FIQUEI SURPRESA

com a história do Tetris, que eu desconhecia: a URSS caindo, um pesquisador cria o jogo, que se espalha sem controle, direitos ou patentes. Mesmo quando o jogo passa o outro lado da cortina de ferro, acordos são furados, contratos não são cumpridos, até que um golpe certeiro da Nintendo derruba todos os outros concorrentes.

A história pode ser menos simples do que o jogo – por conta tanto de uma coisa como de outra sonhei esta noite com pecinhas caindo, esperando um encaixe com outras.

TUDO É FEITO

de átomos, fomos informados numa aula de ciências. Já tinha visto na tevê: eram bolinhas que giravam umas em torno das outras.

Esses pedacinhos de tudo se mexiam, mesmo nas coisas mais sólidas que existem, eles estão lá, não param. E como poderíamos ser formados por algo que tem tantos espaços vazios?

Eu ficava pensando se poderíamos esfarelar como uma paçoca, se os átomos todos resolvessem se mexer de um jeito diferente, de repente.

NO CURSO DE INGLÊS

o primeiro professor se chamava Marcos: nunca falava em português, entendíamos tudo o que dizia. Depois, uma senhora ex-secretária bilíngue. O sotaque dela era criticado discretamente pelo professor do básico 3: um japonês que trabalhava na Varig e viajava pelo mundo, dando preferência aos lugares obscuros da Ásia, como Bandar Seri Begawan, capital do Brunei.

No intermediário o professor era apaixonante. Ele não conseguia nos convencer que tinha 14 anos – assim como eu também parecia mais velha. Ia no Balafon, balada na rua Sergipe, entrava porque enganava a idade. Era de Recife, quando falava português ficava evidente. Amava Pink Floyd, passou Wish you were here e umas outras deles. Sobre ele, me confundo particularmente: ele usava camisa xadrez azul de flanela, como eu também?

MINHA MÃE DISSE

que ia buscar a gente no fim do dia. Era no pré. Mas ela não garantiu inteiramente: daí veio o problema. Ela disse que se não chegasse exatamente no horário da saída, a gente deveria pegar a perua e ir embora pra casa. Será que eu não ouvi, não entendi, ou queria que ela fosse nos buscar custe o que custasse?

A questão é que ficamos, os três, sentados por muito tempo esperando. Eu dizia que ela iria chegar a qualquer momento. E não chegava, muito tempo passou e nada. As funcionárias da escola precisaram ligar pra casa e avisar que estávamos lá, olhando o movimento da rua, aguardando que alguém entre os passantes da avenida Pedroso de Morais fosse ela.

ELE SE CHAMAVA FERNANDO

fazia técnico em edificações, morava na Saúde, trabalhava com a gente. Tinha namorada, a menina que morava perto de mim e estudava na mesma escola. Ela me disse um dia voltando para casa, esquina da Paulista com a Pamplona: – Você está gostando dele, né?

Parecia então muito claro. Ela foi viajar, tiramos folga ele e eu no mesmo dia. Combinamos de nos encontrar de manhã cedo. Passeamos: ele queria ir ao shopping, tirar dinheiro do banco, muitos ônibus… mas onde mais fomos?

Subindo a Brigadeiro de volta à Paulista, de noite já, a cabeça dele no meu ombro. Um abraço na mesma esquina com a Pamplona, ele ia pegar o metrô; e dissemos tiau. Nenhum dia foi mais como aquele.

DUAS FESTAS

uma dia 17 de agosto; essa bem-sucedida, Karen e eu organizamos outra, em novembro, dia 23.

A primeira queríamos que fosse inovadora: talvez a primeira festa dos anos 90 depois dos anos 90. Esforço do grupo de amigos em lembrar das músicas da década anterior, com bem menos recursos na internet do que hoje. A segunda era à fantasia, com tema dos personagens de desenhos, principalmente. Todo o trabalho, o tempo e as andanças para achar um lugar, salão, casa ou algo parecido, alugar por uma noite, ir comprar bebidas onde fosse mais barato, equipamento de som e luz, fazer um convite legal, retocar as imagens com os meios amadores que tinha, colar cartazes por aí, fazer lista de emails. Depois: limpar tudo, e ver o que ainda hoje sobrou.

ME AGRADAVA REPETIR

coisas pequenas no dia a dia: sentar-me sempre no mesmo lugar da mesa para comer, usar a mesma colher para mexer o chá mate, comer o mesmo lanche no recreio, no mesmo lugar do pátio; manter fixas na semana as datas de devolução dos livros na biblioteca; numa mesma ordem pentear o cabelo, escovar os dentes  e tomar banho; organizar na mochila os livros e cadernos para cima, os livros atrás, cadernos à frente; as cores os lápis e canetas no estojo; tomar o metrô no mesmo vagão, escolher, se livre, o mesmo banco.

Ainda continuam certas coisas assim, que percebo se elas mudaram de lugar.

GUARDEI UMAS FOLHAS

no meio do caderno, para ler depois, anotações de um ciclo de palestras; mais de dois anos se passaram, peguei agora. Pouca coisa das notas me dá alguma informação precisa –  incompletas e lacunares demais. Não sei o que foi dito pelos professores e o que eu mesma pensei. Alguma coisa ali ainda é verdade para mim hoje.

PODIA SER OUTUBRO

e eu planejava mudar de direção, fazer algo diferente das revisões que eu fazia. Queria entrar mais no mercado editorial, desenhar, diagramar. Resolvi dedicar um pouco do dinheiro que juntava pra essa mudança de rumos. Duas opções: comprar um computador novo ou fazer cursos de programas de design. Escolhi a segunda opção, para encher o currículo. Peguei uma escola de informática razoável, cursos intensivos em dezembro e janeiro. No fim das contas: começo do ano seguinte, eu tinha largado o estágio de revisão, cancelei o curso, peguei meus cheques de volta. Comecei a trabalhar na biblioteca, o que deu no que deu hoje.

E por que cancelei o curso? Fiquei pensando, hoje de manhã, que eu talvez tivesse pouca simpatia pela interface dos programas, a carinha dos ícones das ferramentas de vetores, coisas assim (se os cursos fossem no mac, penso agora, poderia ter sido mais facilmente seduzida).

ACORDEI DE UM PESADELO

com uma música na cabeça: “quando me vi tendo de viver comigo apenas e com o mundo…”. Continuei a cantar na cabeça, seguindo a letra, aí cheguei numa parte assim: “voltamos a viver como há dez anos atrás e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”.

Essa imagem era a que eu mais gostava de toda a música. Tinha dez anos quando ela tocava no rádio. Tentava levar o que a música fala ao pé da letra: voltar a viver uma época do passado, mas com andamento rápido. Calculava depois de quantas horas (dividindo os minutos em dias da semana) eu estaria vivendo meu tempo presente.