NÃO LEIA A ORELHA

de Cicatrizes, de David Small. Não leia nenhum texto que você pode encontrar por aí, releases frustrantes e repetitivos, cópias uns dos outros – spoilers!

Só a palavra do título, capa e a réstia de luz bastam para você entrar.

Não folheie o livro antes de começar, disciplinado, pela primeira página, seguindo uma a uma as sequências da infância do menino que desenha. Não pergunte nada, não diga nada. Vá.

ME AGRADAVA REPETIR

coisas pequenas no dia a dia: sentar-me sempre no mesmo lugar da mesa para comer, usar a mesma colher para mexer o chá mate, comer o mesmo lanche no recreio, no mesmo lugar do pátio; manter fixas na semana as datas de devolução dos livros na biblioteca; numa mesma ordem pentear o cabelo, escovar os dentes  e tomar banho; organizar na mochila os livros e cadernos para cima, os livros atrás, cadernos à frente; as cores os lápis e canetas no estojo; tomar o metrô no mesmo vagão, escolher, se livre, o mesmo banco.

Ainda continuam certas coisas assim, que percebo se elas mudaram de lugar.

HOJE NADJA DISSE

– você vai me ler. – tá bem, eu disse; tirei-a da estante.

Anos já eu olho para essa capa:

E fui de mãos dadas com ela que, como a André, me deixou uma pequena certeza: todos os livros devem ser como Nadja. Uma porta, um passeio entre pequenas e ricas coincidências: outubro, mãos e luvas, encontros marcados que não acontecem, acasos e enigmas que se acumulam. 10 de outubro Nadja disse a André: “tudo enfraquece, tudo desaparece. De nós alguma coisa deve permanecer”. Como, se mesmo a cidade já mudou de paisagem?

Não sou eu quem vai meditar sobre o que advém da “forma de uma cidade”, nem mesmo da verdadeira cidade, alheia e abstrata, daquela em que moro, por força de um elemento que seria para a minha mente o que o ar é para a vida. Sem nenhum arrependimento, agora a vejo tornar-se diferente e até fugir. Resvala, se incendeia, afunda no redemoinho de suas barricadas, no sonho das cortinas de seus quartos, onde um homem e uma mulher continuarão a se amar indiferentes.

Assim, num livro, as histórias não se apagam; são apenas outros começos.

UMA OUTRA VONTADE

foi ter guardado a foto desse livro:

era leitura da faculdade, peça de Beaumarchais (ou O barbeiro de Sevilha ou As bodas de Fígaro, ou as duas, visto que uma é continuação da outra). O que a foto diz do enredo? Não sei mais, sei lá se eu sabia na época. A data da foto, diz aqui, é 15 de junho de 2006. Ficou só ela, tirada mais ou menos na mesma posição em que me encontro agora enquanto escrevo.

DE REPENTE ME VEJO

numa livraria, com amigos. Cada um fui para um canto, o lugar grande de cor de madeira escura. Por acaso me deparo com o livro que tanto preciso para minha pesquisa: nele vou encontrar um rumo. É uma edição especial, formato grande, capa dura, mais de 500 páginas, com ilustrações em alta definição. Um detalhe: a encadernação está quebrada. Uma anotação a lápis na primeira página: desconto de 71,38%. Difícil entender se o preço final seria $ 31,87. Levo o livro ao caixa, mostro aos amigos. O moço do caixa não consegue me dizer o preço final. Não percebo que ele e meus amigos estão tirando as ilustrações do livro.

Finalmente: levei ou não o livro comigo? Não sei.

FOLHEANDO UM LIVRO

percebi aquele alarme metálico que todos os livros das livrarias têm, um pouco diferentes dos alarmes magnéticos das bibliotecas – e semelhante aos alarmes de qualquer outro produto, da farmácia, da loja de departamentos, disfarçado de código de barras. Um elemento que não deve ser percebido, discreto, da cor do papel, ou no fim do livro ou colado entre as mesmas páginas em todo o acervo. Inativo quando o livro é nosso, se substitui à propriedade. Intermitente, o da biblioteca.

A imagem que me veio é a desses inúmeros campos magnéticos silenciosos, que não sabemos ao certo se estão dormindo somente, se ainda há neles uma força que os faz agir em meio às palavras do livro, aos princípios ativos do desodorante. Magnéticos como os dados que guardamos nos discos – e que se apagam com o tempo, sem garantia, sem razão.

Parece a minha inquietação com o ar que eu respirava dentro das catedrais francesas – ar com poderes.