EU ANDAVA

muito pela cidade, meio cinza como ela está, mas era na Polônia. Estava com um livro para ler e um disco de uma cantora para cantar junto. Não consigo lembrar se a cantora existe só no sonho; as músicas eram geniais. Chego na Santa Casa, moças vão saindo aos pares, felizes, dando sorrisos e olhando para trás, em direção ao jardim. Fico pensando no que os médicos disseram a elas.

A mãe de um amigo está lá com uma criança, ambas doentes. Ofereço suco. Ela é rude comigo, resolvo ficar lendo no jardim. Lá chega um outro amigo: ele começa a cantar comigo as músicas da cantora, ficamos felizes, comentamos as melodias, as batidas, as letras, saímos andando pela Amaral Gurgel. Assim felizinha com essas músicas perdidas eu acordei.

O QUE É DRAGUER?

Verbo em francês, que veio do inglês to drag, no século 17. É primeiro equivalente a dragar, em português: retirar resíduos do rio, de canais, do mar – com um instrumento, rede, embarcação.

O sentido do verbo, seja em inglês, francês ou português, derivou ao longo do tempo. Entre eles há alguma relação, curiosa. No inglês drag, gíria londrina, seria “roupa feminina usada por homem”, as saias longas que se arrastam pelo chão como uma draga; no teatro, os papéis femininos feitos por homens vinham acompanhados da sigla drag para dressed as a girl; dessa mistura de explicações teríamos desde o começo do século 20 drag queen, depois drag king.

Em português draga pode ser uma pessoa que come muito, um carro velho, um revólver.

Em francês, draguer ganhou o sentido de procurar, coletar, buscar, em uso no vocabulário militar. A partir da década de 1960, draguer é procurar aventuras amorosas, paquerar. Para paquera não encontrei muitas informações, só que viria de paqueiro, cão caçador. Já com xaveco, gíria que descobri ser muito local (só em São Paulo?), interessante, voltamos ao vocabulário marítimo: é um tipo de embarcação mourisca; viria do árabe enredar, entrelaçar.

PODIA SER OUTUBRO

e eu planejava mudar de direção, fazer algo diferente das revisões que eu fazia. Queria entrar mais no mercado editorial, desenhar, diagramar. Resolvi dedicar um pouco do dinheiro que juntava pra essa mudança de rumos. Duas opções: comprar um computador novo ou fazer cursos de programas de design. Escolhi a segunda opção, para encher o currículo. Peguei uma escola de informática razoável, cursos intensivos em dezembro e janeiro. No fim das contas: começo do ano seguinte, eu tinha largado o estágio de revisão, cancelei o curso, peguei meus cheques de volta. Comecei a trabalhar na biblioteca, o que deu no que deu hoje.

E por que cancelei o curso? Fiquei pensando, hoje de manhã, que eu talvez tivesse pouca simpatia pela interface dos programas, a carinha dos ícones das ferramentas de vetores, coisas assim (se os cursos fossem no mac, penso agora, poderia ter sido mais facilmente seduzida).

O CANDIDATO A DEPUTADO

estadual tinha uma família simpática: a esposa, um filho, uma filha; talvez cachorro. Ele chamou a Karen e eu para conversarmos em seu apartamento. Não podíamos ficar muito, porque a gente tinha combinado de sair com a Maíra. Comemos hambúrguer, feito naquelas grelhas que deixam escorrer a gordura. A família nos acompanhou até a porta da rua. Lá o filho se mostrou um pouco rebelde, problemático demais – percebemos que havia algo de muito estranho na família. O menino pegava um molho de chaves e queria jogar para dentro de um carro.

Acordei com o celular, Maíra me chamando para sair. A Karen ligou o filho-problema-do-deputado ao filho do José Costa, personagem principal de Budapeste. Terminei de ver um filme e só pude voltar a dormir.

INDO E VINDO, DE NOVO

tanto nos meus sonhos – de carro e a pé, junto com minha professora, dizíamos que qualquer caminho vale, que todos, por mais sinuosos e complicados que sejam, levam ao ponto de chegada. Subíamos de carro umas ruas arborizadas, cheias de casinhas, como se fosse ali pelo Pacaembu, mas com um ar mais hospitaleiro, não sei dizer. Chegávamos num ponto alto, um prédio antigo, janela ampla, festa no primeiro andar. – É uma festa de médicos, eu dizia.

como na vida – e indo e vindo, lá e cá, uma coisa vale pela outra: vale pelas pessoas e pelos abraços que dou e recebo, partindo e chegando.

FUI VER A GRAVAÇÃO

ou um ensaio, não sei ao certo, de uma banda. A vocalista era a Cássia Eller, que também tocava guitarra. Os outros músicos eram uma mistura de bandas que não existem mais, de pessoas que já podem também ter morrido: Marcelo Fromer, Chico Science, Tim Maia? A música é pesada, mistura ainda de tudo: nordeste, rock. A Cássia Eller tem o corpo todo tatuado, com traços para se fazer furos e cortes na pele – algo que lembra O livro de cabeceira. Ela pede para descansar um pouco entre uma música e outra, vai lavar as mãos na pia.

Todos os outros muitos sonhos de que me lembro, de hoje à noite, foram ensaios, preparações, passagens de som.