A RUA PAIM FICOU

sem mais algumas casinhas, demolidas nesses últimos dias, onde anos atrás funcionavam a cantina Posilippo, uma loja de jornais e produtos de papelaria, artigos para construção, marcenaria.

A rua Paim que se vê pelo Google street view já é muito diferente da que passo todos os dias. As imagens que captaram são de antes da copa, que fotografei. Mais algumas casinhas serão em breve demolidas, já com portas e janelas fechadas por blocos de concreto. A árvore da calçada vai continuar ali?


Talvez o problema nisso tudo seja a minha dificuldade de imaginar a rua com os prédios que nos anunciam.

ELE SE CHAMAVA FERNANDO

fazia técnico em edificações, morava na Saúde, trabalhava com a gente. Tinha namorada, a menina que morava perto de mim e estudava na mesma escola. Ela me disse um dia voltando para casa, esquina da Paulista com a Pamplona: – Você está gostando dele, né?

Parecia então muito claro. Ela foi viajar, tiramos folga ele e eu no mesmo dia. Combinamos de nos encontrar de manhã cedo. Passeamos: ele queria ir ao shopping, tirar dinheiro do banco, muitos ônibus… mas onde mais fomos?

Subindo a Brigadeiro de volta à Paulista, de noite já, a cabeça dele no meu ombro. Um abraço na mesma esquina com a Pamplona, ele ia pegar o metrô; e dissemos tiau. Nenhum dia foi mais como aquele.

SONHO NO ÔNIBUS

estava com amigos, passeando. Uma moça de cabelos bem pretos pergunta onde fica a rua Schumann. Penso logo: ela deve estar querendo dizer a avenida Henrique Schaumann. Subíamos a rua dos Pinheiros. Indiquei o ponto onde também íamos descer, esquina da Rebouças com a H. Schaumann.

Descendo, tudo parece diferente do que é. A Rebouças tem uma placa com outro nome: Norah … alguma coisa. Norah Lange, a escritora, ou Norah Jones, a cantora? E a rua que cruzava era realmente Schumann, o músico, a moça estava certa.

Depois disso sentamos os amigos na praça Benedito Calixto, conversamos sobre música, post-its, outros passeios. Um deles falava especialmente pouco comigo, deixei assim. Mas ele chegou perto de mim, falando baixo: – Eu queria conversar com você. Estou aqui, sabia? – deixando na minha mão umas florezinhas amarelas muito pequenas e frágeis.

A MULHER DO AVIADOR

é ao mesmo tempo a personagem mais importante e a menos importante de todo o filme. Ela é um monte de suspeitas e perguntas que aparecem umas atrás das outras, sem resposta – ou com respostas bem menos ambiciosas que as expectativas. Ela é o pretexto para um passeio sem rumo de tarde, com previsão de chuva, de ônibus, cortando caminho pelo parque, de volta no fim do dia à estação de trem. Passeio cheio de olhares e de conversas sobre nada, depois do qual se volta ao ponto de início.

Foi o primeiro filme que eu vi do Rohmer, no cinema, anos atrás. Depois de rever agora, o passeio continuou assistindo Nadja à Paris, (documentário?) que não me agradou tanto quanto A mulher do aviador, mas traz muito dessa rede de pretextos que levam as pessoas de um ponto a outro da cidade.

ESTAVA EM RECIFE

no topo de um prédio alto, fazia muito calor. Sol forte, eu me escondia na sombra da casa de máquinas do elevador. Dois senhores, talvez trabalhassem lá, me explicavam o que eu via lá embaixo. Os trabalhos no porto: grandes contâineres, carregamento de peixe, caminhões chegavam e iam embora. Muito óleo; eu perguntava para onde ele ia – direto para o mar? O que eu achava mais desconfortável: estar no alto ou o que eu via lá no chão?

Mesmo dentro do prédio, as mulheres que trabalhavam num grande apartamento colocavam coisas no parapeito: uma tela que eu pintei, por exemplo. Ela poderia cair, ou envergar – eu achei uma melhor posição ali para a minha pintura.

COISAS PEQUENAS

que vão aparecendo aqui e ali, sem ligação entre si e com mais nada além delas próprias:

  • depois do sonho que tive na Polônia, achei uma cantora polonesa gracinha;
  • semana passada experimentei de novo duas coisas que não gosto: quindim e água com gás; estavam ali à minha frente, me ofereceram, não me pareceram tão ruins, mas também não são coisas deliciosas;
  • finalmente peguei a linha amarela do metrô; bonitinha; esperei o metrô longe do vidros da plataforma; eles me assustam mais do que a plataforma sem eles;
  • fui ver Tropa de elite 2 e fiquei pensando talvez o óbvio: se o filme tivesse sido lançado antes do primeiro turno teria influenciado as discussões sobre os candidatos do legislativo?
  • descobri por acaso também quem é o Fraga do Tropa 2. E fico com outra pergunta: o filme precisa dizer que é ficção?

O CÉU AQUI

como o céu onde você ou ele está, onde estamos, não é igual ao céu de nenhum outro dos dias em que olhei para ele. O céu aberto de três meses atrás se perdeu na ventania, veio outro que já foi embora faz menos de uma semana, antes sufocado pela fumaça quente, agora dissolvido em nuvens de chuva, que eu tanto queria ver. Tanto o sol como a lua se mostraram em todos os tons que conseguiam refletir – antes de se esconderem por entre as nuvens, foram azul, cinza, branco, amarelo, laranja e vermelho, mais escura, a cor sem nome.

O céu daqui me mostra mais o tempo que passa, no meio da noite, fim da madrugada, enquanto eu não estou dormindo – acordada?