinha uma foto), e menores ainda talvez fossem ácaros.

Aparece um cara que trabalhou comigo, que cuidava da eletricidade. Fico pensando porque até hoje ele estaria solteiro; mas uma moça iria aparecer na vida dele; digo isso pra mim mesma enquanto ele vai embora de carro, para a casa dele, que fica num bairro tranquilo, muito longe e fora de mão.

UM POUCO SOBRE CADA

filme desses últimos dias:

O Pequeno Nicolau: gracinha; há desmaios demais; como efeito cômico isso cansa. E a leitura do filme é centrada na vida do Goscinny (Nicolau seria Goscinny…), o que não é tão genial – e deixa o Sempé, que desenha Nicolau, de lado. Uma criança gritou durante a projeção: “Ai que filme chato!”

Cartas para Julieta: como vários filmes assim, começa promissor; mas depois da primeira meia hora, é só esperar o final.

Brilho de uma paixão: ele escreve, ela costura; poesia bonita, roupas lindas, paisagens de se apaixonar mesmo – e triste!

À prova de morte: Tarantino, a esperança de ver sempre algo ótimo; e provando que adora pés de mulher – Mia em Pulp fiction estalando o pé pra trás antes de dançar nunca vai sair da minha cabeça.

Ponyo: outra certeza pra vida – eu me emociono imensamente com Miyasaki! Até com o trailer “this summer” que a Disney fez pro filme, deturpando a história.

O profeta: como que pelo menos duas pessoas elogiaram à beça esse filme e recomendaram? “Bem bom” no máximo, como a Karen disse; previsível demais prum filme q dura 2h30. Mais uma vez aquela coisa dos franceses não perceberem que a França está “mudando”. Hum.

Hanami, cerejeiras em flor: mais Japão, além do Miyasaki; Japão com Alemanha; tocante com poucas coisas, com a sinceridade. Merece um post à parte.

HOJE EU QUERO SAIR SÓ

o clipe dessa música saiu bem na época em que eu vim passar férias no Rio com a família. O colorido do centro da cidade me encantava, era um outro ar, mesmo que parecido, diferente do centro de São Paulo que eu gosto tanto.

Era julho, tinha Copa do mundo como teve este ano. Uma noite eu liguei pro Teleguiado, aquele programa com o Cazé, ele me atendeu. Sempre tinha pensado em pedir o ‘Devil’s haircut’, do Beck; mas como era copa a gente precisava pedir clipes de músicas brasileiras. Então não teve outro.

Tanto o Beck como o o Leninne estão em seus clipes andando pela cidade.

A letra também me convinha um tantinho, lá em 1998. Hoje talvez um pouco mais do que antes.

AS PEQUENAS COISAS

dos filmes do Rohmer, em meio às conversas que nunca terminam, os passeios, as viagens, são as que mais ficam. Agora terminando um texto, virando o dia sem dormir, começam os primeiros passarinhos cantar. Aí me vem “a hora azul” de Reinette et Mirabelle, no meio do mato; o raio verde do pôr-do-sol na praia, durante as férias de uma menina deprê e sem rumo; o joelho de Claire na paisagem alpina; o chapéu azul da duquesa; uma aula de francês para crianças; uma festinha nos anos 80; um menino indo embora na estação de metrô; encontros num bar.

Sozinha o tempo todo, procurando o raio verde, ele aparece quando ela está do lado de alguém.

E por aí vai.