10 DE ABRIL: SEIS SEMANAS

sem comer alguns alimentos que até então eram bem presentes no meu cotidiano: açúcar refinado, mel, farinha de trigo (o que inclui massas, pães, biscoitos, até mesmo integrais, gérmen de trigo), aveia, leite de vaca e derivados. Se a lista já parece bem grande, acrescento: atum, camarão, lagosta e frutos do mar. Faz uns anos deixei de comer carne (vaca, frango, porco) mas continuo a comer peixe (quem sabe um dia viro vegetariana de verdade…). Nada de álcool ou bebidas com cafeína (isso também por conta da amamentação).

Sem todas essas coisas, o que estou comendo? Frutas frescas e secas, verduras, legumes, iogurte e queijo feta (exceções dos laticínios), oleaginosas. Além disso, batata, quinoa, inhame, ervilha, lentilha, grão de bico, linhaça, polenta, semente de girassol, gergelim. Até pipoca eu posso comer.

Parece um tanto difícil. Mas é bem possível. Faz uma baita diferença no cotidiano. Deixar de lado alguns costumes, que mais pareciam rituais: pão com manteiga e mel, a facilidade de se abrir uma lata de atum ou comer um cereal com leite, a pizza no fim de semana, os doces que sempre fizeram parte do dia.

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Mudar de alimentação também muda o relacionamento com o mundo: é dizer não quando alguém te oferece carinhosamente um chocolate, um pedaço de bolo para acompanhar o chá. É ter que ignorar 80% das prateleiras do supermercado, visto que quase tudo é feito de açúcar, farinha de trigo ou algum derivado de leite de vaca. É ter que comprar alguma coisinha quase todo dia, porque frutas e legumes precisam ser frescos. Deixamos de lado aquela compra grande quinzenal, encher a geladeira, para fazer comprinhas pequenas.

Gasta-se mais dinheiro? Depende. Come-se menos e melhor em qualidade. Minha mãe diz muito: melhor gastar no supermercado e na feira do que na farmácia!

Aí aparece a razão para essa mudança alimentar: a saúde. Estou fazendo um tratamento alternativo, para recuperar o sistema imunológico. O metabolismo também estava baixíssimo: numa escala em que 100 é o normal, o meu estava em 27 (!) um mês atrás! Falarei mais em outro post. Por ora, estou me sentindo muito bem com a nova rotina: aprendendo coisas diferentes na cozinha, a digestão está bem mais rápida, estou me sentindo mais disposta e menos estressada, sem aquelas eventuais dores de cabeça sem explicação. Isso porque, acima de tudo, eu quero mudar.

Hoje é o dia de retorno à consulta, para verificar os efeitos dessa mudança e saber quais os próximos passos a seguir.

Importante: esse post não é nenhum guia alimentar, mas o relato de uma experiência pessoal. Estou seguindo um tratamento, acompanhada por uma especialista. Cada pessoa tem seu perfil, necessidades e características que devem ser levadas em conta quando se trata de alimentação. A quem lê, caso interesse, aconselho que procure orientação para mudar a dieta.

VOCÊ QUER AMAMENTAR?

— Sim; foi sempre essa a minha resposta.

Ao longo da gravidez, informei-me bastante sobre amamentação. De toda forma, sinto que ainda não sei o suficiente. E por mais que tivesse lido estudos e guias, relatos, visto vídeos, acompanhado grupos de discussão, só depois, na pele, fui perceber o quanto um ato fundamentalmente instintitvo (somos mamíferos, não é mesmo?), que faz tão bem à criança e à mãe, é cercado de tanta dificuldade.

Pois sim: amamentar é difícil — mas cada pedra no caminho não supera a beleza, a conexão e o amor que envolvem esse ato. É triste constatar que a delicadeza da relação entre mãe e bebê pode ser rompida tão facilmente. Basta um momento de insegurança em relação ao leite materno, ao sono e ao peso do bebê; basta uma indicação médica errônea; basta um olhar enviesado de algum membro da família ou amigos; basta uma prateleira no supermercado repleta de mamadeiras e leites artificiais, com rótulos gentis… Em suma, a falta de informação e de apoio — frente ao forte apelo das indústrias de alimento — rompe todo um processo natural e importante para mães e bebês.

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Nada se compara ao olhar do bebê ao mamar no peito — olhar profundo esse que é também da mãe, observando seu bebê. Ambos silenciosos, ambos alimentando-se um do outro.

De maneira bem sucinta: o recomendado é amamentar exclusivamente e em livre demanda até que o bebê atinja os seis meses de idade. A partir daí, o leite materno continua sendo a principal fonte de alimento do bebê até um ano, período em que vai começando a comer outros alimentos. O desmame deveria acontecer a partir dos dois anos, em acordo entre o bebê e a mãe.

Ao visitar amigos com filhos pequenos, vez ou outra, Marco e eu perguntamos sobre como foi a amamentação. A partir das experiências que ouvimos, é possível desenhar algumas situações em que o desmame acontece de maneira precoce.

A mais drástica: o bebê não amamenta desde o início ou desmama nos primeiros meses. Conversando com a podóloga, ela disse que era uma exceção quando criava seus filhos pequenos, 20 anos atrás, na Grécia. 9 entre 10 mulheres deixavam de amamentar o mais rápido possível, para que pudessem voltar a fumar. Já haviam interrompido o hábito durante a gravidez, o que parecia muito tempo… Era moda fumar, e não dar de mamar. Pode-se dizer que esse tipo de caso não acontece somente na Grécia, tampouco se limita àquela época.

De maneia mais frequente, a substituição do leite materno por artificial acontece aos 4 meses, momento em que a mãe volta ao trabalho. A licença-maternidade é curta demais para que ela dedique-se ao bebê. O leite artificial mostra-se mais “prático”. Outras pessoas da família podem dar a mamadeira ao bebê. Ele bebe uma quantidade definida. O leite artificial é mais pesado, o que faz com que ele durma ininterruptamente durante a noite. Mas não se mede os prejuízos que toda essa praticidade traz ao bebê, aos seus vínculos afetivos com a mãe, ao seu aparelho digestivo ainda imaturo, ao seu ritmo de sono… Mesmo mães que ficam em casa com os filhos acabam largando a amamentação por conta dessas aparentes vantagens — algo semelhante às mães gregas de que falei acima.

Uma mãe que conhecemos resolveu dar mamadeira com leite artificial à filha para que ela tivesse mais liberdade: ela queria voltar a sair de noite com as amigas, ir ao cinema. A bebê tinha por volta de 5 meses… O que aconteceu? Ela começou a rejeitar o peito, quando a mãe oferecia seu leite. Beber na mamadeira oferece menos dificuldade do que sugar o seio (o movimento de sucção dos bebês no peito favorece toda a musculatura bucal, auxilia a fonação e o processo de fala, que acontecerá no futuro). Perderam as duas, mãe e filha. A mãe entristeceu-se, pois não havia se informado sobre a confusão de bicos e que oferecer mamadeira (e outros bicos artificiais, como chupeta) pode colocar em risco a amamentação. Ela gostaria de ter prolongado aquele momento tão singular que tinha com sua bebezinha.

Outra amiga também entristeceu-se muito ao perceber que seu filho estava demonstrando cada vez mais interesse pela mamadeira. Ele desmamou quando tinha pouco mais de 6 meses. Ela não precisava voltar ao trabalho, não sentia necessidade de sair sem o filho. O que houve dessa vez? A preocupação com a fome do bebê. Ele sempre pedia para mamar. Ela decidiu então dar o leite artificial como complemento, pensando que seu leite não fosse o suficiente.

Esse é um dos mitos que mais circulam: que o leite materno não satisfaz e não dá conta das necessidades do bebê. Fico imaginando se uma mãe gorila, morcega ou capivara vacile quanto ao seu próprio leite. Arrisco dizer que só mães humanas desconfiam de suas capacidades. As razões são inúmeras, um post é pouco para tratar disso.

O Francisco pede muito o meu peito. Não é somente por fome no sentido estrito. É fome de calor do meu corpo, do conforto dos meus braços, do acalanto das batidas do meu coração; é vontade do meu cheiro, do meu toque, de estar juntinho o tempo que for. Por isso, como disse acima, amamentar é uma relação — amorosa, sobretudo. Numa amizade ou num namoro, conta-se quanto tempo dura uma conversa no bar, as ligações telefônicas, quantos beijos e abraços foram trocados? Por que devo então contar quantos mililitros de leite meu bebê ingere, durante quantos minutos ele fica no peito? Por que achamos um exagero um bebê querer ficar junto do corpo de sua mãe, dormir com ela?

E, para terminar o post (mas sem dar o assunto por encerrado): por que uma experiência tão singular para todos nós — afinal, todos um dia fomos bebês — é abreviada e frustrada em muitos casos? Que consequências isso traz para a nossa formação e crescimento?

EU BEBO ÁGUA

parece ser a coisa mais corriqueira desse mundo. Todo mundo bebe água. Água é fundamental para a vida. Nosso corpo é feito, em grande parte, de água. Praticamente impensável que beber água possa fazer mal. Mas pode, quando se torna excessivo. Pois esse foi o meu caso.

Pouca gente conhece esse tipo de compulsão. Ninguém vem te falar: “olha, você está bebendo água demais”. Alguém pode te comentar se fuma demais, se bebe demais. Muito sutil dar-se conta de que um hábito que é visto como positivo, saudável, possa ser perigoso.

Eu já conhecia. Amélie Nothomb, em Biographie de la faim, conta justamente a potomania, anorexia e bulimia que ela e sua irmã tiveram. Dias atrás, relembrei quase que instantaneamente do nome desse desejo por água: potomania.

Não sei se posso ser enquadrada num caso assim, é provável. De qualquer maneira, demorou muito mas percebi que a água é um problema para mim, uma dependência. Estava na minha frente há anos e anos. Era uma garrafinha de água. Devia ser aquelas de 300 ml. Depois mudou para aquelas de 500 ml. Como eram mais baratas, comecei a comprar garrafas de 1,5 l. Com o tempo, comecei a ter uma garrafa perto da cama, na mesa do computador. Até no banheiro cheguei a deixar uma delas, para o caso de eu ter sede. Praticamente em cada canto da casa. E não somente uma, mas duas, três. Garrafas vazias também.

Porque eu tinha sede. Bastante sede. Ainda tenho. A boca e a garganta secas. Era por isso que eu bebia, oras. Se tenho sede, devo beber água. Para me hidratar. Para as toxinas. Para a saúde. Para o bebê na barriga. Para ter leite.

Saindo de casa, eu precisava de uma garrafa por perto, ou de um bebedouro. Pesquisando aqui no blog mesmo, achei um post em que falo dessa coisa de ir encher a garrafinha no bebedouro. Precisava também de banheiros à disposição, regularmente.

Faz uns dias, comecei a ter tonturas, a visão embaralhada. A barriga pesada. Pensei que era algo que eu tinha comido. Tenho digestão difícil, lenta. Já sofri de gastrite no passado. Bebi água para ajudar. Fui dormir mal, me sentindo estufada.

A mesma situação retornou depois de uns cinco dias, mais forte. Eu tinha fome mas sentia que não tinha espaço na barriga. Comi iogurte, frutas. Precisava de água. Em menos de uma hora dei conta de um litro. Mas durante o dia foi muito mais, não sei quanto. 20 litros, talvez? Bem possível. Além da água pura, no almoço preparei sopa e no café da manhã tinha tomado suco de laranja. Nem consigo imaginar a quantidade de líquido que tinha ingerido.

Muita tontura e fraqueza o dia todo. Dormir à noite não conseguia. A barriga estufou, como se seu estivesse grávida, mais para cima. Vomitei bastante, água principalmente.

Quem já me alertava, muito carinhosamente, era o marido. Eu não dava importância, dizia que eu precisava. Levantava o argumento da sede. Nesse momento em que já não cabia mais água em mim, toda inchada, aceitei. Eu bebo água demais. Foi um grande passo.

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E vieram muitas e muitas ideias pela cabeça, junto àquela fraqueza. Antes de cair no sono, relembrei muitos fatos. Que já dez anos atrás, quando trabalhava em biblioteca, tinha uma garrafinha do lado do computador. Aquele hábito saudável. Um chefe me repreendeu um dia, dizendo: — Assim você acaba com os nossos galões de água! — Mas como era uma pessoa que sempre me fazia críticas infundadas, que me perseguia, eu não liguei.

Já dando aulas, lembro que durante o intervalo eu enchia e terminava já no mesmo instante com uma garrafa de 500ml; reabastecia com mais 500ml para ir tomando durante o curso. Hoje em dia, quando passeio, preciso sempre levar uma garrafa de 1,5 l. Se é longo, são duas. Fui associando momentos e hábitos. Em quase todos esses momentos, muito comum que eu bebesse água muito rápido e em grande quantidade. E que eu precisasse muito ir ao banheiro.

Inúmeras coisas passaram pela cabeça: sonhos, livros, filmes, desenhos, letras de músicas. Recordações as mais diversas.

Dormi e a partir daquele dia mudei um hábito. Em vez de beber água direto da garrafa, sem me dar conta se ingeria 200, 300 ou 500 ml, estou com uma xícara de chá. Não medi, mas deve ter uns 200ml no máximo. Coloco água ali e vou dando golinhos.

Sede? Ainda tenho, muita, sempre. Mas desde aquele momento lá, em que me dei conta, sinto a sede e espero. Espero. Tudo seco. Depois de um tempo essa sede passa, simplesmente, sem água nem nada, só esperando mesmo. Tendo paciência.

Pesei-me nesses dias, a cada manhã, ao acordar. No espaço de dois dias, em que descobri o excesso de água e o seguinte, foram 3kg a menos. Muito certamente era água que eu tinha acumulada no corpo, porque depois dessa perda meu peso se estabilizou.

Não sei a partir de quando o consumo de água tornou-se exagerado. Somente depois de sentir-me mal fui pesquisar: beber 6 litros ao dia e urinar 2,5l  é o máximo recomendado. Fico imaginando quantas vezes tive uma indigestão ou um cansaço devido o excesso de água no corpo. Vai saber o que posso ter feito mal a mim mesma, à minha saúde, fazendo algo que acreditava ser bom.

Como sabem pelo blog, estou amamentando. Imagine viver isso numa época em que se está nutrindo um bebê… Como muita coisa não é por acaso, eu devo essa descoberta à maternidade. Sou muito grata ao Marco e ao Francisco por me fazerem ver essa parte de mim que eu desconhecia, mesmo estando à minha frente, ao meu lado — há muitos anos, mesmo antes de conhecê-lo, de ter chegado entre nós. Lendo A maternidade e o encontro com a própria sombra, livro que eu indico fortemente a quem esteja esperando bebê ou já tenha crianças, pode-se entender mais do que estou falando (há uns trechos aqui).

Escrevo esse relato — que acredito terá seguimentos, outros posts virão sobre o tema — também como um alerta. Pelo que pesquisei, um consumo que supere 10 litros diários pode causar intoxicação. Um post aqui, e outro em francês, trata desse assunto de maneira simples. Ainda procurarei mais sobre o assunto.

Posso dizer que mudei, em alguns dias? Deve ser aquele sistema: um dia depois do outro, um dia de cada vez. Já comecei antes umas terapias, mês passado. Vou incluir essa variável entre os elementos a tratar. Escrever é muito terapêutico para mim, sempre foi. Ler também. E fazer crochê é uma grande diversão. Acima de tudo, mergulhar na vida com um bebê, com tudo de delicioso e duro que isso comporta, é o mais importante para mim agora. A delícia supera em muito, com a sensação de poder se renovar a cada dia.

A TROCA DE FRALDA

ovonovo_era um momento bem estranho, no começo: tudo novo, pra nós e pro Francisco. Lembro que ele estranhava, reclamava, choramingava. Um bebê só conhece a posição de deitar depois de nascer. E não somente deitar mas estar rodeado pelo vazio, cercado de luzes e ar. Deve dar medo. Também acho que escolhia a hora errada: ele queria mamar e eu estava ali despindo, limpando.

O trocador fica no banheiro, onde é mais quente; é um modelo dobrável. Colocamos uma flanela por baixo do Francisco. Para limpar, algodão embebido em água morna. Aqueles lencinhos umedecidos podem até ser práticos, mas deixam a pele mais irritada. Se o algodão com água limpa bem, pra quê gastar mais? Maisena deixa tudo sequinho antes de colocar a fralda. Sobre as pomadas, percebemos com o tempo que é melhor evitá-las. Se aparece uma feridinha, melhor esperar que ela se cure sozinha (lavando sempre bem e recorrendo à maisena). Colocar sempre pomada tira a defesa natural da pele.

Voltando ao estranhamento do início: durou alguns dias. Fomos nos dando conta de que nós mesmos, Marco e eu, poderíamos relaxar mais, curtir o momento. Deu bem certo. Trocar a fralda virou uma brincadeira, talvez a primeira, do Francisco: beijar, massagear, conversar, cantar são algumas das coisas que começamos a fazer. Após ter mamado, é claro, a troca de fralda poderia durar meia hora, até mais! Era a oportunidade para ele mesmo conhecer o seu corpinho, testar a própria voz,  observar o mundo. E ficar um tempo livre da fralda…

Meses depois, a troca de fralda passa a ser um momento meio entediante, ahaha, visto que se repete tantas vezes ao dia! Pelo que já ouvi, isso acontece com muitos bebês. Apelamos para a criatividade: coloco brinquedos dentro do armário do banheiro, deixamos ele se virar (tomando muito cuidado!) dentro do trocador e, inclusive, passo a trocá-lo em outros lugares, em cima da cama, no chão da sala, para variar um tantinho.

Trocando a fralda em outros lugares da casa, me passou pela cabeça a (ousada) ideia de deixar o Francisco sem fralda, brincando… Nem pensamos a respeito, mas nós, adultos, condicionamos a criança a usar fraldas para, anos depois, tirá-la desse hábito. Sobre isso, é interessante ler esse texto sobre elimination communication. Mesmo sem ter feito com o Francisco (poderia ter feito, por que não?), penso bastante nessa questão, ao menos inspirando-me nos seus princípios: manter olhos abertos para a linguagem corporal do bebê, comunicar-se com ele de todas as formas possíveis, passo a passo…

“ESCUTE SEU CORAÇÃO”

foi o que uma terapeuta disse para mim, a respeito da criação de filhos. A frase é um clichê — mas nem por isso deixa de ser tão verdadeira. Escutar o coração seria deixar falar a voz interior, amar com todas as forças, sem limite.

ovonovo_-9Não dá pra escutar direito o coração quando se aceita tudo o que dizem os médicos; quando se quer agradar e obedecer aos conselhos que a família repete; quando fazem comparações com outras mães, pais e bebês; quando se pensa em seguir um manual de como viver com um bebê; quando se dá ouvidos aos palpites da velhinha no ponto de ônibus.

É difícil escutar o coração em meio a tanto barulho.

Escutar o coração não é afrontar, nem fugir dos rumores — até porque silenciar o mundo não seria possível. É ouvir, filtrar, refletir sempre. Procurar nas palavras dos outros algo que encontre eco, que entre em sintonia com o que temos lá dentro. Difícil, sim. Mas quem disse que seria fácil?

NÃO POR ACASO

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eu tinha aqueles momentos de insônia  na madrugada: era pra entender que uma noite inteira de sono seria coisa inexistente no futuro; não por acaso eu também acordava no meio da noite com uma grande fome: era pra entender o Francisco e sua necessidade de mamar a qualquer hora; não por acaso eu tinha enjoos e indigestões no começo da gravidez: era pra compreender melhor as cólicas e desconfortos do Francisco nos primeiros meses; não por acaso mudei planos, revi algumas ideias, pesquisei muito: era para me dar conta de que um bebê tem o mundo todo para descobrir, tudo é novo e imprevisível; não por acaso eu suprimi café, álcool, algumas coisas gordurosas ou fortes demais: era para eu perceber que um bebê não tem um estômago maduro o suficiente para determinados alimentos; não por acaso meu humor oscilava: era pra saber viver as mudanças e fases delicadas de todo bebê, as semanas mais dependentes de mim; não por acaso eu precisava dormir muito, seja de manhã, de tarde ou à noite: era pra entender que o Francisco precisa dormir muitas vezes ao dia, sem hora marcada; não por acaso o barrigão dos últimos meses me fazia caminhar mais lentamente, me impedia alguns movimentos: era para me identificar com  o Franciso, quando quer alcançar algo que vê à frente e ainda não consegue

— ao perceber a conexão entre o que acontece comigo e com meu filho, tanta coisa se torna mais compreensível, tanta coisa faz sentido… e tudo é bem-vindo.

O QUE COMER DURANTE A AMAMENTAÇÃO?

essa pergunta me vinha à mente todo o momento, nos primeiros dias. Eu já sabia que o sabor do leite materno muda em função daquilo que a mulher come, mais doce, mais salgado. Além disso, se o alimento prende ou solta mais o intestino, se provoca mais acidez, eram detalhes que eu tinha ouvido falar. A parteira, por exemplo, logo me disse para eu não tomar suco de laranja, ou poderia provocar uma diarreia no Francisco; nem poderia comer pêssego, damasco ou ameixa, porque dariam dores de barriga. Com o passar dos dias, percebia que uma cólica vinha logo pela manhã — um incômodo antes de fazer cocô. Ele acordava reclamando de dor e se contorcendo. Isso era uma razão e tanto para ficar atenta ao que eu comia.

Outro fator: batia uma fome grande, muitas vezes ao dia. Era uma fome mais forte do que aquela da gravidez. Eu já acordava na madrugada para ir comer algo, quando grávida. Amamentando, então, virou uma regra.

Agora, aos quase seis meses de amamentação, essa super larica já diminuiu (acredito também que era um pouco de ansiedade, confesso…). Mas, nos primeiros meses, eu comia muito e, ao contrário do que se espera — que amamentar em livre demanda faz a pessoa emagrecer muito rápido — não perdi um quilo sequer até o momento. Somente depois que o Francisco começar a desmamar (sabe-se lá quando, é coisa pra nós dois decidirmos) é que vou começar a pensar em comer menos, para perder os quilos da gravidez.

Voltando ao início, quando eu me perguntava o que seria ideal comer: naquele momento, não conhecia esse texto, publicado no gva (grupo virtual de amamentação) do facebook. Aliás, vale muito a pena entrar no grupo para ter acesso a vários textos sobre amamentação. Recebi uma lista da casa de parto, bem simples, que vale a pena compartilhar aqui:

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– comer alimentos com pouca gordura e pouco sal (eu praticamente tirei o sal da comida, tempero levinho com manjericão, orégano, azeite de oliva); preferir integrais.

– evitar: feijão, vagem, couve flor, ervilha, repolho, alho poró, pimentão, cebola, aspargos, alho; entre as frutas, abacaxi, morango, laranja, pêssego, damasco, ameixa, uva, limão, nem os sucos dessas frutas.

– o que comer? beringela, couve de bruxelas, cenoura, beterraba, espinafre, abóbora, abobrinha, tomate, alface; dentre as frutas, maçã (cozida ou assada de preferência) banana, pêra, amora, framboesa, kiwi.

– desde a gravidez, deixei de lado o café, chás com cafeína, sucos industrializados; doces vou tentando evitar!

– água, sempre, e principalmente durante a mamada.

– quinoa; não estava na lista que recebi, mesmo assim estamos investindo muito nela! eu cozinho simples, na água (400g para 1 litro de água), depois vou adicionando outros legumes, peixe, tempero; rende para quase todos os almoços da semana. trigo ou lentilha eu percebi que davam mais cólica no Francisco, por isso vamos consumindo mais moderadamente.

Procurando na internet, não se encontra um consenso a respeito da questão. De qualquer maneira, é interessante ficar de olho no que se come. Tenho observado, comigo e com o Francisco, que há uma relação entre o que como e sua digestão. Mesmo já com seus cinco meses e um intestino mais desenvolvido, ele sente mais dificuldade pra digerir meu leite depois de eu ter comido algo mais pesado. É uma coisa para acompanhar, caso a caso.

O CORPO TODO AMAMENTA

foi o que senti desde o começo. O meu corpo todo estava dedicado àquela atividade: dar de mamar; e não somente o corpo mas a mente também. Dar. Dar o seu tempo, a sua atenção, os seus pensamentos, os seus sentimentos e expectativas. Amamentação é sobretudo entrega. Já ouvi dizer que seria uma prolongação da gravidez, mas mais que isso.

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O bebê é pequeno, magrinho. Eu o observava, cada pequeno movimento, para identificar os sinais da fome. Colocava pertinho de mim. Mas como, de que lado? Onde posiciono os seus bracinhos? E a cabeça? Mais pra cima, mais pro meio? Onde é melhor: no sofá, na cadeira, na cama? O bebê se debate, fica ansioso. A mãe, desajeitada, compartilha a ansiedade. O coração bate depressa. Vem o choro. Vem a preocupação. Estou fazendo certo? Ele está pegando o peito direitinho? Está realmente saindo leite do peito?

Para o bebê, é tudo ou nada. Mamar é questão de vida ou morte. Fome, essa coisa que ele sente só agora, aqui fora. Ainda tem a lembrança daquela vida lá dentro da mãe: não respirava, não tinha frio, não tinha vazio. Fora é a enorme claridade, o ar que entra e sai do corpo, a barriga que pede leite. Mas não só leite. Acima de tudo, ele quer aquele corpo de volta, aquele corpo que não é mais seu. A mãe. Ele quer a mãe, quer olhos nos olhos, quer tocá-la, quer sentir a pele, a voz, o cheiro.

O bebê pede pra mamar quando você está almoçando, quando você precisa ir ao banheiro, quando o zelador toca a campainha, quando o carteiro está entregando um pacote pesado, quando você está dormindo. Quanto leite ele deve beber, por quanto tempo ele vai mamar? Essas perguntas não significam nada para o bebê, que não conhece tempo, que não conhece quantidade.

Há toda uma dimensão selvagem da amamentação que é simplesmente deixada de lado. Esquecemos que somos animais, que somos mamíferos… e que dar de mamar não se resume somente a alimentar.

A sensação da primeira sugada é estranha e ao mesmo tempo maravilhosa. Ao longo dos minutos de mamada, o corpo todo dói. Os braços segurando o bebê. As costas, sentada numa mesma posição minutos a fio. E os seios, é claro, delicados e ao mesmo tempo poderosos.

Eu olhava para o relógio e via as horas passarem. Meu corpo ali, sentado, com o Francisco nos braços.

Repetindo o que já disse, é uma entrega; e eu me entregava, de corpo e mente.

TÃO LOGO CHEGAMOS NA CASA DE PARTO [relato de parto, 3/3]

a parteira fez o exame de toque e surpresa: dilatação total! inacreditável, eu achava. Mas já? Eu queria entrar na banheira, cantar músicas, até dormir entre uma contração e outra, como tantas outras mulheres contam que fizeram. Que nada! Tudo o que eu tinha que fazer era pressão a cada contração. 

Imagine, o Marco nem tinha descarregado ainda a mala do carro. Quando ele volta já escuta a parteira chamando o resto da equipe: – Vem gente, vai nascer agora!

Escolhi ficar de quatro, nas contrações arqueava as costas (uma postura da ioga, eita como foram boas aquelas aulas). Deu sede, me trouxeram água, que eu tomava de canudinho. Ainda bem que logo de cara a parteira percebeu que não precisava de cardiotoco e me tirou aquela coisa da barriga que me poderia tirar a concentração.

Foram talvez quatro contrações, entre elas pude colocar a mão na região do períneo e sentir a cabeça do bebê prestes a sair. Segurava fortíssimo as mãos do Marco e ali eu realmente senti o que chamam de círculo de fogo. Eu gritava muito, com todas as minhas forças, dizia ao Marco: – tá queimando! Sentia também todo o corpo do bebê querendo sair, as mãos e os pés se mexendo ainda lá dentro, algo sem igual.

Entre uma contração e outra olhei pro lado e vi aqueles instrumentos cirúrgicos, me bateu o medo de as parteiras me fazerem uma episiotomia; gritei: — o que vocês vão fazer comigo?! Elas: — nada, é só fazer força, vai! Marco foi do outro lado ver o bebê nascer. Tão logo saiu, apenas apoiaram-no e  colocaram abaixo de mim, deitado na cama. Era uma coisa linda, de olhos bem grandes, braços abertos, suspirando e choramingando calminho, sob o sol amarelo que entrava pela janela.

Depois de olhar nos olhos daquela coisinha linda e pequena, que viveu dentro de mim até aquele momento, olhei pra baixo e vi: — Marco, é um menino!

Peguei-o nos braços, deitei na cama,  pequenino, molhado, com sangue. Fiz esse movimento com cuidado, pois o cordão umbilical era curto. Com o cordão já branco e vazio (isto é, depois que todo o sangue passou da placenta para o corpinho do bebê), o Marco fez o corte. Abraçava-o, aproximei-o do seio para tentar mamar. Não tinha leite ainda, nem colostro, ele não sugou tanto, mesmo assim foi um momento importante, a parteira instruiu como dar de mamar. A placenta saiu logo depois. Pudemos ver aquela outra metade do bebê, que o alimentou aquele tempo todo. Perdi bastante sangue, disseram as parteiras, mas não tive feridas grandes, somente um cortezinho perto do canal da uretra, coisa que não precisou de pontos… ufa! Algo que ajudou muito nisso foram as massagens no períneo, feitas  a partir da 34a semana da gestação. Altamente recomendável.

Assim Francisco nasceu — 14 de agosto de 2013, às 9h42 da manhã, com 2,5kg e 46 cm, depois de um trabalho de parto rápido e surpreendente! Foi lindo!

único registro fotográfico do parto; uma mãe muito feliz, um pai chorando de emoção e um filho vendo a luz do sol pela primeira vez
único registro fotográfico do parto: uma mãe muito feliz, um pai fotografando chorando de emoção e um filho vendo a luz do sol pela primeira vez

Mas todos esses dados — hora, peso, altura — só soubemos depois. Isso porque todas saíram da sala, somente nós três ficamos lá, nos conhecendo: uma hora juntos, a sós, Marco, Francisco e eu. Aos poucos a equipe voltou. Subi pro quarto, estava tremendo, morrendo de frio. Me enchi de roupas e deitei. Soube também que o Francisco estava com a temperatura corporal baixa, mas de resto estava tudo bem; apgar 9/10/10 e tudo em ordem.

O resto do dia dormimos muito, ele começou a mamar (falar sobre a amamentação rende longos textos!) e recebemos as primeiras visitas da família. Ficamos na casa de parto de quarta até sábado, quando voltamos pra casa.

*

Contando essa história a um amigo, ele logo perguntou: — você enfrentaria tudo isso tudo de novo, toda aquela dor? — É claro que sim! Não mudaria nada nessa história, nem mesmo se eu pudesse!

Entre a montanha russa, a escalada de uma montanha ou a maratona de que falavam, com que imagem fiquei da minha experiência? Pensei muito e ainda não sei dizer. É um pouco de tudo isso, e ao mesmo tempo diferente, que foge a qualquer comparação. Só sei que foi algo surpreendente, pela relativa rapidez (eu achava que iria durar horas e horas, ou até mais de um dia! menos de dez minutos depois de termos chegado na casa de parto, Francisco nasceu). Foi uma experiência que me deu muita força e coragem para viver todo o resto, ser mãe, acompanhar junto com o Marco o crescimento do Francisco. Algo, sobretudo, construído juntos, com muito amor e uma enorme felicidade de ter dado ao nosso filho um nascimento que respeitou o seu tempo, que respeitou o meu corpo e o seu corpo, os meus desejos e instintos. Que esse respeito e esse amor sejam o combustível, a luz e o calor para a nossa vida juntos, para a vida toda do Francisco.

*

Tantos clichês rodeiam a mulher grávida. Assim como há uma imagem arquetípica da mulher que oprime as mulheres reais, existe a mulher grávida arquetípica: aquela mulherzinha fragilizada com as mãos nas ancas e de pernas abertas, acima do peso, comendo tudo o que vê pela frente, com desejos de comidas estranhas, sob o poder de hormônios incontroláveis, correndo muitos riscos, com problemas de saúde aqui e ali. Sempre me percebi muito frágil: já fraturei tantos ossos, tive tantas alergias e problemas respiratórios, não consigo nem correr até a esquina. Mesmo antes de engravidar, tinha aqueles medos clássicos da gravidez: medo de hemorróidas, das varizes estourarem… enfim, medo de não dar conta. E não é que nada disso me aconteceu? Viajei, caminhei, subi escadarias, enfrentei frio e calor, fiz tudo o que meu corpo permitiu.

No começo da gravidez, li um texto da Ana Cristina Duarte que me tocou muito. Muito bem escrito, com uma postura aberta e sincera, mostrava a realidade de tantos nascimentos, controlados pelo relógio, pelos custos, pela manipulação e submissão do corpo da mulher. Disse a mim mesma: — não quero isso para mim, nem para o bebê.

Meses depois, consegui o que desejava; deixei medos e mitos de lado, disse muitos “nãos”, enfrentei médicos que me desacreditavam, fui contra o que pensava tanta gente ao redor, tomamos o Marco e eu a responsabilidade para nós e superamos uma história que infelizmente ainda se repete em tantas partes do mundo.

Nesse percurso de leituras e investigações, de pequenas lutas a cada dia, aprendi muito sobre mim mesma. Sou forte, posso —  bem aquela imagem da operária mostrando o muque e dizendo com o olhar implacável: we can do it! Descobri uma força que todas temos dentro de nós mas que muitas vezes vive calada. É essa coisa tão linda que eu desejo a todas as grávidas, a todos os bebês.

Não quero nunca esquecer a carinha do Francisco da primeira vez que o vi, seus olhinhos, o cheiro, o amor que a cada dia só cresce.
agradeço a  Jamila e Gabryelle; mesmo à distância, e de maneira bem sutil, elas me deram pequenas pistas que tive prazer em trilhar; obrigada a elas e a todas as pessoas com quem cruzamos nesses caminhos

“NÃO LEIA TANTO!”

eis a frase que ouvi algumas vezes durante a gravidez, de pessoas próximas, até mesmo durante a visita à maternidade. Como assim?! Não devo me informar sobre o momento que estou vivendo?

O argumento é que a informação pode atrapalhar. A pessoa ficaria angustiada em frente a muitas informações, com medo e receios.

Pois eu defendo justamente o contrário disso: conhecimento é poder! E poder é tudo o que uma gestante precisa para conduzir bem a sua experiência. Para ser protagonista de sua história, sem deixar nas mãos de outros aquilo que é dela e de seu bebê. Para ela dar espaço aos seus instintos, é preciso quebrar mitos.

A gestação, no meu caso, foi física, corporal, mas muito psicológica também. Meu corpo mudou, mas sobretudo mudei como pessoa. Grande parte dessa preparação aconteceu graças aos inúmeros livros e vídeos que pesquisei, todos os dias. Eu me emocionava sempre, chorando vendo vídeos e lendo relatos de partos, que já não sabia o que tocaria outras pessoas (do lado de fora da maternidade) e o que interessava somente às gestantes e mães.

Um belo dia, contava toda animada a um amigo sobre os vídeos de parto que estava assistindo, o quanto aquilo estava sendo esclarecedor pra mim. Como eu poderia me preparar para o parto sem saber como ele funciona?

Meu amigo reagiu um tanto cético. Foi uma conversa muito curta, por chat. Nos despedimos, era tarde, precisava dormir. Mas aquilo ficou na minha cabeça, martelando, martelando. Logo que acordei, escrevi um email a ele.

Esse email me foi muito útil. É bom quando a gente é levado a defender-se, apresentar seus argumentos. Convenci meu amigo do quanto era importante o que eu fazia. E, além de tudo, fiquei eu mesma mais determinada a prosseguir nas minhas investigações e pesquisas. Por conta disso, reproduzo esse email, logo abaixo. Espero que ele possa dar forças, inspirar e convencer mais e mais pessoas.

nao_leia_tanto_

Olá,
 
Ontem, precisava dormir e nossa conversa talvez tenha sido meio rápida e entrecortada, então por isso eu só queria tentar me fazer entender melhor sobre o que eu disse e você disse; como amigo, acho que cabe isso.
 
Não estou só vendo vídeos de parto, mas também lendo blogs, livros, conversando com pessoas pelo facebook e fazendo curso de ioga para gestantes. Talvez se eu estivesse em São Paulo, participaria de algum grupo de gestantes e doulas, onde ouviria relatos.  A internet é minha maneira de encontrar algum apoio, tão necessário nesse momento.
 
Já perguntei a algumas pessoas próximas sobre seus partos. Tem aquelas que simplesmente se recusam a contar, outras que contam por cima, outras que nem lembram mais. É o direito de cada um. São todas pessoas no seu direito de se preservar, de não contar, de esquecer. Mas se eu quero saber, tenho que procurar minhas fontes, ir atrás.
 
Você disse que “se fosse médico entenderia que se deve ver vídeos de parto”. Quem conduz um parto não é nem médico, nem parteira, nem doula, nem enfermeira. É a mãe e o bebê, mais ninguém: ela dilata, ele passa.
Vi isso ontem: o que significa obstetra? “aquele que observa”. Grandes problemas e tensões de parto acontecem porque a mãe não toma conhecimento de sua força, tem medo, encara o evento como um acontecimento médico. Relega a sua responsabilidade a essa autoridade — não por vontade própria, mas porque não foi preparada, informada, não recebeu o apoio que deveria. Uma mulher sem preparo não entende que ela pode se movimentar, fazer o que lhe der vontade, durante o trabalho de parto. 
 
Se tudo der certo não vamos ter o bebê no hospital, mas numa casa de parto. E isso muda muito, eu mesma antes não sabia o quanto. No mundo inteiro, abusam de cesáreas sem necessidade. 
 
Quero me munir de calma e força para esse novo momento da vida, que já começou. Não é só o meu racional que busco trabalhar. 
 
A gravidez muda muito uma pessoa, ela querendo ou não. Aceitar e compreender a linguagem do corpo, as náuseas, a falta de força, o ritmo que muda. Entender tudo isso depende de uma abertura, de uma falta de medo. Ou de saber encarar os medos. Mas circulam muitos outros medos, que são superficiais (medo da dor, da vagina alargar, do sexo com o marido depois do nascimento do bebê) frente ao que acontece numa pessoa.
 
Sei que não serei (ninguém é) uma mãe perfeita, nem quero ser. Quero poder me mostrar ao bebê como alguém que não é perfeito, mas que o ama. Quero aprender com esse momento. E me sinto muito feliz dos passos que estou dando. Me surpreendo todo dia com minhas descobertas — que não são somente da ordem objetiva. Estou descobrindo muito de mim mesma. Isso é o mais importante.
 
Beijos,
 
Ana Amelia