A RUA PAIM FICOU

sem mais algumas casinhas, demolidas nesses últimos dias, onde anos atrás funcionavam a cantina Posilippo, uma loja de jornais e produtos de papelaria, artigos para construção, marcenaria.

A rua Paim que se vê pelo Google street view já é muito diferente da que passo todos os dias. As imagens que captaram são de antes da copa, que fotografei. Mais algumas casinhas serão em breve demolidas, já com portas e janelas fechadas por blocos de concreto. A árvore da calçada vai continuar ali?


Talvez o problema nisso tudo seja a minha dificuldade de imaginar a rua com os prédios que nos anunciam.

O CANDIDATO A DEPUTADO

estadual tinha uma família simpática: a esposa, um filho, uma filha; talvez cachorro. Ele chamou a Karen e eu para conversarmos em seu apartamento. Não podíamos ficar muito, porque a gente tinha combinado de sair com a Maíra. Comemos hambúrguer, feito naquelas grelhas que deixam escorrer a gordura. A família nos acompanhou até a porta da rua. Lá o filho se mostrou um pouco rebelde, problemático demais – percebemos que havia algo de muito estranho na família. O menino pegava um molho de chaves e queria jogar para dentro de um carro.

Acordei com o celular, Maíra me chamando para sair. A Karen ligou o filho-problema-do-deputado ao filho do José Costa, personagem principal de Budapeste. Terminei de ver um filme e só pude voltar a dormir.

ERA NA ÉPOCA DA ESCOLA

e estávamos organizando aqueles campeonatos de futebol, dos quais eu nunca participei; no sonho eu fazia parte da equipe de apoio ao jogadores, nos primeiros socorros. Entre os colegas que realmente jogavam bem (um deles até realmente virou jogador, foi jogar na Grécia…), estava o Neymar – ele mesmo. O jogo começa, ele passa mal, fica desacordado. Levo para o vestiário e eu o jogo numa banheira cheia de água (isso lembra o filme a Origem), e assim no susto ele acorda e continua a partida.

Outro sonho: pessoas visitavam meu prédio e eu redescobria algo interessante nele: um fosso que percorria os apartamentos, todos os andares. Não muito grande, ficava num canto da sala. As pessoas aproveitavam para colocar prateleiras com livros, cds, dvds. Eu usava o fosso para subir para o meu apartamento. Era um perigo de vida, cansativo, mas era gostoso ir subindo por dentro das casas dos meus vizinhos. Às vezes os filmes nas outras estantes lembravam coisas minhas do passado. Aos visitantes, no térreo, eu explicava esse sistema tão estranho. Meu pai me chamava de lá do alto.

DOS DISCOS DAS MANHÃS

de sábado e domingo, alto na vitrola, esse ocupa um lugar central. Era daqueles que agradava tanto meu pai, como minha avó. E a mim, essa capa preta, o traço branco, o olhar tranquilo e ao mesmo tempo inquieto, sentada na cadeira de vime que poderia estar no nosso quintal. Devia saber que era uma cantora já morta, meio mito. As cordas (e ela não tinha anos antes manifestado contra a guitarra elétrica? – me pergunto agora) pareciam levar a cantora para o espaço, num céu sem estrelas, como a capa preta do disco, em meio às manhãs de sol dos finais de semana  – cantando “sou caipira pirapora” com o sino do trem saindo do túnel.

AVIÕES CAINDO

um atrás do outro. Estávamos na rua e todos os aviões no ar perdiam controle e iam caindo. Horrível vê-los se espatifando em cima de casas, no meio da rua, o barulho de desespero geral. Na televisão, que víamos num bar, o noticiário falando sobre isso. Perguntamos às pessoas o que tinha acontecido. Disseram que os aviões tinham “perdido os nós”. Decidi acordar.

Depois eu tinha que brigar com um cara grande, um armário. Estávamos discutindo, em casa (mas era na Praia Grande), sobre um serviço que ele tinha feito e como pagaríamos. Dei 200 reais em dinheiro. Exigimos o recibo. Ele nos enrolou e não deu. Fiquei com vontade de dar-lhe uns golpes de kung fu, mas ainda sabia pouquinho. E além disso, o kung fu não serviria pra isso. Mesmo assim fiquei treinando uns movimentos.

FUI VIAJAR

senecio, paul klee

talvez tenha largado tudo, ou talvez as férias já tivessem chegado. Sei que cheguei na cidade cheia de sol, sem mar, só terra seca, uma casinha nova para visitar. Uma senhora de cabelos brancos olhou para mim e disse: – ahn, então é você? – sim! Era só o que eu sabia responder, era como se não falássemos a mesma língua.

E não falava a mesma língua de meu anfitrião, um sotaque forte que escondia toda uma distância que não sabíamos como diminuir. Muita conversa de silêncios. Ele me mostrou as fotos de Akemi, menino com nome de mulher em japonês. Ele dizia que eu tinha conhecido Akemi na viagem anterior. Não lembrava.

Sentamos na calçada da rua calma de sua casa, olhando o céu e o sol, sem fazer nada. Uma televisão ao longe. Eu  via meu anfitrião como um retrato cubista, seu nariz parecia sua orelha, os cabelos uma parte da barba.

Em outro sonho eu era uma camareira de hotel que acaba se tornando próxima de um cantor de rock meio desconhecido. A porta do quarto tinha uma chave como tramela. O cantor de rock adorava conversar com todo mundo. Era como se fosse um Heath Ledger velho, como se ele não tivesse morrido e se tornado cantor barato. Lembrávamos daquele filme em que ele foi cavaleiro medieval, que eu não vi.

CASA EM DEMOLIÇÃO

como várias que vem sendo demolidas. Era um conjunto de casas geminadas, o mais antigo que poderia ser. Uma família morava numa dessas casas, e precisava continuar ali mesmo com a demolição já começada. Quase tudo arrancado da estrutura, os fios aparentes, só uns colchonetes para dormir. Havia água?
Durante o dia, os moradores vendo os caminhões levando peças e entulho. À noite, a incerteza do sono. Alguns bichos, antes escondidos, já queriam mostrar a presença, dando mais medo à menininha.

BEBÊS FALAM

nos sonhos de muitas pessoas, me disse o Sérgio quando contava que tinha um deles que falava num meu. Ele era pequeno, filho sabe-se lá de quem. De todo mundo e de ninguém. A família toda, numerosa, se espalhava pelos cômodos da casa. Talvez a casa fosse grande (mas não chique) porque aqui fui num tipo de “casa cor”, na futura casa do governador Gaguim.

Fora isso, vida de poucos sonhos marcantes, por ter dormido pouco todos os dias, e dias sem dormir nada mesmo. Madrugada de sábado para domingo passei entre o sono e o despertar, calor, ar condicionado fazia muito barulho.

Os dias já são amarelos e azuis, ritmados pelos jogos da copa.

Os fins de tarde, céu que é uma redenção.