JÁ PENSARAM

que eu era bailarina, por conta dos meus pés; que eu era arquiteta, pela minha letra; que eu tinha uma banda, porque falava muito de música durante as aulas; que eu me chamava Cristina ou Laís; que eu tinha nascido no interior, a família morava toda lá; que em São Paulo eu dividia um apartamento com meu irmão; que eu era carioca; do sul; chilena, árabe, italiana.

Já disseram que as mãos são de pianista, os dedos muito pra fora; que o nome é de personagem do Camilo Castelo Branco; o nariz mostrava minha origem grega; os pés, novamente, fenícios. Que os olhos têm íris exemplares; o jeito, de personagem de Jane Austen; ou Mafalda; que tenho tudo a ver com Talking Heads; que poderia ser adulta nos anos 80, comendo sempre no Frevinho, descendo a Augusta cantando Ná Ozetti.

– E não sou eu?

ANDAVA DE BICICLETA

no shopping. Outras poucas pessoas também. Era estranho, as famílias olhavam com cara feira na praça de alimentação. Eu mesma não achava prático. Queria comer, fui num quilo, com um buffet comprido. Muitas opções de comida. Algumas com indicação, outras coisas eram um mistério, escondidas sob o molho.

Tinha carne de bisão. Peguei, seguindo minha regra de comer carnes que ainda não comi. Pensei em escrever um sms avisando mais alguém que poderia se interessar.

Entre as bebidas, leites de diferentes mamíferos. Pensei em ‘Tigermilk’, do Belle and Sebastian.

O buffet não terminava, mais comida se enfileirava, a balança muito longe ainda. O meu prato no entanto diminuía de tamanho, ficava cada vez menor para a comida que eu já tinha escolhido.

MÚSICA PARA CORTAR OS PULSOS

para cantar junto o que se conhece de cor; para pensar que mais alguém ouve a mesma música que você e sofre junto, e se envenena também. Hoje, uma plateia toda de gente apaixonada, era o que me parecia. Uns chorinhos e suspiros aqui e ali, risos. Dos três – Isabela, Ricardo, Felipe – a gente ouve frases que contam nossa história; mas, como somos banais, elas contam todas as histórias. Aí a graça: saber que a gente vive coisas que não são só nossas.

Sabe quando você sabe que algo é bom? Quando esse algo dá vontade – e só faz com que essa vontade continue. Por toda a vida – é o que quero.

(a peça, esperando que seja mais no futuro!)

EU ANDAVA

muito pela cidade, meio cinza como ela está, mas era na Polônia. Estava com um livro para ler e um disco de uma cantora para cantar junto. Não consigo lembrar se a cantora existe só no sonho; as músicas eram geniais. Chego na Santa Casa, moças vão saindo aos pares, felizes, dando sorrisos e olhando para trás, em direção ao jardim. Fico pensando no que os médicos disseram a elas.

A mãe de um amigo está lá com uma criança, ambas doentes. Ofereço suco. Ela é rude comigo, resolvo ficar lendo no jardim. Lá chega um outro amigo: ele começa a cantar comigo as músicas da cantora, ficamos felizes, comentamos as melodias, as batidas, as letras, saímos andando pela Amaral Gurgel. Assim felizinha com essas músicas perdidas eu acordei.

FUI VER A GRAVAÇÃO

ou um ensaio, não sei ao certo, de uma banda. A vocalista era a Cássia Eller, que também tocava guitarra. Os outros músicos eram uma mistura de bandas que não existem mais, de pessoas que já podem também ter morrido: Marcelo Fromer, Chico Science, Tim Maia? A música é pesada, mistura ainda de tudo: nordeste, rock. A Cássia Eller tem o corpo todo tatuado, com traços para se fazer furos e cortes na pele – algo que lembra O livro de cabeceira. Ela pede para descansar um pouco entre uma música e outra, vai lavar as mãos na pia.

Todos os outros muitos sonhos de que me lembro, de hoje à noite, foram ensaios, preparações, passagens de som.

DUAS MULHERES

uma delas era minha mãe; ela me contava que foi ao salão de cabeleireiro. Estava ajudando um travesti; ele recebe uma ligação telefônica, precisa correr porque marcou um encontro. Ele se arruma com pressa, ao som de uma música que ele mesmo também dubla, em algo que vira um vídeo que circula pela internet.

Outra, em vez de me mandar um texto que precisava, prepara uma grande refeição, deliciosa. Tudo pensado para o meu gosto culinário, bolinhos de massa de legumes, doce e salgado, peixe. E para terminar o sonho, uma cuia de cuscuz marroquino cheia de pimenta biquinho, um gosto inigualável. Enchia colheres de caldo vermelho que se misturava ao amarelo da sêmola.

COM UMA LETRA, B

logo que aprendi a ler, tinha muita dificuldade para diferenciar um b de um d minúsculos. b d d b b d , as barriguinhas pra esquerda ou pra direita?

posso fazer uma lista de músicas para tocar: Beatles, Brian Eno, Beck, Babet, Bénabar, Bidê ou balde, Bebel Gilberto, Björk, Baby Consuelo, Baden Powell, Barbara, Billie Holiday, Bazar Pamplona, Beach boys, Brigitte Bardot, Babylon Circus, Bowie, Beirut, Belle and Sebastian, Bruce Springsteen, Bezerra da Silva, Blur, Brian Ferry, Brisa Roché, Blossom Dearie, Beastie boys. Pego pra ler Barthes, Beckett, Benveniste, Bakhtin, Blanchot, Bachelard, Borges, a bíblia – e Balzac. Faço batata frita, bolo, brigadeiro e preparo uma batida.

FUI VIAJAR

senecio, paul klee

talvez tenha largado tudo, ou talvez as férias já tivessem chegado. Sei que cheguei na cidade cheia de sol, sem mar, só terra seca, uma casinha nova para visitar. Uma senhora de cabelos brancos olhou para mim e disse: – ahn, então é você? – sim! Era só o que eu sabia responder, era como se não falássemos a mesma língua.

E não falava a mesma língua de meu anfitrião, um sotaque forte que escondia toda uma distância que não sabíamos como diminuir. Muita conversa de silêncios. Ele me mostrou as fotos de Akemi, menino com nome de mulher em japonês. Ele dizia que eu tinha conhecido Akemi na viagem anterior. Não lembrava.

Sentamos na calçada da rua calma de sua casa, olhando o céu e o sol, sem fazer nada. Uma televisão ao longe. Eu  via meu anfitrião como um retrato cubista, seu nariz parecia sua orelha, os cabelos uma parte da barba.

Em outro sonho eu era uma camareira de hotel que acaba se tornando próxima de um cantor de rock meio desconhecido. A porta do quarto tinha uma chave como tramela. O cantor de rock adorava conversar com todo mundo. Era como se fosse um Heath Ledger velho, como se ele não tivesse morrido e se tornado cantor barato. Lembrávamos daquele filme em que ele foi cavaleiro medieval, que eu não vi.

UMA NOITE EM 67

teve pré-estreia essa semana; uma fila longa saía por uma das portas do conjunto nacional. Nelas, tanto pessoas que acompanharam o festival como outras que, ainda não nascidas em 67, apenas sentem o peso da música daquela época – e reverenciam, também. Eis um dos grandes valores do documentário: fala de um evento de peso para a cultura brasileira; resgata a memória, remasteriza as imagens, reatualiza as discussões que foram ali levantadas. Por isso só, pelos nomes que elenca em seu pôster, o filme vale ser visto, pronto.

Mas saio da sala com uma sensação que também compartilho com a minha mãe, com quem fui ver o filme: a de que só se ouve os grandes nomes, de que tudo é festejado; só se guarda daquilo o que realmente merece ainda reverência. Por mais que Caetano e Chico dêem hoje pouca importância ao festival em si, dizem “não sentir saudade daquela época” (acho sinceramente que os entrevistadores não precisavam perguntar coisa assim para Chico e Caetano, mas enfim), nem se lembram mais de cor as músicas que apresentaram. Mesmo com as revelações cruzadas que vão aparecendo nas entrevistas e que fazem rir tanto o público quanto quem está no filme. São pontos de equilíbrio, talvez, mas que continuam nas vozes dos próprios atores (e ainda assim, de alguns atores), o que não permite muita crítica ou muita abertura, mas volta e consolidação do passado. Pouco revolucionário ao tratar de uma “revolução”.

AQUELES DIAS

acabaram. É a notícia que se mostra no dia que começa, o sol fresco. A água de novo.

Acabou – alguém repete. Uma voz dentro. Mas só se sabe que aqueles dias acabaram porque eles ainda estão aqui, ao redor, em cada pedaço de tudo. Como no livro, “tudo está em tudo”. Se tudo está em tudo, “por que se preocupar?” – é o que ouvi e fui repetindo, a caminho do bebedouro, encher a minha garrafa.

Acabou, mas se repete.