INDO E VINDO, DE NOVO

tanto nos meus sonhos – de carro e a pé, junto com minha professora, dizíamos que qualquer caminho vale, que todos, por mais sinuosos e complicados que sejam, levam ao ponto de chegada. Subíamos de carro umas ruas arborizadas, cheias de casinhas, como se fosse ali pelo Pacaembu, mas com um ar mais hospitaleiro, não sei dizer. Chegávamos num ponto alto, um prédio antigo, janela ampla, festa no primeiro andar. – É uma festa de médicos, eu dizia.

como na vida – e indo e vindo, lá e cá, uma coisa vale pela outra: vale pelas pessoas e pelos abraços que dou e recebo, partindo e chegando.

DO QUE APRENDI COM AS MALAS

de viagem: para me acompanharem nos transportes públicos, a caminho de rodoviária, aeroporto, estação de trem, embarcação, carro, o que for, primeiro: não podem ter aquelas várias rodinhas que dão o giro de 360 graus. Não. Bastam duas rodas, não ‘rodinhas’, mas rodas grandinhas, robustas, para aguentarem os terrenos incertos por onde vou passar, por onde sempre passo. Bolsas de viagem, mais aconchegadas ao corpo do viajante, não suportam durante muito tempo o peso de livros que vão e vem comigo. Elas, malas ou sacolas, como também as bolsas, normalmente são de alguma cor, tem algo que é só delas e de mais nada: para serem reconhecidas de longe, como os amigos que aguardam minha chegada.

ESTAVA NO KOWEIT

(com essa grafia mesmo, por mais que pessoalmente eu prefira Kuwait). Um guia me acompanhava, um senhor muito alto e magro, vestido com roupas típicas, de cor roxa. Simpático, explicava como tudo funcionava. Eu andava com um xale nas mãos, e perguntei a ele se eu devia cobrir minha cabeça, meus cabelos, como as outras mulheres. Ele me respondeu que não precisava, mas me deu uma razão prática para se cobrir: eu não precisaria me preocupar com o visual do meu cabelo, se estava bem cortado ou penteado. E as estampas dos lenços e xales são sempre mais bonitas que os cabelos… – não lembro o que fiz com esses argumentos.

Continuamos andando e vimos à direita uma mesquita, que alguém chamou de ‘igreja’ e eu corrigi. Logo ao lado, uma grande tenda, onde pessoas comemoravam um casamento, dançando em círculo. E, ainda pertinho, um supermercado, onde tranquilamente as pessoas faziam suas compras, ouvindo os sons da festa de casamento.

RECEBIA UM EMAIL

só um, no sonho; destacava-se dentre os já lidos. Abria: fora o oi e o nome de quem me mandou, uma frase só: “ah, você só poderia ser você mesmo!” Ao ler essa mensagem, ria um pouco, desconcertada. Fechava e abria o email, como se o conteúdo pudesse mudar – não mudava. Eu era eu.

Antes disso eu me perdia em vários corredores de uma feira de universidades, um lugar antigo, com cores creme, alguns corredores mais novos, outros parecendo um lugar no Mediterrâneo. Esse lugar ficava num terreno de subidas e descidas, casinhas de pedra, chão de pedra. Depois de o carro onde eu estava quebrar a pouca distância dali, de me perder do grupo que estava comigo, eu conversava com uma representante do estande do Japão. Poderíamos ter um acordo, eu era favorável. Dizia para ela que as políticas diplomáticas brasileiras são baseadas na reciprocidade.

FUI VIAJAR

senecio, paul klee

talvez tenha largado tudo, ou talvez as férias já tivessem chegado. Sei que cheguei na cidade cheia de sol, sem mar, só terra seca, uma casinha nova para visitar. Uma senhora de cabelos brancos olhou para mim e disse: – ahn, então é você? – sim! Era só o que eu sabia responder, era como se não falássemos a mesma língua.

E não falava a mesma língua de meu anfitrião, um sotaque forte que escondia toda uma distância que não sabíamos como diminuir. Muita conversa de silêncios. Ele me mostrou as fotos de Akemi, menino com nome de mulher em japonês. Ele dizia que eu tinha conhecido Akemi na viagem anterior. Não lembrava.

Sentamos na calçada da rua calma de sua casa, olhando o céu e o sol, sem fazer nada. Uma televisão ao longe. Eu  via meu anfitrião como um retrato cubista, seu nariz parecia sua orelha, os cabelos uma parte da barba.

Em outro sonho eu era uma camareira de hotel que acaba se tornando próxima de um cantor de rock meio desconhecido. A porta do quarto tinha uma chave como tramela. O cantor de rock adorava conversar com todo mundo. Era como se fosse um Heath Ledger velho, como se ele não tivesse morrido e se tornado cantor barato. Lembrávamos daquele filme em que ele foi cavaleiro medieval, que eu não vi.

ERA PRA SER

um diário de viagem; anotações do que ia, um dia depois do outro, acontecendo. Para isso ele teria que ser feito a qualquer momento, tirado da bolsa tão logo se passasse algo digno de nota: um chiste, uma nova palavra, uma placa de um lugar já conhecido que se reconhece, depois de anos. Um caderninho de capa bonita, floral. Que chamasse a atenção de quem está ao lado: – nossa, que bonito! deixa ver? – não.

Um diário que fala de todos mas que ninguém sabe o que diz.

Mas foi um caderninho – como outros que tenho, de folhas que se soltam – que me acompanhou mais enquanto estava sozinha. Para eu não dormir sem cuidados.

AS PEQUENAS COISAS

dos filmes do Rohmer, em meio às conversas que nunca terminam, os passeios, as viagens, são as que mais ficam. Agora terminando um texto, virando o dia sem dormir, começam os primeiros passarinhos cantar. Aí me vem “a hora azul” de Reinette et Mirabelle, no meio do mato; o raio verde do pôr-do-sol na praia, durante as férias de uma menina deprê e sem rumo; o joelho de Claire na paisagem alpina; o chapéu azul da duquesa; uma aula de francês para crianças; uma festinha nos anos 80; um menino indo embora na estação de metrô; encontros num bar.

Sozinha o tempo todo, procurando o raio verde, ele aparece quando ela está do lado de alguém.

E por aí vai.

BEBÊS FALAM

nos sonhos de muitas pessoas, me disse o Sérgio quando contava que tinha um deles que falava num meu. Ele era pequeno, filho sabe-se lá de quem. De todo mundo e de ninguém. A família toda, numerosa, se espalhava pelos cômodos da casa. Talvez a casa fosse grande (mas não chique) porque aqui fui num tipo de “casa cor”, na futura casa do governador Gaguim.

Fora isso, vida de poucos sonhos marcantes, por ter dormido pouco todos os dias, e dias sem dormir nada mesmo. Madrugada de sábado para domingo passei entre o sono e o despertar, calor, ar condicionado fazia muito barulho.

Os dias já são amarelos e azuis, ritmados pelos jogos da copa.

Os fins de tarde, céu que é uma redenção.

MITOLOGIAS

das grandes cidades: nelas as pessoas falam sobre a própria cidade e produzem discursos que a recriam, engrossam o coro da população numerosa. Assim elas são construídas. Mesmo quem é de fora conhece essas grandes cidades, cheias de cantos e histórias.

E há cidades que são pouco faladas, escritas. Ou que nada dizem. Não há romances, filmes, seriados ou novelas que se passam ali – questão prática de produção: muito trabalho levar uma equipe para aquelas paradas. Nenhuma música. Nenhum grande nome. A não ser o seu próprio, pendurado num mapa.