DUAS, TRÊS

ou quatro coisas:

1) Eu não conheço tudo, nem do que eu gosto: não domino as obras completas, nem filmografia do início ao fim, nem todas as letras das músicas. Mesmo duas temporadas de um seriado eu não vejo até o fim para guardar um pouco de desconhecido.

2) Percebo que não escuto direito o que as pessoas me dizem: uma história, uma informação. Ou demonstro que não escuto, mas guardo. E a coisa reaparece de repente, mesmo sem eu ter dado muita atenção, ou ter sido muito discreta. A coisa chega até mim.

3) Adoro me dispersar. Criar muitos planos, organizar as obrigações e me divertir de pegar um caminho inesperado.

4) Acho que consigo realizar meus desejos. Faço um, fico em silêncio, respiro fundo. Pouco tempo depois a coisa acontece, simples. Não são grandes desejos. São como as tardes do começo de inverno, laranjas no céu.

O QUE É CONCERTO?

Em português, há tanto concerto como conserto.

[num concerto, a olhos vistos o músico fazendo a sua música, como o ator na peça ou mesmo num filme; e como vemos o escritor em seu fazer?]

Um concerto: qualquer apresentação musical (equivalente a show); uso que deriva por metonímia da composição musical feita para orquestra e solistas, no vocabulário da música erudita. Em francês essa distinção aparece: para eles há concert para a apresentação em geral (diz-se show no francês quebequense) e concerto para a música erudita.

Essas acepções aparecem, contudo, nos dicionários, depois de outras. Concerto é sinônimo de combinação, ajuste, reunião, pacto. Sua formação está ligada a certo, acertar, desconcertante. Envolve uma ação em grupo.

Concertar, o verbo: entrar em decisão por meio de um comum acordo, deliberar em conjunto; preparar, armar. O verbo consertar é uma “especialização”, e compartilha ainda algumas das acepções de concertar. Confusão que em francês não se dá: há concerter para a organização feita em grupo e réparer para fazer desaparecer erros e problemas, retornar algo ao seu estado de origem, reparar um erro.

FILMES NOS SONHOS

e dessa vez juntei Cães de aluguel, e todos os do Tarantino, com Amadeus, de Milos Forman. Os envolvidos nas conversas sobre esses filmes que sintam.

A questão é que eu não sei mais que filme estava dentro do outro. Harvey Keitel estava sendo deixado de lado. O próprio Tarantino também atuava, é claro. As perucas da corte austríaca eram jogadas pro alto. Abria-se uma mala cheia de ouro. A trilha sonora era legal. E dava vontade de ver e rever tudo.

O INGLÊS

que o Caetano fala parece só dele, um inglês que parece o melhor articulado, o mais clear. O sotaque de nenhum outro falante, mas o inglês de todos os falantes. Um som que me agrada em particular vem das músicas que ele canta em inglês.

Talvez tudo tenha começado com London, London, a versão dele em contraste com o que Paulo Ricardo fez nos anos 80 – as músicas acompanhadas de piano e violino também ocupavam um lugar especial na infância; assim como “Flores em você” do Ira, “London London” do Paulo Ricardo devia ser acompanhado parado em frente ao rádio, deixando os minutos passarem.

Conhecendo depois o disco do Caetano de 1969, de capa branca com a assinatura dele, um dos primeiros CDs que compramos em casa, vi que o repertório em inglês dele é maiorzinho e igualmente me encanta. Bem mais recentemente ele fez um CD todo de repertório dos EUA. Mas ainda uma música de 1969 me parecia alienígena, também procurava flying saucers in the sky: “Não identificado”. Pequena, eu achava que o refrão era uma língua distante, vinda da Índia, um dialeto de urdu renovado: como um objeto não identificado…

UM SAMBINHA

não porque é carnaval…

Mas porque lembrei dele junto com a Lúcia hoje, musiquinha difícil de cantar. Fui procurar no youtube e achei essa versão simpática, gravada num lugar que sempre imaginei deveria ser filmado mesmo: o interior do prédio da Engenharia Hidráulica, na USP. Fica em frente do conjunto da Psicologia, perto da raia, e ali no meio das árvores ninguém percebe que dentro há um cenário de filme.

Só conheci esse prédio de acesso restrito porque ali ficavam as instalações provisórias da Rádio USP, engraçado, na mesma época em que o vídeo acima foi feito, março de 2008. Experiência e tanto de Ciço e eu. Ainda lembro do cheiro e do silêncio-barulho desse espaço enorme cheio de canos. Demais.

SABE AQUELA COISA

só sei que nada sei?
É isso, não tem mais discussão.
Desde pequena, vendo “Vinte mil léguas submarinas”, “A volta ao mundo em oitenta dias” na sessão da tarde na tevê, eu jurava que Jules Verne era inglês. Começando a facu, descobri a nacionalidade dele. Mesmo assim, pra mim ele continua inglês. E até hoje não li nada dele, esse francês tão inglês.

E Musil? Pra mim, outro britânico. Hoje descubro: austríaco, como vários outros que davam a Viena o peso de Viena. Tanto austríaco, gente. Wittgenstein criança na escola junto com Hitler. Schönberg fugido da Europa, nos Estados Unidos, vizinho de Gershiwn, os dois se disputando em partidas de tênis… ai ai.

Nada como a leitura de umas páginas de Wikipédia.

NÃO CONSIGO SER FIEL

a séries, mesmo sendo ótimas, mesmo tendo todos os episódios ao alcance da mão.

Flight of the Conchords foi uma referência perdida que eu recuperei faz um mês. A coisa mais engraçada e modestamente bem feita dos últimos tempos – não só a série, mas as músicas, feitas antes da série, e o documentário dos neozelandeses num festival de música. Esqueci de assistir os episódios a partir do último da primeira temporada. Só a Karen é que me lembra de assistir.
Ainda preciso pensar (ou achar) a explicação para o nome da banda. Tenho uma hipótese, mas preciso conhecer mais sobre aviação.

Tudo o que é sólido pode derreter é um sopro renovador na dramaturgia da tevê cultura. Depois de “O Mundo da Lua” e “Confissões de adolescente”, o que tinha sido feito no gênero, para adolescentes? Não lembro de nada.
Os caras de “tapa na pantera” provaram que sabem fazer mais do que um “sucesso do youtube”, e estão trazendo leituras apaixonantes dos nossos “clássicos da literatura”, e acho que sem cair na reconstituição ou na explicação facilitada para vestibulandos. Mesmo. E engraçado ver um ex-colega das aulas de sintaxe na Letras fazendo o pai da protagonista…

Nada como a postagem de séries da televisão na internet.

UMA PROVA

não sei de onde ela veio, mas era uma prova que eu tinha que fazer. Cheguei na sala de aula, o baque, como assim, o que é isso aqui? Não entendia nada do que estava acontecendo, nem saberia dizer o que eu estudava ali, do que se tratava as perguntas da prova. Gelei.

Resignada, me curvei frente à folha cheia de questões incompreensíveis. De repente, alguém começa a cantar Vai passar, do Chico Buarque – simplesmente próprio Chico Buarque.

Olha aí, ele de novo num sonho – penso eu.

Vai passar é uma das músicas que eu mais gosto dele, que não sou daquelas fãs que vão ao show. Cantei junto, dei risadas da vida, pensei que aquela prova não era nada frente à beleza da música, de todas as músicas.

A sala também começa a acompanhar o Chico e tudo termina feliz. O Chico Buarque não era o Chico Buarque mas o Luís, em quem eu dou um abraço.

UMA DAS COISAS

mais legais de se fazer em janeiro é justamente arrumar armários e gavetas. Tirar caixas empoeiradas do quarto de bagunça, descobrir vestidos escondidos que você nunca usou no fundo do guarda-roupa. Mandar sapatos velhinhos para o sapateiro, trocar as plantinhas para vasos maiores, doar livros para bibliotecas, amigos e afins. Organizar os papéis todos, extrato de banco, certificados de palestras, fotos de viagem, cartões postais bobinhos.
Jogar muita coisa fora.
Isso tudo eu consegui fazer.

Falta assistir a milhares de filmes arquivados no computador, outros em DVD na estante, emprestados que eu não devolvi, meus que eu comprei e nunca vi.

Entre outras coisas dessas, comecei um projeto ambicioso e importantíssimo: passar as fitas cassete que tenho para meio eletrônico. Salvá-las do apagamento que vai acontecer mais cedo ou tarde.

Dá medo perder tanta coisa que eu gravei com meus irmãos na pré-adolescência, com o nosso primeiro gradiente.


Essa foto achei na internet, mas o nosso está guardadinho, uma das poucas coisas que conseguimos conservar!

Além de gravar muita música das rádios, coisas como George Michael, Information Society, Boy George, Paula Adbul, entrevista da professora Helena do Carrossel, a gente fazia os nossos próprios programas de rádio. Eram entrevistas, músicas que inventávamos, ou fazíamos regravações, como a música de Fagner na abertura de Pedra sobre pedra. Durante a época das eleições, tínhamos o nosso próprio horário político.


Tirei a foto simpática dessa página aqui, que reúne fotos lindas de cassetes

A gente comprava fitas dessa daí, Ferro Extra, o que era um enorme avanço: melhor qualidade do som, duração de 90 minutos, 45 de cada lado.

As fitas eram poucas, às vezes tinha que regravar coisas, apagar outras. Era assim, uma pena.

Tanto que um dia peguei uma fitas dessas laranja, que meu pai tinha gravado com meus bábábá de bebê, eu fiz uma entrevista com a família. Começava assim:

“Hoje é 31 de dezembro de 1992, último dia do ano. Estamos aqui com a Gabriela. Gabriela, esse ano foi um dos mais marcantes para você? O que você mais gostou nesse ano, um dos anos mais legais?”

1992 tinha sido legal para mim porque fui para a quinta série, eram vários os professores, tinha matérias novas na escola. Por isso.

Essa parte da fita, sei lá eu como, foi apagada enquanto estava tentando passar pro computador, não existe mais.