RECEBI UMA MENSAGEM

pelo celular, de uma colega de trabalho que voltava da Europa para morar aqui em São Paulo: “caso eu passe mal na rua, corro risco de morte; peço que me leve a um centro especializado, etc. etc.”. Ela tinha uma doença grave que poderia causar uma morte fulminante.

Não conheço direito essa colega. Aos poucos foram chegando informações: ela tinha nascido em Campo Grande-MS, os pais como sabia eram europeus, ela tinha vivido em várias cidades pelo Brasil. Por que estaria voltando para o Brasil, se estava bem em Paris? Como ela tinha meu número de celular?

Um dia no metrô recebo uma mensagem dela: “estou quase morrendo, na estação do metrô…” O texto, interrompido, poderia mostrar que ela estava já num estado muito grave. Por acaso estou numa estação de metrô. Saio desesperada, indo para todos os lados, tentando saber em que estação ela estaria.

Na rua, corro entre os carros, bondes e motos; escapo por pouco de algum me pegar.

ESCOLHENDO FRIGIDEIRAS

me lembrei de um sonho recente: estava fritando ovo. Era ovo frito pra quem não gosta de ovo: eu. E eu sabia fritar ovo muito bem. O ovo caiu na frigideira e se acomodou ali sozinho; a parte de baixo ficando dura eu virei e a gema ficou, depois de um tempinho, com uma casa crocante, marronzinha. Parecia bom.

Mais alguém assistia a toda essa cena inédita, mas que me lembrava a infância, porque quando pequena eu ao menos comia gema mole com pão francês. E acho que pedia para mim fazer outro ovo frito.

ERA O COMEÇO

de uma aula, da graduação. Eu queria assistir como ouvinte. A sala em tons muito escuros, em alto contraste, de cinza e amarelo. A professora não parecia ela, mas uma reunião de professoras que eu conheço. Ela hesitava em falar. Os alunos pareciam todos vestidos de preto, mas um preto úmido (talvez como no começo de ‘Retrato do artista quando jovem’). E nos meus óculos tinham passado vicky vaporub.

Um colega começa a falar e eu vejo que ele colocou os cabelos no lugar da barba. A cabeça meio raspada. Fico com vergonha dele e da minha presença lá. Resolvo sair rápido.

Chego na seção de alunos, a funcionária está sentada no chão, sujeira e areia. Uns insetos rodopiam. São joaninhas de várias espécies e tamanhos. As maiores estão comendo as menores. Menores ainda são uns pulgões (agora me lembro que no livro de ciências as joaninhas comiam pulgões, tinha uma foto), e menores ainda talvez fossem ácaros.

Aparece um cara que trabalhou comigo, que cuidava da eletricidade. Fico pensando porque até hoje ele estaria solteiro; mas uma moça iria aparecer na vida dele; digo isso pra mim mesma enquanto ele vai embora de carro, para a casa dele, que fica num bairro tranquilo, muito longe e fora de mão.

CASA EM DEMOLIÇÃO

como várias que vem sendo demolidas. Era um conjunto de casas geminadas, o mais antigo que poderia ser. Uma família morava numa dessas casas, e precisava continuar ali mesmo com a demolição já começada. Quase tudo arrancado da estrutura, os fios aparentes, só uns colchonetes para dormir. Havia água?
Durante o dia, os moradores vendo os caminhões levando peças e entulho. À noite, a incerteza do sono. Alguns bichos, antes escondidos, já queriam mostrar a presença, dando mais medo à menininha.

O VESTIDO NOVO

tinha mudado de cor. Comprei um vestido cinza claro na feira de roupas em Palmas. Bonitinho, de botões prateados, como as das meninas em dia de festa. Então usei no dia do meu aniversário, para ser uma menina também.

No sonho que eu tive, meu vestido, de cinza, cor que gosto por combinar com quase tudo, inclusive com outros cinzas, tinha mudado de cor. Mais precisamente: ele, depois da primeira lavagem, virou cor de vinho. Ainda guardava algo mais clarinho, umas flores amarelas aqui e ali.

Essa passagem de cor parecia, no sonho, algo esperado, parte de uma coisa costumeira, a mudança de cor de um vestido que se usa no dia do aniversário. Como uma folha de papel que permite que se use cores nela, que ela mude com a tinta que recebe e absorve.

ESTANTES CHEIAS

demais. Sonho recorrente, da última semana.

Ou são muitos dvds, grande parte que eu não assisti, em dois lugares. Não há espaço para deixar todos juntos. Como separá-los, sob que critério? Fico arrumando de duas ou três maneiras, não há conclusão.

Sempre nesses sonhos com livros, cadernos ou livros, todos parecem maravilhosos. Tanto as capas são coloridas, convidativas para o mundo que eles guardam silenciosos.

As capas coloridas dos livros à minha direita também não cabiam no espaço que lhes era reservado. Isso foi o sonho de ontem pra hoje. Como costumo fazer em outra estante, faço duas fileiras de livros. Só que no caso do sonho eram (mais) DVDs que ficavam na fileira de trás, escondidos. Maravilhosos também, segredos que eu deixo lacrados para mim mesma, aquela do futuro que receberá presentes e realizará seus desejos.

BEBÊS FALAM

nos sonhos de muitas pessoas, me disse o Sérgio quando contava que tinha um deles que falava num meu. Ele era pequeno, filho sabe-se lá de quem. De todo mundo e de ninguém. A família toda, numerosa, se espalhava pelos cômodos da casa. Talvez a casa fosse grande (mas não chique) porque aqui fui num tipo de “casa cor”, na futura casa do governador Gaguim.

Fora isso, vida de poucos sonhos marcantes, por ter dormido pouco todos os dias, e dias sem dormir nada mesmo. Madrugada de sábado para domingo passei entre o sono e o despertar, calor, ar condicionado fazia muito barulho.

Os dias já são amarelos e azuis, ritmados pelos jogos da copa.

Os fins de tarde, céu que é uma redenção.

UMA NOVA MOEDA

de 25 centavos apareceu. Entrou em circulação. Ela era redondinha, gordinha, amarela, da cor da estrelinha (do Super Mario ou a “estrelinha mágica” da Turma da Mônica). Bom, justamente no jogo do Mario há moedinhas pelo caminho, assim como no Donkey Kong deveríamos ir pegando todas as bananas que apareceriam.

Com ela, era possível tirar dinheiro dos telefones públicos. Bastava colocar (meio escondidos nos orelhões dava para descobrir um buraco para essa moeda) e saía dinheiro. Moedas de todos os valores. Estávamos na usp e a gente ia atrás de todos os orelhões tirar dinheiro que estava ali escondido, como um tesouro que piratas poderiam ter deixado para o futuro.

Lembrei agora que esse sistema se assemelha muito a um brinquedo que eu tinha, o Boca Rica. As moedas, a gente colocava e não sabia quando a portinha se abriria liberando tudo o que ele guardava.

MEU CPF PERDIDO

ou talvez o cpf de todo mundo tenha sido cancelado.

Sei que eu pelo menos deveria fazer um novo cpf. Fomos todos a um tipo de poupa-tempo. Uma sala onde senhores distribuíam, com um critério desconhecido, senhas. Uma hora um senhor dizia: – Só para os homens. Depois: – Só para as mocinhas!… Aflita, fiquei atrás de um senhor que decidiu me entregar a senha, que já era uma ficha para preencher.

Todo mundo acabou conseguindo a sua ficha.

Fui num balcãozinho preencher meus dados. A caneta que eu tinha era vermelha, uma bic comum. O número do meu cpf, eu tinha esquecido, e no sonho ele foi me aparecendo diferente do que ele é na realidade. Mesmo assim, fui preenchendo com esse número estranho, que me ludibriava.

Ele mudava, se esquivava. Eu rasurava a ficha, que ficava amassada, com dobras fortes.

Na hora de assinar, eu fiz o movimento de mão habitual e a assinatura saiu muito diferente. Fiquei aterrada, preocupada. E agora, com essa assinatura diferente, como é que eu vou apresentar essa ficha?

Como terei duas assinaturas diferentes? E se descobrirem, compararem?

Um amigo chega meio bravo e apressado, dizendo que ele mesmo tinha conseguido o cpf novo, depois de pegar uma fila. Eu ainda tinha que apresentar a ficha. Estava atrasada.

As pessoas estavam impacientes, não queriam ficar me esperando, enquanto eu hesitava sobre essas novas informações que apareciam a meu respeito.

DURANTE A PROJEÇÃO

de Viajo porque preciso, volto porque te amo, me veio o sonho que eu tive, talvez hoje mesmo, talvez poucos dias atrás. Eu já sabia, hoje de manhã me lembrei, que eu sonhei que era preciso regar as plantas. Eu regava, via a água entrar por meio da terra, os vasos transparentes me mostravam o caminho da água. Também sonhei com um banho de chuveiro que me desagradou. Muita água para me dizer que eu estava com a garganta muito seca, de respirar pela boca. O nariz entupido. Mas isso tudo não foi durante o filme.

Em meio às estradas do nordeste de Viajo…, me veio que eu sonhei com Bye Bye Brasil, que eu não assisti, ou se assisti não lembro.

Vi no filme o que posso estar vendo em outros lugares: um álbum, feito de recortes e vozes perdidas. Destoa quando o tom muda: quando a música não é mais do rádio do carro, quando a narração vira entrevista. E recortes de um diário, como preparação de outra coisa – dos filmes de Karim Aïnouz e de Marcelo Gomes. Preparação que vemos depois dos filmes que se seguiram essa viagem, essa coleta de imagens e visitação de um imaginário.

Na volta para casa fiquei puxando a história do meu sobrenome. E descobri que talvez ele tenha vindo do nada.