SHANTALA, DE FRÉDÉRICK LEBOYER

é um dos livros que mais me fizeram chorar. Lembro que li na cama, deitada, numa tarde de sol. Talvez fosse sábado. Devia estar no quinto mês de gestação. Emocionei-me além do que esperava.

Isso porque Leboyer — renomado obstetra francês, que mudou a percepção do parto, junto a Michel Odent e outros — não está somente explicando os passos da massagem para bebês que leva o nome de Shantala, moça indiana que ele encontra em Calcutá. O livro fala sobre a passagem dos bebês do meio uterino ao nosso mundo. Fala também da relação que podemos construir com os bebês: toques, abraços, afagos e carinhos conduzem mãe e bebê numa trajetória de mútuo autoconhecimento.

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O corpo do bebê, massageado, recebe conforto, tranquilidade e segurança. As mãos que massageiam aprendem a delicadeza e a força de que se constituem os bebês. Ambos dão e ambos recebem.

Como já adiantei em outro post, comecei a fazer massagens no Francisco desde as primeiras semanas. Mas nunca segui os passos da shantala rigorosamente; quando tentava, não funcionava. Interrompia porque o Francisco queria dormir ou mamar. No fim das contas, fazemos uma massagem nossa, seguindo nosso próprio ritmo.

O mais importante para nós foi seguir o princípio daquilo que a shantala transmite: contato pele a pele, reverência pelo bebê…

Leboyer fez um filme com Shantala e seu filho. Pela internet afora, é possível encontrar quem explique os movimentos da massagem. Pessoas oferecem cursos e oficinas também. Ainda assim, nada se compara à leitura da escrita muito rica e poética que Leboyer nos dá.

O COMECINHO DA GRAVIDEZ

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é aquele momento incerto: estou grávida? sim, não? é agora? será mesmo? Não tivemos pressa em fazer um teste. Sempre tive ciclo irregular. Meses antes, um ginecologista havia dito que, por conta disso, eu teria dificuldades em engravidar. Decidi não me preocupar com isso e deixei a natureza agir. Se fosse o caso, se não engravidasse, não teria filhos — simples assim.

Desde o começo do mês, quando a menstruação deveria chegar, sentia-me bem cansada. Preguiçosa, até. Parei com a atividade física, que fazia todas as manhãs durante o último ano (consistia em dançar “just dance” no video game, hihi). Perdi a vontade de tomar café — uma xicrinha sempre depois do almoço, não mais do que isso. Sobretudo, o que indicou algo diferente dentro de mim foi o crescimento dos seios. Antes de ir procurar um teste na farmácia, fui a uma loja comprar sutiãs novos.

Sentia também uma dor de cólica, como aquelas antes da menstruação. Elas se assemelham às dores que tive no final da gestação. Tem gente que diz, em tom de piada, que cólica é uma pré-dor de parto. Vejam só, isso é muito verdade; os acontecimentos do corpo feminino tem uma sutil conexão. Que coisa mais linda.

Umas três semanas depois do começo desses sintomas, resolvemos comprar aqueles testes que identificam o hormônio da gravidez pela urina. E não é que deu positivo?! No mesmo dia, já marcamos consulta na ginecologista.

Bateu aquela sensação: “mas já?! será que estou pronta? meu corpo vai dar conta de todas as mudanças que vem por aí?” Não imaginávamos que isso tudo aconteceria tão rápido. É a natureza, com seus tempos, momentos e ritmos.

Tem algo que eu faria diferente? Sim: se pudesse voltar atrás, eu teria procurado logo de início uma parteira, para fazer o acompanhamento com ela. O enfoque é todo diferente, os exames, as informações dadas. Quem sabe até uma doula.

Ao cansaço seguiu-se enjoo… coisa que eu conto em outro post!

VOCÊ QUER UM PARTO NORMAL?

deparei-me com essa pergunta logo no começo da gravidez. Minha resposta: quero. Já no relato de parto, falei de um texto da Ana Cristina Duarte, que colocava a maior dificuldade: a cultura da cesárea, predominante no sistema privado de saúde. Para quem se interessa pelo tema, recomendo ler todas as suas notas, publicadas no facebook. É um enorme apanhado de informação correta, embasada, bem escrita.

Muito importante: por mais que sejamos capazes de parir, a gravidez não é uma experiência obrigatória para toda e qualquer mulher. Há mulheres que não querem ser mães. Há mulheres que tentam e não conseguem. Há mulheres que engravidam de surpresa e não querem ter o bebê. Há mulheres que no imprevisto recebem o bebê com toda a felicidade do mundo. Há gente que se realiza como pai e mãe adotando uma criança. Da mesma forma, parir não é uma experiência absoluta e necessária para toda mulher.

Dentro de mim, eu sentia o desejo de parir. Eu quero viver isso! Não quero ser impedida de viver esse momento, de presenciar o nascimento de uma pessoa, meu/minha filhx.

ovonovo_-38O que eu fiz então? Li muito, vários livros, sites, blogs, pesquisei de todo jeito. Todo dia aprendia algo novo. Entrei em contato com pessoas que poderiam me ajudar, tirar dúvidas. Descobri que era possível meditar sobre a gravidez. Que sentir-me vulnerável poderia me dar uma força enorme. Que o parto é uma experiência da vida sexual feminina.

Mas, sobretudo, aprendi que há muitos mitos que cercam as indicações de cesárea: cordão enrolado no pescoço, falta de dilatação, bebê grande demais, bebê sentado, cesárea prévia, gravidez de gêmeos… Acompanhei e ouvi relatos de muitas mulheres que foram submetidas a cesárea por inúmeras razões, poucas delas realmente legítimas. Cesáreas salvam vidas? Sim, quando existe real indicação para isso.

Eu tive um bom pré-natal. A ginecologista compreendeu minhas escolhas. Inscrevi-me na casa de parto. O Francisco nasceu com 39 semanas, isto é, não precisei enfrentar o argumento de uma gravidez que estava “durando demais” (há gestações que duram 43 semanas, mas muitas mulheres não resistem ao apelo dos ginecologistas para dar um termo à gravidez antes disso, sob a alegação de sofrimento fetal). Comentava-se que o Francisco era pequeno demais. Nasceu com 2,5kg, super saudável. Consegui driblar o cerco de uma ginecologista de plantão (a minha estava de férias nas últimas semanas de gravidez), que quis me submeter a controles desnecessários (cardiotoco e ultrassom além do que a ginecologista havia prescrito, sem qualquer necessidade). Felizmente, vivi a experiência que quis para mim e para o Francisco. Até por isso, sinto-me como que num dever de compartilhar o que vivo, já que aprendi tanto com as experiências de outras pessoas.

Algumas mulheres, depois de uma primeira cesárea, fazem questão de viver um parto normal nas gestações seguintes. Como já falei acima, não é o caso de todas as mulheres. Mas cabe a qualquer uma delas a autonomia sobre seu próprio corpo e seus direitos reprodutivos. Relembremos que a violência obstétrica é uma dura realidade, que pode acontecer de tantas formas.

Poucos dias atrás, 1° de abril, Adelir Carmen Lemos de Goés, grávida e em trabalho de parto, foi levada à força para ser submetida a uma cesárea, contra a sua vontade. O caso está em repercussão: há posts no femmaterna, no cientista que virou mãe, em páginas no facebook como não me obrigue a fazer cesárea.

Por que o caso é tão importante? Porque privaram a mulher o direito de decidir sobre a via de parto. Impediram que o marido pudesse acompanhá-la. Argumentaram com informações sem fundamento (bebê sentado, gravidez de 42 semanas). Como veiculado pelo grupo Artemis, condicionar o direito da gestante de escolher o local de parto à eventual determinação do poder público, na prática, impede o exercício desses direitos da mulher e abrem caminho para uma interpretação equivocada de que qualquer nascimento dependeria da aprovação do Estado. A imposição da cirurgia cesariana se configura ainda VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA, a violência praticada contra a mulher no momento do parto.

Adelir, assim como eu, queria um parto normal. Ela tinha condições de parir; chegou aos 9 cm de dilatação, inclusive. Mas lhe foi tirado esse direito.

Entristeci-me muito com a experiência de Adelir, em sua terceira cesárea, indesejada. Acompanhando as notícias, os posts e a movimentação de ativistas em torno do caso, sinto alguma força: de que lutar, mesmo em pequena escala, pode valer a pena, pode mudar a nossa própria vida e de quem está ao nosso redor. De que sentir esperança é uma maneira de viver melhor cada dia.

UMA COLCHA DE QUADRADINHOS

foi um dos meus projetos no ano passado. Tinha retomado o tricô e o crochê logo que terminei o mestrado. Aproveitava qualquer tempinho livre. Procurei ajuda com uma amiga para relembrar coisas simples, alguns pontos. Pesquisando na internet, deparei-me com o nome em inglês dos quadradinhos que tanto aprecio: granny square. A partir daí foi fácil encontrar instruções de como tecer a colcha que queria. No lanas y ovillos há vídeos e diagramas explicando.

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Na 25 de março compramos lãs coloridas, seis cores e branco. Vários novelos da mesma cor, pelo menos uns 5, do mesmo lote, para não dar diferença de tons no trabalho final. Sobraram uns novelos, que usarei em outra colcha.

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Com seis cores, fiz 120 quadradinhos diferentes, cada um com uma combinação única. O branco foi usado no contorno, nas bordas e para unir os quadrados.

Devagarinho, em paralelo a outros trabalhos (fiz vários cachecóis e golas, tema de outros posts), levei de março a agosto para terminar. Testei, errei, desmanchei, refiz. Pensava muito no bebê que estava dentro de mim — para quem fiz a colcha. Hoje, ela fica perto dos brinquedos do Francisco.

Junto com o diário, a colcha ocupou o tempo da gestação e é hoje um tipo de lembrança daqueles meses. Como um presente para o futuro — ambos feitos à mão, com paciência, um pouquinho a cada dia.

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Meses atrás, fiz outra colcha, listrada, sobre a qual falarei em breve.

A CONSULTA DOS 4 MESES

do Francisco merece um relato. Nas anteriores, tudo correu bem; a pediatra tinha me felicitado por amamentar em livre demanda (o que ao meu ver deveria ser regra geral, mas enfim…). Por isso, voltamos lá aos 4 meses muito tranquilos. Procedimentos de rotina: pesar, medir. Francisco ainda bem nunca teve nada a assinalar, só uns dois resfriadinhos que passaram com o tempo.

Aí ela me mostra um gráfico: curvas de crescimento. A altura está na média, mas o peso, o pontinho, aparece mais abaixo. Ela pergunta se estou amamentando: sim. — Quantas vezes por dia? — Todas as vezes em que ele pede para mamar, inclusive de madrugada. A resposta desconcerta a médica: — Mas quantas vezes? Ah, ela quer um número. Não basta eu satisfazê-lo sempre… é preciso um número para preencher o prontuário. Arrisco: — Olha, mais que oito vezes ao dia.

Ela se vira do computador — claro, a maioria dos médicos hoje em dia olha mais para o computador, para os exames, gráficos, ultrassons do que para os pacientes e seus acompanhantes — e diz que preciso começar a medir a quantidade de leite que dou a ele. Devo pesá-lo antes e depois da mamada, para ver a diferença de peso. E — tchan tchan nanan — complementar com leite artificial. Mais uma vez, o mito de que o leite materno não é suficiente para atender ao que o bebê necessita.

A minha resposta, serena e firme: — Não, não farei essas coisas. Não concordo e pretendo seguir com amamentação exclusiva até os seis meses, ou mais, até ele começar a comer.

A médica arregala os olhos, enfurece: — Mas por quê?

Ao que eu argumento que a indústria de alimentos gera uma pressão enorme em torno de médicos, mães e pais a respeito da saúde e do peso do bebê. Que toda mãe, em ambiente tranquilo, tem a capacidade de amamentar e suprir as necessidades do bebê. Pesar, controlar, apenas atrapalhariam esse momento. O Francisco está absolutamente saudável, é simpático, ri, interage, se move. Não apresenta nenhuma razão para que eu mude o que quer que seja.

A consulta termina num clima estranho, a médica contrariada. Provavelmente não esperava minha reação. Saímos de lá perguntando para nós mesmos: — Quantas mães e pais contestam o que dizem os médicos? Quantas pessoas tem confiança naquilo que fazem?

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Voltando para casa, fui pesquisar sobre curvas de crescimento. As que a médica possui em seu consultório são diferentes daquelas que estão disponíveis no site da OMS.

Mas o que me salvou foi um maravilhoso texto do pediatra espanhol Carlos González, publicado nas Delícias do Dudu — vale muito a pena ler qualquer coisa que ele escreve, aliás; muita gente compartilha trechos dos livros dele pela internet, é só ir atrás. Caiu como uma luva: bebês que mamam no peito tem um crescimento diferenciado; aos 4 meses, mamam com mais velocidade. Era tudo o que estava acontecendo conosco.

Aliviada por encontrar algum tipo de apoio, mesmo que pela internet, ainda mais confiante, o que me restava era somente manter a calma, um ambiente confortável para nós, estar sempre de olho na pega, dar de mamar sempre que o Francisco pedir (ou que eu achar necessário). Isso é livre demanda, assim como o mesmo Carlos González define em outro texto seu; gosto tanto que vou me dar a liberdade de citar o trecho final aqui:

a livre demanda não é uma escravidão, mas sim uma liberação para a mãe. A maioria das vezes pode fazer o que quer o seu filho, de modo que o bebê está feliz e não chora e portanto, a mãe também está feliz e não chora. E de vez em quando pode fazer o que ela quer. A escravidão é o relógio.

ovonovo_-45Temos aprendido muito com o Francisco o quanto somos apegados a controlar o tempo, medir, prever… — escrevi inclusive um post sobre isso. O importante, em meio a tanta informação ao nosso redor, é escutar nosso coração, entrar em sintonia com ele.

Ainda continuo sobre o tema. Comecei já no post anterior, sobre as dificuldades que rondam a amamentação, a partir de casos que conhecemos. A seguir, pretendo falar das minhas dificuldades em particular.

VOCÊ QUER AMAMENTAR?

— Sim; foi sempre essa a minha resposta.

Ao longo da gravidez, informei-me bastante sobre amamentação. De toda forma, sinto que ainda não sei o suficiente. E por mais que tivesse lido estudos e guias, relatos, visto vídeos, acompanhado grupos de discussão, só depois, na pele, fui perceber o quanto um ato fundamentalmente instintitvo (somos mamíferos, não é mesmo?), que faz tão bem à criança e à mãe, é cercado de tanta dificuldade.

Pois sim: amamentar é difícil — mas cada pedra no caminho não supera a beleza, a conexão e o amor que envolvem esse ato. É triste constatar que a delicadeza da relação entre mãe e bebê pode ser rompida tão facilmente. Basta um momento de insegurança em relação ao leite materno, ao sono e ao peso do bebê; basta uma indicação médica errônea; basta um olhar enviesado de algum membro da família ou amigos; basta uma prateleira no supermercado repleta de mamadeiras e leites artificiais, com rótulos gentis… Em suma, a falta de informação e de apoio — frente ao forte apelo das indústrias de alimento — rompe todo um processo natural e importante para mães e bebês.

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Nada se compara ao olhar do bebê ao mamar no peito — olhar profundo esse que é também da mãe, observando seu bebê. Ambos silenciosos, ambos alimentando-se um do outro.

De maneira bem sucinta: o recomendado é amamentar exclusivamente e em livre demanda até que o bebê atinja os seis meses de idade. A partir daí, o leite materno continua sendo a principal fonte de alimento do bebê até um ano, período em que vai começando a comer outros alimentos. O desmame deveria acontecer a partir dos dois anos, em acordo entre o bebê e a mãe.

Ao visitar amigos com filhos pequenos, vez ou outra, Marco e eu perguntamos sobre como foi a amamentação. A partir das experiências que ouvimos, é possível desenhar algumas situações em que o desmame acontece de maneira precoce.

A mais drástica: o bebê não amamenta desde o início ou desmama nos primeiros meses. Conversando com a podóloga, ela disse que era uma exceção quando criava seus filhos pequenos, 20 anos atrás, na Grécia. 9 entre 10 mulheres deixavam de amamentar o mais rápido possível, para que pudessem voltar a fumar. Já haviam interrompido o hábito durante a gravidez, o que parecia muito tempo… Era moda fumar, e não dar de mamar. Pode-se dizer que esse tipo de caso não acontece somente na Grécia, tampouco se limita àquela época.

De maneia mais frequente, a substituição do leite materno por artificial acontece aos 4 meses, momento em que a mãe volta ao trabalho. A licença-maternidade é curta demais para que ela dedique-se ao bebê. O leite artificial mostra-se mais “prático”. Outras pessoas da família podem dar a mamadeira ao bebê. Ele bebe uma quantidade definida. O leite artificial é mais pesado, o que faz com que ele durma ininterruptamente durante a noite. Mas não se mede os prejuízos que toda essa praticidade traz ao bebê, aos seus vínculos afetivos com a mãe, ao seu aparelho digestivo ainda imaturo, ao seu ritmo de sono… Mesmo mães que ficam em casa com os filhos acabam largando a amamentação por conta dessas aparentes vantagens — algo semelhante às mães gregas de que falei acima.

Uma mãe que conhecemos resolveu dar mamadeira com leite artificial à filha para que ela tivesse mais liberdade: ela queria voltar a sair de noite com as amigas, ir ao cinema. A bebê tinha por volta de 5 meses… O que aconteceu? Ela começou a rejeitar o peito, quando a mãe oferecia seu leite. Beber na mamadeira oferece menos dificuldade do que sugar o seio (o movimento de sucção dos bebês no peito favorece toda a musculatura bucal, auxilia a fonação e o processo de fala, que acontecerá no futuro). Perderam as duas, mãe e filha. A mãe entristeceu-se, pois não havia se informado sobre a confusão de bicos e que oferecer mamadeira (e outros bicos artificiais, como chupeta) pode colocar em risco a amamentação. Ela gostaria de ter prolongado aquele momento tão singular que tinha com sua bebezinha.

Outra amiga também entristeceu-se muito ao perceber que seu filho estava demonstrando cada vez mais interesse pela mamadeira. Ele desmamou quando tinha pouco mais de 6 meses. Ela não precisava voltar ao trabalho, não sentia necessidade de sair sem o filho. O que houve dessa vez? A preocupação com a fome do bebê. Ele sempre pedia para mamar. Ela decidiu então dar o leite artificial como complemento, pensando que seu leite não fosse o suficiente.

Esse é um dos mitos que mais circulam: que o leite materno não satisfaz e não dá conta das necessidades do bebê. Fico imaginando se uma mãe gorila, morcega ou capivara vacile quanto ao seu próprio leite. Arrisco dizer que só mães humanas desconfiam de suas capacidades. As razões são inúmeras, um post é pouco para tratar disso.

O Francisco pede muito o meu peito. Não é somente por fome no sentido estrito. É fome de calor do meu corpo, do conforto dos meus braços, do acalanto das batidas do meu coração; é vontade do meu cheiro, do meu toque, de estar juntinho o tempo que for. Por isso, como disse acima, amamentar é uma relação — amorosa, sobretudo. Numa amizade ou num namoro, conta-se quanto tempo dura uma conversa no bar, as ligações telefônicas, quantos beijos e abraços foram trocados? Por que devo então contar quantos mililitros de leite meu bebê ingere, durante quantos minutos ele fica no peito? Por que achamos um exagero um bebê querer ficar junto do corpo de sua mãe, dormir com ela?

E, para terminar o post (mas sem dar o assunto por encerrado): por que uma experiência tão singular para todos nós — afinal, todos um dia fomos bebês — é abreviada e frustrada em muitos casos? Que consequências isso traz para a nossa formação e crescimento?

DIA 20 DE MARÇO

é um daqueles dias que eu gosto, porque é equinócio, mudança de estação (chega o outono no hemisfério sul, primavera no norte).

Ano passado, foi o dia que escolhi para começar meu diário de gravidez. Já tinha mais de três meses de gestação, estava enrolando um pouquinho para dar partida no diário. Aí veio a calhar o 20 de março.

Comprei um caderno de capa dura, médio, umas 150 páginas, brancas, sem pauta. Não há desenho na capa, que eu planejava decorar com recortes.

Há pessoas que fazem diários com folhas soltas, fichários, calendários ou agendas. Eu sempre fui fã de cadernos, mas já usei agenda como diário também. Tem um calendário pendurado na cozinha que serve de micro-diário, onde anotamos coisas rápidas do dia-a-dia. Aliás, sou uma “diarista” desde pequena; comecei meu primeiro diário aos 9 anos. No mestrado, acabei estudando um pouco sobre diários, mesmo que esse não tenha sido o tema central da pesquisa. Um dos artigos mais lindos que escrevi trata do diário de Helena Morley.

Voltando ao diário de gravidez, decidi pelo seguinte formato: escrevi nas páginas da direita. Na esquerda, colei fotos com a evolução da barriga, entradas de cinema ou concertos que fomos assistir, bilhetes de viagens, capas dos CDs que ouvíamos… até fotos das manifestações de junho entraram. Assim, o diário é metade escrito, metade ilustrado. A cada dia escrevia com uma cor diferente: azul, verde, laranja, marrom… como amo escrever à mão!

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Pode-se escrever um diário para si ou, como nesse caso, para uma outra pessoa. O diário que fiz é para o Francisco ler no futuro. Penso em presentear-lho quando fizer 14 anos. Até lá, fica guardado.

Parei de escrever um dia antes que ele nascesse! Desde então, está em repouso. Ainda penso em continuar, sobraram páginas em branco em quantidade para ir narrando seus primeiros anos conosco. Uma ideia é incorporar meus posts do blog: imprimir e colar; as fotos do instagram também. Quem sabe…

ANTES, EU ACHAVA QUE

ovonovo_-10— o Francisco dormiria no berço; mas Marco e eu, em pouco tempo, sentimos que era muito mais bonito que ele ficasse do nosso ladinho, na cama mesmo; foi a melhor mudança que fizemos (textos legais sobre cama compartilhada aqui e aqui; recomendações e cuidados, aqui)

— eu enrolaria o Francisco num cueiro, para ele dormir todo aconchegante e apertadinho, como no útero; mas, da primeira vez que eu tentei, ele reagiu com tanta força que deixei a ideia de lado (recomendo que se leia sobre exterogestação; faz todo o sentido e ajuda os bebês na transição dos primeiros meses: aqui, aqui e aqui).

ruído branco ajudaria a acalmar os momentos de mais desconforto; afinal, o barulho do sangue pulsando dentro de mim, que ele ouvia continuamemte antes de nascer, é um ruído branco; tentei algumas vezes e não vi um efeito que me fizesse adotar a prática; dormimos ouvindo música: Ayo, Mayra Andrade, Cesária Évora, Lambchop, Nick Drake, Balaké Sissoko, João Gilberto, Beck, qualquer coisa calma.

— o sling de argolas seria meu preferido; mas não me acostumei com a argola, a todo momento preciso ajustar e nunca fica bom; estou usando muito o pouch, tanto em casa como na rua (meus posts sobre slings aqui).

— usaríamos o balde para dar banho; no começo foi uma maravilha, mas o Francisco cresceu e não queria mais ficar lá dentro; faz uns meses o banho é de chuveiro mesmo: Marco o segura e eu vou lavando; ele ama.

— eu não daria de mamar na posição deitada, por receio de dormir e me movimentar; pois essa é a nossa posição preferida! e mesmo que eu durma, não me movo; dizem que é um instinto da mãe, coisa que eu acredito; é lindo, selvagem, ajuda a descansar, ideal para amamentar de madrugada; só é preciso controlar sempre que possível a pega — como sempre, aliás.

— eu faria shantala todo dia, seguindo todos os movimentos; mas, como Francisco não reagiu bem das primeiras vezes, eu faço uma massagem própria nossa, quase toda concentrada nos pés, o que ele prefere e curte. Ainda vou escrever um post sobre o livro “Shantala”, emocionante relato do Frédérick Leboyer, que recomendo muito. Um bom guia sobre shantala: aqui.

A lista poderia continuar. Há sempre algum plano, sonho ou ideia que muda totalmente no momento em que colocamos em prática. E não estaria no imprevisível a graça de ir vivendo e aprendendo sempre?

EU BEBO ÁGUA

parece ser a coisa mais corriqueira desse mundo. Todo mundo bebe água. Água é fundamental para a vida. Nosso corpo é feito, em grande parte, de água. Praticamente impensável que beber água possa fazer mal. Mas pode, quando se torna excessivo. Pois esse foi o meu caso.

Pouca gente conhece esse tipo de compulsão. Ninguém vem te falar: “olha, você está bebendo água demais”. Alguém pode te comentar se fuma demais, se bebe demais. Muito sutil dar-se conta de que um hábito que é visto como positivo, saudável, possa ser perigoso.

Eu já conhecia. Amélie Nothomb, em Biographie de la faim, conta justamente a potomania, anorexia e bulimia que ela e sua irmã tiveram. Dias atrás, relembrei quase que instantaneamente do nome desse desejo por água: potomania.

Não sei se posso ser enquadrada num caso assim, é provável. De qualquer maneira, demorou muito mas percebi que a água é um problema para mim, uma dependência. Estava na minha frente há anos e anos. Era uma garrafinha de água. Devia ser aquelas de 300 ml. Depois mudou para aquelas de 500 ml. Como eram mais baratas, comecei a comprar garrafas de 1,5 l. Com o tempo, comecei a ter uma garrafa perto da cama, na mesa do computador. Até no banheiro cheguei a deixar uma delas, para o caso de eu ter sede. Praticamente em cada canto da casa. E não somente uma, mas duas, três. Garrafas vazias também.

Porque eu tinha sede. Bastante sede. Ainda tenho. A boca e a garganta secas. Era por isso que eu bebia, oras. Se tenho sede, devo beber água. Para me hidratar. Para as toxinas. Para a saúde. Para o bebê na barriga. Para ter leite.

Saindo de casa, eu precisava de uma garrafa por perto, ou de um bebedouro. Pesquisando aqui no blog mesmo, achei um post em que falo dessa coisa de ir encher a garrafinha no bebedouro. Precisava também de banheiros à disposição, regularmente.

Faz uns dias, comecei a ter tonturas, a visão embaralhada. A barriga pesada. Pensei que era algo que eu tinha comido. Tenho digestão difícil, lenta. Já sofri de gastrite no passado. Bebi água para ajudar. Fui dormir mal, me sentindo estufada.

A mesma situação retornou depois de uns cinco dias, mais forte. Eu tinha fome mas sentia que não tinha espaço na barriga. Comi iogurte, frutas. Precisava de água. Em menos de uma hora dei conta de um litro. Mas durante o dia foi muito mais, não sei quanto. 20 litros, talvez? Bem possível. Além da água pura, no almoço preparei sopa e no café da manhã tinha tomado suco de laranja. Nem consigo imaginar a quantidade de líquido que tinha ingerido.

Muita tontura e fraqueza o dia todo. Dormir à noite não conseguia. A barriga estufou, como se seu estivesse grávida, mais para cima. Vomitei bastante, água principalmente.

Quem já me alertava, muito carinhosamente, era o marido. Eu não dava importância, dizia que eu precisava. Levantava o argumento da sede. Nesse momento em que já não cabia mais água em mim, toda inchada, aceitei. Eu bebo água demais. Foi um grande passo.

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E vieram muitas e muitas ideias pela cabeça, junto àquela fraqueza. Antes de cair no sono, relembrei muitos fatos. Que já dez anos atrás, quando trabalhava em biblioteca, tinha uma garrafinha do lado do computador. Aquele hábito saudável. Um chefe me repreendeu um dia, dizendo: — Assim você acaba com os nossos galões de água! — Mas como era uma pessoa que sempre me fazia críticas infundadas, que me perseguia, eu não liguei.

Já dando aulas, lembro que durante o intervalo eu enchia e terminava já no mesmo instante com uma garrafa de 500ml; reabastecia com mais 500ml para ir tomando durante o curso. Hoje em dia, quando passeio, preciso sempre levar uma garrafa de 1,5 l. Se é longo, são duas. Fui associando momentos e hábitos. Em quase todos esses momentos, muito comum que eu bebesse água muito rápido e em grande quantidade. E que eu precisasse muito ir ao banheiro.

Inúmeras coisas passaram pela cabeça: sonhos, livros, filmes, desenhos, letras de músicas. Recordações as mais diversas.

Dormi e a partir daquele dia mudei um hábito. Em vez de beber água direto da garrafa, sem me dar conta se ingeria 200, 300 ou 500 ml, estou com uma xícara de chá. Não medi, mas deve ter uns 200ml no máximo. Coloco água ali e vou dando golinhos.

Sede? Ainda tenho, muita, sempre. Mas desde aquele momento lá, em que me dei conta, sinto a sede e espero. Espero. Tudo seco. Depois de um tempo essa sede passa, simplesmente, sem água nem nada, só esperando mesmo. Tendo paciência.

Pesei-me nesses dias, a cada manhã, ao acordar. No espaço de dois dias, em que descobri o excesso de água e o seguinte, foram 3kg a menos. Muito certamente era água que eu tinha acumulada no corpo, porque depois dessa perda meu peso se estabilizou.

Não sei a partir de quando o consumo de água tornou-se exagerado. Somente depois de sentir-me mal fui pesquisar: beber 6 litros ao dia e urinar 2,5l  é o máximo recomendado. Fico imaginando quantas vezes tive uma indigestão ou um cansaço devido o excesso de água no corpo. Vai saber o que posso ter feito mal a mim mesma, à minha saúde, fazendo algo que acreditava ser bom.

Como sabem pelo blog, estou amamentando. Imagine viver isso numa época em que se está nutrindo um bebê… Como muita coisa não é por acaso, eu devo essa descoberta à maternidade. Sou muito grata ao Marco e ao Francisco por me fazerem ver essa parte de mim que eu desconhecia, mesmo estando à minha frente, ao meu lado — há muitos anos, mesmo antes de conhecê-lo, de ter chegado entre nós. Lendo A maternidade e o encontro com a própria sombra, livro que eu indico fortemente a quem esteja esperando bebê ou já tenha crianças, pode-se entender mais do que estou falando (há uns trechos aqui).

Escrevo esse relato — que acredito terá seguimentos, outros posts virão sobre o tema — também como um alerta. Pelo que pesquisei, um consumo que supere 10 litros diários pode causar intoxicação. Um post aqui, e outro em francês, trata desse assunto de maneira simples. Ainda procurarei mais sobre o assunto.

Posso dizer que mudei, em alguns dias? Deve ser aquele sistema: um dia depois do outro, um dia de cada vez. Já comecei antes umas terapias, mês passado. Vou incluir essa variável entre os elementos a tratar. Escrever é muito terapêutico para mim, sempre foi. Ler também. E fazer crochê é uma grande diversão. Acima de tudo, mergulhar na vida com um bebê, com tudo de delicioso e duro que isso comporta, é o mais importante para mim agora. A delícia supera em muito, com a sensação de poder se renovar a cada dia.

CROCHÊ E TRICÔ

aprendi pequena, com a minha avó. Pelo que lembro, fui motivada pela curiosidade em fazer também o que ela e a minha tia faziam com aquelas agulhas. Sempre tínhamos uma blusa, pares de meias, casacos, coletes, cachecóis, feitos em casa.  E vovó costurava, inclusive. Comprava-se tecidos e ela fazia vestidos, saias, lençóis, tanta coisa! Até hoje não aprendi a costurar à máquina, quem sabe um dia. É um daqueles sonhos futuros.

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Nos últimos anos, de toda forma, voltei ao interesse pelo crochê e pelo tricô — mais pelo primeiro. Um ano atrás, no começo da gravidez, me veio a vontade de fazer uma colcha de crochê para o bebê que estava a caminho (não sabíamos que era o Francisco, falo sobre isso neste post). Mas falarei mais sobre essa colcha em breve.

Ao longo de alguns meses, publicava fotos do processo da colcha, e eis que surgem pessoas pedindo dicas de como fazer, como aprender. Pelo que eu lembro, minha avó não fazia colchas de quadradinhos como aquela que fiz. A ideia veio fuçando aleatoriamente trabalhos de crochê no flickr:  jogando na busca a palavra knitting (tradução em inglês para tricô) ou crochê e vendo os resultados — com certeza vai aparecer algo que dá vontade de fazer. É possível pesquisar do mesmo jeito no pinterest.

Depois, foi muito bom assistir vídeos: tem inúmeros no youtube — pelo menos é assim que consigo aprender. Há também as explicações por escrito e os diagramas. Depende da maneira como cada pessoa aprende com mais facilidade.

Alguns sites bons que visito com frequência:

Há também uma rede social de tricoteiras: ravelry. Tenho meu cadastro lá mas não postei nada, entro bem pouco. Lá pessoas postam projetos e padrões; vale criar um perfil e olhar o que as pessoas fazem.

Até agora, estou no básico, fazendo mantas, polainas e cachecóis, coisas bem elementares. Aos poucos, sem pressa, vou testando, errando e desmanchando muito!