A RUA PAIM, QUATRO ANOS ATRÁS

estava pintada com as cores da bandeira; afinal, faltava pouco para começar a Copa da África do Sul. A vizinhança se reuniu e pintou o asfalto, postes, fachadas, a beira da calçada.

Mas essa não era a única mudança pela qual a rua estava passando. Algumas das casas antigas começavam a ser demolidas. Nos terrenos vazios, cartazes de novos empreendimentos se levantavam.

Uma das fotos que mais gosto é essa: a pintura no chão, o carro velho estacionado, o muro preto que esconde o terreno já vazio. Mais uma linda e histórica casa de São Paulo demolida. A árvore também se foi, tempos depois. O carro também deve ter tido um destino semelhante.

A rua Paim é conhecida por sua má fama: seus treme-tremes, o tráfico de drogas, a população simples que vive em casas coletivas. É uma ligação importante, entre a Nove de Julho e a Frei Caneca, Augusta. A poucos quilômetros do centro e da Paulista, era de se esperar que ela fosse alvo do mercado imobiliário, cedo ou tarde. Esse processo de “revitalização” foi comentado na tevê, em revista — em tom otimista.

A RUA PAIM é um dos meus posts mais lidos e comentados do blog (e teve sequências, inclusive um sonho, em posts reunidos sob a tag “rua paim”). Escrevo em tom diverso das reportagens. Como (antiga) moradora da região, durante mais de dez anos, observo essas mudanças com uma certa tristeza.

Isso porque “os paulistanos querem morar” numa rua onde já moram paulistanos — de baixa renda… As casinhas, o comércio de todo tipo, deram lugar a altos prédios, com suas janelas e varandas minúsculas, suas portarias gradeadas, suas calçadas estreitas.

Várias das pessoas que comentaram, muitas vezes raivosas, nos posts que escrevi sobre a rua, comemoram a mudança. Pediam a “limpeza” da rua, a expulsão de seus moradores, como se pede a execução de um condenado…

O Google Street View, até a data em que escrevo este post, não mostra a rua Paim renovada. A data de sua última atualização é janeiro de 2011. Daqui uns meses escrevo um novo post sobre a rua.

MEDUSA

da Annie Lennox, foi o primeiro CD que compramos em casa, junto com o aparelho. Era um lançamento na época; No more i love you’s era trilha de novela? Ainda hoje ouvimos muito: agrada a todos.

Os covers do disco foram escritos por homens – isso poderia explicar o título, Medusa. Mesmo que no clipe de Why (do disco anterior) ela esteja mais próxima de uma Medusa, montada e colorida, o encarte cinza, em que ela aparece com os cabelos curtos de costume e o nome escrito à máquina de escrever na testa também intriga. Os cabelos em forma de serpente viraram letras e, tão cheia de cores antes, a Medusa agora toma o tom de pedra.

TENHO AGENDAS

desde uns 9 anos de idade. Anotava as coisas mais miúdas do dia: a rotina da escola, devolução de livros na biblioteca, colava recortes de jornal, figuras de revista. Também deixava recados para mim no futuro; em fevereiro, pegava uma página de outubro e deixava alguma pergunta enigmática.

Ontem num caderno, li algo como: “Ana, você não vai viver esse momento duas vezes”. Deve ter sido coisa que ouvi de alguém, não sei quem mais; nem que momento seria esse. De toda forma continua sendo verdade.

EM CASA PENSAVAM

que eu ia me tornar arquiteta, engenheira; isso porque adorava as plantas de imóveis que saiam no jornal. Pegava os anúncios ilustrados e brincava com eles horas a fio. Ficava olhando a organização do espaço, áreas comuns, fosso para o elevador. Desenhava plantas também, dos lugares onde eu queria morar. Ainda me lembram isso, a família.

Hoje olho para as plantas dos imóveis em lançamento: quartos e banheiros cada vez menores, sacadas onde só se pode colocar o ar-condicionado… – elas me sufocam. Mesmo assim ainda guardo a imagem de uma casa onde eu possa brincar.

ERA UMA VEZ

uma menina que escrevia; ela passava o dia todo pensando nas histórias que ia contar aos amigos: os passeios, os sonhos que ela teve com eles, com personagens de outras histórias, com diretores dos filmes que iam ver no cinema, matando aula; juntava desenhos que encontrava por aí, fotos e cartões postais perdidos no meio dos livros que ela espanava nas estantes; salvava imagens de sites perdidos na internet.

Ela tinha um jeito de escrever que não existe mais – diz um leitor, que sabe de cor um texto dessa menina, que ela mesma desconhece; texto lindo esse, que ele não consegue mais encontrar em lugar nenhum.

INDO PRA ESCOLA

eu não gostava de chegar antes de o portão abrir; me desagradava a possibilidade de ficar parada no meio dos colegas, separada do restante, sem ter com quem falar. Então eu descia do ônibus uns dois pontos antes, na esquina com a Veridiana, e ia o resto do caminho a pé. Era o tempo exato para a entrada.

Ainda faço isso em algumas situações; pego o caminho mais longo, desço antes, invento um trajeto alternativo para chegar na hora – nem antes nem depois.

OS POST-ITS

eram uma coisa meio supérflua: para que colar papel em cima de outro papel? Por que não escrever logo – sublinhar e marcar diretamente com lápis ou caneta – o que quer que seja?

Já faz um tempo meu hábito de leitura mudou: post-its se acumulam entre as páginas de alguns livros; marcadores coloridos me fazem lembrar como eu li. E em conjunto, deixam bem claro, no livro fechado, que ele será relido.

(dedicado ao Cícero)

OS TRÊS REIS MAGOS

eram personagens estranhos: como eram magos se na religião não podia haver magia?

Ficavam mais longe que as vaquinhas, o boi, José e Maria, e o pastorzinho com uma ovelha, no presépio, olhando de canto a movimentação de dezembro. A partir do natal, iam chegando cada dia mais perto da manjedoura. Dia 6 de janeiro chegavam, mas já era hora de recolher todas as pecinhas e encaixotar a decoração, pra tudo recomeçar lá no final do ano.

O PEQUENO ARQUITETO

é um tanto diferente de outros joguinhos de blocos de montar: sempre paredes, pontes, telhados e a torre com relógio; peças de madeira nunca exatamente iguais umas às outras, como as de plástico. Além disso, não tendo dentes para encaixar, as peças permitem pilhas que desafiam a gravidade. E por isso mesmo o que se monta com elas se desfaz com muito mais facilidade.