de tão parado no trânsito (paralisação da Sambaíba, que acredito eu ser reponsável pela maior parte dos ônibus que vão para a usp), deu para escrever um pedaço de sonho na agenda.
Autor: anameliacoelho
UM DESENHO
um dia.

Esse era o lema que eu me dei no começo do ano passado. Não estou cumprindo, mas tenho que me esforçar para isso. O que ajuda são algumas aulas em que a discussão se esvazia e o espaço das páginas se abre para eles na maior parte das vezes, os elefantes.
Quando não, os desenhos são o que eu escrevo.
COM SONO, SEM PALAVRAS

e decidida de que ler na cama, antes de dormir, é algo difícil para mim. Difícil porque eu não consigo parar de ler até chegar ao fim do livro!
Foi o caso de Retalhos, de Craig Thompson, que eu peguei ontem para ler. Pensei, umas 20 páginas e eu durmo. Que nada! Não consegui parar de ler até o final. E imagine, são 582 páginas. Só depois das três da manhã eu consegui desligar a luminária e começar a dormir. Dos meus sonhos desta noite não lembro nada, talvez ainda na cabeça resquícios da história de Craig, que tão melodiosamente reúne traumas, tristezas, religião, desenhos queimados e um amor perdido. Lindo!
Impossível não pensar em outros quadrinhos autobiográficos excelentes como L’ascension du Haut Mal, Fun home ou Persépolis, que também abrem mão de uma profusão cores em nome do preto e branco – exceção leve a Fun home, que tem uma atmosfera azul claro.
O traço é trabalhado de maneiras muito simples, deixando ver às vezes o movimento da pena, o encadeamento das memórias de diversos momentos da infância e da adolescência faz mergulhar num universo muito próprio, repleto de medos e angústias, mas também muito típico – ao menos para mim… Um universo no qual muitas vezes não se sabe que fronteira há entre os sonhos e as memórias.
SONHOS ACUMULADOS
e de alguma maneira relacionados.
Eu estava num tipo de residência universitária (a vida universitária tomando conta dos meus sonhos), uma espécie de sala de convivência, anotando coisas, debruçada num caderno, quase caindo no sono. Chegam um professor que conheço de vista e uma de quem sou um pouco mais próxima. Ela começa a falar mal do marido, eu começo a anotar tudo sem que ela perceba, provavelmente ela pensava que eu estivesse dormindo. Ela propõe ao professor que os três vivam juntos, os dois que estão conversando e o esposo da professora. Ele já tinha concordado, segundo ela. Eu finjo que acordo de supetão, ela se assusta e quer ver o que eu anotava.
Como achava que isso não levaria muito a lugar qualquer, comecei a circular e vejo que estou num grande palácio moderno, alguma grande instituição. E tudo se transforma no novo filme do Tarantino, que não seria Bastardos inglórios, mas um filme seguinte, ainda com Brad Pitt, mas também com Uma Thurman, Lucy Liu e Mike Myers de cabeça raspada. Nesse grande palácio, escondiam-se réplicas dos planetas, que aos poucos iam sendo fabricados. Eles eram feitos pelos fabricionistas, que acreditavam que, depois do fim do sistema solar, seria preciso refazer todos os planetas (é do verbo fabricar que vem o nome do grupo). Júpiter já estava pronto, escondido – Mike Myers vigia o novo planeta, ele e outros atores menos conhecidos.

Júpiter por Júpiter…
Tudo funcionava como numa sociedade secreta. Mas pessoas contrárias aos fabricionistas, os elementares, resolvem acabar com todos os planetas que os fabricionistas estão fabricando. Os elementares resolvem entrar como espiões na propriedade dos fabricionistas, e depois de apuros conseguem destruir tudo. Mas ao saírem do palácio (algo como a Casa Branca), eles encontram guardas que sem fazerem uma pergunta metralham os elementares, Uma Thurman, Brad Pitt e Lucy Liu. A platéia dá risada e os créditos começam a subir.
Antes, semana passada, outro sonho que tem tiros. Dessa vez, era um filme histórico brasileiro, que mostrava uma revolução de escravos que queriam ser batizados. Os senhores eram contra. Mas a mobilização dos escravos foi tamanha que houve uma grande reunião de toda a comunidade, os senhores, as famílias, os escravos, para que se chegasse a um acordo. Os senhores dizem sim aos escravos, eles serão todos batizados. Os escravos ficam muito alegres, comemoram, a comunidade fica aliviada (que “comunidade” seria essa, intermediária, entre os senhores e os escravos?). Mas em segredo, os senhores já estavam de acordo com a idéia de matar todos os escravos rebeldes, que ali estavam reunidos. Chegam mercenários e matam todos os escravos com tiros ali mesmo. Os senhores, agora sim, ficam aliviados. Todas as outras pessoas, chocadas. Isso inclui um jovem português, que tinha acabado de chegar de sua terra natal, para se instalar na colônia e usar seu talento para pintar as paisagens tropicais.

No sonho estavam a cavalo?
O que se segue pode ser duas coisas: ou é uma lembrança de Portugal ou é algo que ele viveu na colônia, está difícil decidir. Era uma grande casa, um outro palácio, de outro tipo, de arcadas abertas, espaços amplos, tapeçarias nas paredes, afrescos, algo mediterrâneo com inspirações moçárabes.
O sol entra docemente, o jovem português, loiro de cabelos cacheados, está pintando uma tela (talvez a matança dos escravos?) e uma mocinha aparece. Ela está apaixonada por ele. Ele larga a pintura, e sai andando pelos espaços dessa enorme casa, escadarias, vasos, espelhos. Os dois conversam. Ela quer se casar com ele. Mas ele diz a ela que não gosta de mulheres. Ela diz que isso não é um problema para ele, ele pode continuar a ver outros homens. Em um momento, os dois deitam no tapete, perto de uma estante – agora parece aquela livraria que tem em Buenos Aires, que era um antigo teatro, ou a livraria cultura, que fica onde era um cinema – para se esconder de alguém.
Sonhei também, durante a semana, com algo que poderia ser um documentário sobre o PT. Como começou o PT? A história era assim, antes, só se votava em quem era poderoso. Os senhores de novo. A classe trabalhadora começou a juntar dinheiro para formar um partido. Com o valor que conseguiram acumular, era possível colocar candidatos nas eleições. Os salários dos novos deputados e senadores também servia para financiar mais candidatos. Isso teria sido uma dica do Ziraldo.

Adoro esses olhos
Mas logo em seguida, estou de novo numa universidade que não conheço, será no Rio de Janeiro? Era uma aula de ciência política, ou administração pública. Um professor jovem começa a explicar o funcionamento da “máquina”, coloca na lousa que há um princípio que diz que 1 = 1 e 50 = 50. E que 50 dividido por 50 dá 1. Até aí tudo bem. Mas na máquina pública as coisas funcionam de outra maneira, 1 = 2, as dívidas sempre oneram o Estado, para beneficiar o setor privado, os grandes proprietários. A aula fica interessante, as pessoas começam a participar, o professor diz que talvez “melhor assim”, que o Estado seja onerado, em vez de prejudicar a iniciativa privada. Eu de repente estou numa loja de perfumaria, apertadíssima, com caixas no chão, prateleiras com xampus mil (um tipo de Teruya!), lugar escuro onde mocinhas etiquetavam os produtos com o preço. Eu precisava de um creme para o cabelo mas não achava.
FIZ UMA PERGUNTA
“o que você vê no fundo da sua memória?”
Eu mesma não consigo responder satisfatoriamente.
Acho que não tenho boa memória. Preciso de marcas da passagem do tempo. É talvez por isso que eu escrevo muito, tiro muitas fotos, gravo, desenho. Essas marcas são essensciais para guardar a memória.
As pessoas ao meu redor também são minha memória. Meus amigos me contam histórias das quais não me lembro de detalhe algum.
Talvez por essa razão eu não consiga construir uma “primeira memória” que fuja a registros como uma fita cassete que meu pai gravou com meus primeiros blá-blá-blás, das fotos que tenho, dos desenhos a giz de cera da pré-escola que eu tenho ainda, do meu diário de infância, das agendas que tenho todos os anos, dos trabalhos de escola, das fotos que se acumulam no computador…
FUI DAR UMA SONECA
e antes de acordar com frio eu sonhei que a Karen tinha feito um vídeo de uma aula da ginástica. Ela era aluna da aula de ginástica, algo meio recreativo, meio de dança. O sonho era simplesmente esse vídeo, eu e a Karen por trás dele comentando a respeito. Era um vídeo bem simples, feito com uma câmera fotográfica digital. A aula vai começar, a professora coloca uma música dançante, que me deixou vestígios de Moby, apesar de não ter nada a ver com Moby. A Karen tá sentada no chão, e se levanta. Dá para ver a sala toda, e a Karen de roupa preto e branco se levanta em meio aos outros alunos, dos quais não tenho nenhuma informação. O que eu tenho na cabeça é que a câmera muda subitamente de posição, e eu não entendo como a Karen está filmando e participando da aula ao mesmo tempo. Depois de rever o vídeo (o vídeo se repete duas vezes no sonho) é que ela se vale do fato de a sala ter espelhos, logo no começo do vídeo ela está de frente a uma das paredes de espelho e no decorrer da aula isso vai mudando. Ela até faz cirandas com os alunos, dois a dois. Os alunos tem que se movimentar como numa coreografia bem complexa. E NÃO FOI UM sonho somente, mas dois! Lembrei enquanto escrevia de um do outro. Sonhei em alemão! Ou com uma tentativa de entender alemão. Foi um sonho do filme Corra Lola Corra, mas no sonho o filme não se passava inteiramente em alemão, e em algumas cenas o filme era preto e branco. Lembrei do sonho quando escrevi “preto e branco” da cor da roupa da Karen. Mas acontece que na cena do telefonema o namorado da Lola dizia que se chamava Moritz, mas esse é o nome do ator, Moritz Bleibtreu. No filme é Manni. Ich heiße Moritz. Por que ele precisaria dizer isso, que se chama Moritz para a própria namorada, Lola? A ligação fica confusa e cai várias vezes, eles não conseguem se falar. Duas coisas de uma mesma época, Lola e Moby. Dois vídeos muito inventivos, que eu não consigo entender à primeira vista. Vontade de fazer ginástica e de voltar ao curso de alemão?
SABE O PERSONAGEM PRINCIPAL

de Sinédoque, Nova Iorque?
Ele existiu de verdade, mas ele se chamava Jacques Tati, morava na França.
Quando criou sua sinédoque, Playtime, Tati fazia já filmes, já tinha ganhado Oscar de melhor filme por Mon oncle, quando decidiu criar uma cidade inteira, uma nova Paris, desfigurada, povoada por enormes prédios modernistas, envidraçados.
Playtime é o filme que arruinou Tati, que teve fôlego para ainda uns dois filmes depois desse. Tinha visto muito tempo atrás, e admito que não tinha entendido tanto dele. Aquela coisa: anos depois, a gente reconhece mais coisas, vê detalhes – e no caso de Playtime eles são inúmeros. Exigente e rigoroso, Tati criou uma verdadeira cidade em movimento, com pedaços de conversas, personagens mais ou menos anônimos, carros e ônibus…
Incompreendido, perdeu os direitos dos filmes, mas nos últimos anos vem ganhando relançamentos e retrospectivas. Agora em 2009 a Cinemateca francesa organizou uma exposição em sua homenagem. O cartaz gerou polêmica ao substituir o cachimbo de Tati por um catavento… medo dos publicitários de infringir a lei francesa que proíbe propaganda que incite o uso de fumo.

Revi Playtime numa circunstância bem legal: o grupo Uakti criou uma trilha para o filme, e o apresentou ao vivo no sesc Vila Mariana. Talvez o primeiro evento do ano da França a que eu vou.
Em tempo: música de filme do Tati é sempre demais.
A música-tema de Mon oncle é das coisas que eu mais gosto.
Parece fácil pensar no tempo que passa…
SABE AQUELA COISA

só sei que nada sei?
É isso, não tem mais discussão.
Desde pequena, vendo “Vinte mil léguas submarinas”, “A volta ao mundo em oitenta dias” na sessão da tarde na tevê, eu jurava que Jules Verne era inglês. Começando a facu, descobri a nacionalidade dele. Mesmo assim, pra mim ele continua inglês. E até hoje não li nada dele, esse francês tão inglês.
E Musil? Pra mim, outro britânico. Hoje descubro: austríaco, como vários outros que davam a Viena o peso de Viena. Tanto austríaco, gente. Wittgenstein criança na escola junto com Hitler. Schönberg fugido da Europa, nos Estados Unidos, vizinho de Gershiwn, os dois se disputando em partidas de tênis… ai ai.
Nada como a leitura de umas páginas de Wikipédia.
NÃO CONSIGO SER FIEL
a séries, mesmo sendo ótimas, mesmo tendo todos os episódios ao alcance da mão.

Flight of the Conchords foi uma referência perdida que eu recuperei faz um mês. A coisa mais engraçada e modestamente bem feita dos últimos tempos – não só a série, mas as músicas, feitas antes da série, e o documentário dos neozelandeses num festival de música. Esqueci de assistir os episódios a partir do último da primeira temporada. Só a Karen é que me lembra de assistir.
Ainda preciso pensar (ou achar) a explicação para o nome da banda. Tenho uma hipótese, mas preciso conhecer mais sobre aviação.

Tudo o que é sólido pode derreter é um sopro renovador na dramaturgia da tevê cultura. Depois de “O Mundo da Lua” e “Confissões de adolescente”, o que tinha sido feito no gênero, para adolescentes? Não lembro de nada.
Os caras de “tapa na pantera” provaram que sabem fazer mais do que um “sucesso do youtube”, e estão trazendo leituras apaixonantes dos nossos “clássicos da literatura”, e acho que sem cair na reconstituição ou na explicação facilitada para vestibulandos. Mesmo. E engraçado ver um ex-colega das aulas de sintaxe na Letras fazendo o pai da protagonista…
Nada como a postagem de séries da televisão na internet.
MAIS UMA VEZ INDO

pra Argentina, Buenos Aires.
Passamos em frente à Casa Rosada, resolvemos entrar. Lá, nos quatro cantos havia terraços de onde se podia ter uma linda visão da cidade em movimento. Tempo agradável.
No meio da casa, numa sala que parecia um “saguão principal”, havia uma lojinha de jóias e coisas hiper caras. Ficamos olhando de longe.
De repente, eu trabalhava na Casa Rosada. E a cada cinco minutos eu era promovida a chege de diferentes gabinetes.
Voltando ao saguão, seguram a porta para mim Serra e Kassab, que tentam puxar papo comigo.
Aí eu percebi que já era hora de acordar.
TEM SIDO RECORRENTE
sonhos feitos de encontros. Grandes grupos de gente, reuniões, cumprimentos, conversas. Pessoas que não vejo faz tempo, gente que vejo na rua mas fico com vergonha de cumprimentar porque muito tempo atrás eu não respondi um email por vergonha igualmente ou por medo de não ter papo.
Pessoas da televisão, semi-stars ou atrizes de novela.
Os lugares são bem amplos, há cadeira para todo mundo nos jantares dos sonhos.
Um dos sonhos desta noite foi o contato com um grupo de kung fu que realizava aulas num cemitério em Pinheiros. O cemitério todo lindinho, colorido, mármore e azulejo, vasos de flores.
O grupo de kung fu praticando em meio aos enterros.
Fui conhecer os praticantes dessa modalidade única de luta marcial. Me lembrei da Uma Thurman.
Isso porque, é óbvio, ela protagoniza Kill Bill.
Isso porque vimos faz umas semanas um curta estrelado por Selton Mello e Seu Jorge, Tarantino’s mind, dedicado às inúmeras correspondências entre os filmes de Tarantino. Coisa ou outra vai-se misturando, algumas referências eles forçaram, mas é simpático. O que o filme relevou a mim mesma é que Mia e a Beatrix Kiddo se comunicam por meio dos pés.
Não que isso seja algo que eu faça, mas fui influenciada pela cena em que Mia vira os pés, e isso é algo que eu faço com certa frequência.
Procurando a cena dos pés, e não achando, me deparei com uma série de filmes editados em cinco segundos, dos quais Kill Bill é um dos melhores.
Comi cachorro quente de soja hoje à noite, depois de ver Sinédoque, Nova Iorque.
Salsicha é sempre ruim, mesmo de soja.


