SE VOCÊ ESCREVE

– é porque sente falta de algo e acredita que, escrevendo, as linhas se acumulando, essa falta fica escondida entre as letras. Elas te serviriam como uma defesa: você gostaria de ser protegido pelas suas palavras.

– você precisa escutar com generosidade o que as tuas palavras te dizem; e esse esforço nunca será suficiente.

– é porque viu algo escrito antes de você, coisa do mundo que você quer para si também, você sabe; e o mundo não é você, nem eu. Não passamos de um acidente, peças do acaso; o mundo continua a girar, escrevendo ou não.

O QUE É DRAGUER?

Verbo em francês, que veio do inglês to drag, no século 17. É primeiro equivalente a dragar, em português: retirar resíduos do rio, de canais, do mar – com um instrumento, rede, embarcação.

O sentido do verbo, seja em inglês, francês ou português, derivou ao longo do tempo. Entre eles há alguma relação, curiosa. No inglês drag, gíria londrina, seria “roupa feminina usada por homem”, as saias longas que se arrastam pelo chão como uma draga; no teatro, os papéis femininos feitos por homens vinham acompanhados da sigla drag para dressed as a girl; dessa mistura de explicações teríamos desde o começo do século 20 drag queen, depois drag king.

Em português draga pode ser uma pessoa que come muito, um carro velho, um revólver.

Em francês, draguer ganhou o sentido de procurar, coletar, buscar, em uso no vocabulário militar. A partir da década de 1960, draguer é procurar aventuras amorosas, paquerar. Para paquera não encontrei muitas informações, só que viria de paqueiro, cão caçador. Já com xaveco, gíria que descobri ser muito local (só em São Paulo?), interessante, voltamos ao vocabulário marítimo: é um tipo de embarcação mourisca; viria do árabe enredar, entrelaçar.

COM UMA LETRA, B

logo que aprendi a ler, tinha muita dificuldade para diferenciar um b de um d minúsculos. b d d b b d , as barriguinhas pra esquerda ou pra direita?

posso fazer uma lista de músicas para tocar: Beatles, Brian Eno, Beck, Babet, Bénabar, Bidê ou balde, Bebel Gilberto, Björk, Baby Consuelo, Baden Powell, Barbara, Billie Holiday, Bazar Pamplona, Beach boys, Brigitte Bardot, Babylon Circus, Bowie, Beirut, Belle and Sebastian, Bruce Springsteen, Bezerra da Silva, Blur, Brian Ferry, Brisa Roché, Blossom Dearie, Beastie boys. Pego pra ler Barthes, Beckett, Benveniste, Bakhtin, Blanchot, Bachelard, Borges, a bíblia – e Balzac. Faço batata frita, bolo, brigadeiro e preparo uma batida.

DUAS, TRÊS

ou quatro coisas:

1) Eu não conheço tudo, nem do que eu gosto: não domino as obras completas, nem filmografia do início ao fim, nem todas as letras das músicas. Mesmo duas temporadas de um seriado eu não vejo até o fim para guardar um pouco de desconhecido.

2) Percebo que não escuto direito o que as pessoas me dizem: uma história, uma informação. Ou demonstro que não escuto, mas guardo. E a coisa reaparece de repente, mesmo sem eu ter dado muita atenção, ou ter sido muito discreta. A coisa chega até mim.

3) Adoro me dispersar. Criar muitos planos, organizar as obrigações e me divertir de pegar um caminho inesperado.

4) Acho que consigo realizar meus desejos. Faço um, fico em silêncio, respiro fundo. Pouco tempo depois a coisa acontece, simples. Não são grandes desejos. São como as tardes do começo de inverno, laranjas no céu.