começa de várias maneiras, ou começa em diferentes momentos: uma citação, a pequena história do dybuk na casa de judeus em algum lugar da Polônia, os créditos iniciais com os nomes dos atores, o check-up que o pai de família está fazendo numa época que oscila, num lugar também incerto – mas nos EUA.
Só nos momentos finais temos a ligação do médico, um tanto assustadora: o resultado do raio-x precisava ser informado pessoalmente. Durante todo o filme, o que acompanhamos seria um tipo de exame desse homem: o irmão com um problema de cisto, o dentista que encontra mensagens nos dentes de um cliente, a vizinha que se bronzeia no quintal, a filha que quer operar o nariz, o filho que terá provavelmente problemas de audição no futuro.
também visto agora em janeiro, assim como “Cidadão Boilesen”. Penso que ambos mereciam ser tratados juntos, pelas suas semelhanças como no que se distinguem, mas já escrevi sobre Boilesen em separado.
“Crítico” também é um trabalho de anos de pesquisa e coleta de material, também dirigido por alguém que manteve trabalhos e projetos paralelos ao documentário – Kleber Mendonça Filho, que além de realizador é crítico.
Não sendo as únicas ocupações de seus realizadores (o que não é negativo), os dois documentários se mostram como frutos de esforço e de uma grande vontade de mostrar (ou mesmo de contruir?) o objeto de suas preocupações. Em “Boilesen”, o que ainda não investigamos suficientemente sobre a nossa própria história; em “Crítico”, perguntar a quem faz cinema e quem escreve sobre cinema o que é falar sobre cinema.
Kleber fez algo muito mais simples do que Litewsky: pegou os aparelhos que estavam à mão e foi aproveitando as oportunidades que apareceram; soube recolher o que estava à disposição, o que estava ao seu alcance. Ao menos é o que parece. Daí, dessa aparente pouca ambição, ele consegue falar com todo mundo – algo que à sua maneira também aconteceu em “Boilesen”. Kleber fala com diretores e críticos de jornal das mais diferentes origens e orientações… Consegue juntar os produtores dos irmãos Farelly e Aki Kaurismaki (a “entrevista” das mais sintéticas e poderosas), de Carlos Saura a Samuel L. Jackson. De todos parece ter conseguido confiança: os relatos são todos simples e sinceros, como conversas entre companheiros de trabalho, ou entre amigos, recortados, organizados tematicamente, entremeados por imagens mudas em movimento (disponíveis em domínio público): o cinema no que teria de mais técnico (ou algo tão técnico quanto a realização e a crítica?) – o fenômeno físico que conseguimos captar com nossos olhos, a mecânica dos corpos e das máquinas.
O final reserva uma pergunta que ia me fazendo ao longo do filme: onde está o Kleber, falando também, como os outros, sobre o que faz, ele tanto crítico como realizador? A rápida participação de Rodrigo Santoro traz a pergunta – algo como “onde está você?” – e a deixa em aberto.
Eu, como me dedico também a um trabalho crítico, mas concentrado em literatura, sempre me faço perguntas como essa (“onde está o pesquisador?”), tanto no que escrevo como no que leio dos outros. A presença do sujeito no que faz, no caso dos filmes, já disse isso em outro lugar (e essa ideia não é minha), está nos nomes próprios, que nos filmes vão se desenrolando nos créditos – e são bem mais numerosos do que num livro, por exemplo. A autoria é um trabalho dissolvido em mais de um indivíduo.
Nesse sentido, que documentário mais autoral do que “Crítico”, feito por Kleber e poucos parceiros, com poucos recursos e ao longo de anos de trabalho – mas que ao mesmo tempo reúne 70 vozes de horizontes diferentes?
Fora tudo isso, vejo que faltou pensar na crítica de cinema feita na academia e mesmo no público, na crítica não profissional. Quanto à relação entre a formação de cineastas na universidade, eu me pergunto, não sei: há uma formação universitária para críticos de cinema? Aconteceria o contrário de um curso de Letras, que visa, entre outras coisas, formar críticos literários mas não forma necessariamente escritores? Inevitavelmente pensei como seria instigante pensar num documentário sobre crítica literária…
Cidadão Boilesen, indicação de uma professora. Se não fosse por ela, talvez para mim o filme tivesse passado despercebido, perdido em uma sala em poucos horários. O título já evoca o gênero de objeto de que o filme vai tratar: o “outro lado” de um nome, de uma dupla vida pública.
Para falar de Boilesen, o diretor Chaim Litewski empreendeu uma pesquisa de anos e anos. Conseguiu depoimentos de vários nomes ligados à vida do executivo que se destacou, dentre tantos, na repressão aos opositores da ditadura. A busca por relatos e documentos produz um efeito discordante ao mesmo tempo que detalhista. Tanto que tenta relacionar a crueldade de Boilesen a um acontecimento de sua infância pobre, na Dinamarca. Um pouco demais, para mim, valorizar esse tipo de achado. Mas é um achado dentre muitos valiosos para preservar, num tratamento visual ágil e elaborado para um tema tão pesado.
Muitas vozes falam sobre Boilesen, dos militantes que organizaram seu assassinato aos miltares que o admiravam – exceto ele mesmo. Por quê? Falta de material, de declarações escritas ou imagens com sua voz?
Uma frase simples, agora me foge quem a disse no documentário, pode defini-lo: “foi vítima de si mesmo”. E quem é que não acaba sendo?
pode ser uma maneira de sintetizar rapidamente o gosto do filme “Besouro”. Fui ver hoje de tarde e fiquei surpresa. Pouco sabia, talvez somente que se lutava capoeira como em “O tigre e o dragão”. Ok, ok: eles voam. Mas não só.
Da história não é possível que se pedir maior “fidelidade” ou “autenticidade” na construção que faz do imaginário da cultura negra – o fato de um filme desse existir já é um mérito em si. Achei as imagens bonitas, tudo visualmente muito bem dosado, o roteiro não é bobinho, a trilha comandada por Gil e Nação Zumbi… No mais, os personagens se assemelham ao exu – tentam fugir (mas não conseguem sempre) ao dualismo bom-mal, e voam quando é preciso voar. Adorei.