VOCÊ PASSA

pelas mesmas ruas de todos os dias, de onde você mora já faz anos; poderia descer pelo caminho de olhos fechados, tudo é familiar e todos te conhecem, sabem quem você é e que horas vai e vem. Mas agora fica pensando: como será ver tudo isso com outros olhos – ver com os olhos de alguém que nunca passou por aqui, alguém chegando pela primeira vez onde você sempre viveu?

ERA UM TERREMOTO

mas o terremoto aconteceu enquanto eu estava dormindo; sonhava e o sonho virou pesadelo.

Um pesadelo dentro do qual alguém estava por perto, mas eu sofria muito, não controlava meu corpo. A sensação era boa, ruim, difícil: estava perto de morrer, talvez.

Acordei doente. Pensei: o pesadelo me deu o sinal. Só depois soube que o que meu corpo sofria era a terra toda que se movimentava.

EU FIZ LISTAS

de coisas a fazer, assuntos para conversar, datas importantes para lembrar, leituras, filmes, lugares para conhecer, alguns pedaços de música; mas de nada adianta: o que sai na hora é imprevisível.

Há também uma lista de regras que eu mesma me coloco, uma pequena disciplina para coisas simples do cotidiano: coisas que eu devo fazer todo dia, outras coisas pra não fazer sozinha. Elas valem durante um tempo. Por que deixo essas regras de lado?

Das duas uma: ou não sei fazer listas, ou não sei como segui-las – ou vai ver é assim mesmo que as listas são.

UM SHOW TERMINA

e ficamos alguns minutos esperando o bis. Os amigos que estavam comigo resolvem ir embora. Fazem planos de viagem, eu começo a lembrar de um restaurante no Rio de Janeiro, o nome me foge, onde a sopa é muito boa.

Fico sabendo que tem alguém me esperando fora da sala. Subo as escadas, elas são muitas. Quando chego lá fora, a pessoa que me esperava já tinha ido embora – ou na verdade não estava me procurando.

VIAJANDO PELA EUROPA

as minhas notas de euro já eram muito antigas, enormes e de cores apagadas. Novas notas, mais coloridinhas, estavam em circulação. Os bancos não trocavam mais notas antigas por novas. Precisava encontrar colecionadores para ao menos trocar 100 euros.

Fui numa região da cidade (em que país eu estava? Romênia?) que parecia mercado negro. Começavam a falar comigo em árabe. Depois, passavam para um português de Portugal, francês. Ofereciam 30 euros pela minha nota de 100. Eu queria mais – deveria então procurar mais.

Mais adiante, fazia-se queijo, as próprias cabras trabalhavam na produção. Achei curioso. Em outro lugar, faziam queijo de cabra falsificado. Nesse ponto lembrei de outro sonho, que tive antes, de uma velha loja que vendia produtos agrícolas falsificados, cujos donos eram a família de Shoshanna Dreyfus, dos Bastardos inglórios.

Voltei a essa loja, mas agora um chinês das histórias do Tintim era o dono, ela estava reformada. No fim das contas, continuava com minha nota de 100 euros. O máximo que me ofereceram foi 60; eu recusei.

NO CURSO DE INGLÊS

o primeiro professor se chamava Marcos: nunca falava em português, entendíamos tudo o que dizia. Depois, uma senhora ex-secretária bilíngue. O sotaque dela era criticado discretamente pelo professor do básico 3: um japonês que trabalhava na Varig e viajava pelo mundo, dando preferência aos lugares obscuros da Ásia, como Bandar Seri Begawan, capital do Brunei.

No intermediário o professor era apaixonante. Ele não conseguia nos convencer que tinha 14 anos – assim como eu também parecia mais velha. Ia no Balafon, balada na rua Sergipe, entrava porque enganava a idade. Era de Recife, quando falava português ficava evidente. Amava Pink Floyd, passou Wish you were here e umas outras deles. Sobre ele, me confundo particularmente: ele usava camisa xadrez azul de flanela, como eu também?

ESTAVA EM RECIFE

no topo de um prédio alto, fazia muito calor. Sol forte, eu me escondia na sombra da casa de máquinas do elevador. Dois senhores, talvez trabalhassem lá, me explicavam o que eu via lá embaixo. Os trabalhos no porto: grandes contâineres, carregamento de peixe, caminhões chegavam e iam embora. Muito óleo; eu perguntava para onde ele ia – direto para o mar? O que eu achava mais desconfortável: estar no alto ou o que eu via lá no chão?

Mesmo dentro do prédio, as mulheres que trabalhavam num grande apartamento colocavam coisas no parapeito: uma tela que eu pintei, por exemplo. Ela poderia cair, ou envergar – eu achei uma melhor posição ali para a minha pintura.

ALGUNS CHEIROS

da pele da minha mãe, de creme talvez, mas que ficava bem só nela, eu procurava o braço dela quando menos esperava; do corredor do apartamento na Barão de Tatuí, que eu acreditava vir do lustre, de vidro fosco e contorno verde-água; dos biscoitos dentro da lata marrom, com flores amarelas; dos ares dos lugares: cada lugar, um cheiro diferente; o cheiro de bicho (um mamífero, sabe-se lá qual) nadando num rio; de funghi, que a moça da zona cerealista acha nojento; cheiro de chuva; cheiros dos livros novos no começo do ano; da fita 3M para os livros da biblioteca; de vinil novo, no plástico.