SEIS ANOS ATRÁS

encontrei, seguidas vezes, um velhinho no cinema — uma vez no belas artes, depois no antigo unibanco; até no ponto de ônibus na frente do MIS, voltando para casa (já escrevi sobre ele rapidamente, naquela época).

Ele vestia camisa e paletó, apoiava o corpo pesado com uma bengala. Movimentava-se lento e não sem alguma dificuldade. A fala era pausada.

Conversamos essas vezes. Ele comentava um pouco de tudo: a melhor cor de roupa para proteger-se dos raios solares era azul marinho, por exemplo. No MIS ele foi acompanhar o festival de filmes de surf, o que nos pareceu bem inusitado para o gosto de um senhor idoso.

Sobretudo, falamos de literatura. Ele tinha feito Letras como eu, na FFLCH. Disse a ele que estava começando a fazer o mestrado. Recebi dele uma das dicas mais valiosas:

— Escreva todos os dias; um pouquinho que seja. Pratique a escrita como se pratica um esporte. Assim vai ser mais fácil enfrentar o processo de construir a dissertação.

Com isso em mente, voltei a escrever com mais regularidade, sobre coisas corriqueiras, sonhos, filmes, livros, músicas. Seis anos atrás abri o ovonovo, este blog aqui, deixando o colher, que também me acompanhou tanto tempo. Tanto num blog como no outro, há fases de pausa, como momentos de atividade intensa.

Captura de Tela 2015-01-18 às 22.34.06essa era a carinha do colher no começo

Releio os posts e me surpreendo, me redescubro. Me deparo com verdadeiros lembretes que escrevi para mim mesma no futuro.

São inúmeros os pequenos encontros nesse caminhar da vida: volto o olhar para trás muito grata e feliz por todos eles; por terem me trazido aqui e agora.

VOCÊ É MINHA MÃE?, DE ALISON BECHDEL

é uma graphic novel autobiográfica, da qual tinha ouvido alguns bons comentários — sabia que era uma espécie de sequência ou lado b de Fun home.

Na verdade, Fun home se concentra sobre a figura do pai de Alison, falecido, provavelmente teria se jogado na frente de um caminhão, na beira da estrada. Teria ele cometido suicídio por não conseguir assumir sua homossexualidade? — essa é uma das perguntas que Alison, assumidamente lésbica, lança em sua narrativa. Já Você é minha mãe? se concentra na figura materna, principalmente ao longo do processo de criação da HQ sobre seu marido. De toda forma, minha intenção não é resumir as intrigas dos dois livros, mas apenas assinalar que as duas leituras se complementam e ajudam a entender uma a outra. É até interessante perceber os tons de cores usados: Fun home é colorido de azul, enquanto que Você é minha mãe? tem tons de vermelho e rosa — o que faz pensar na polaridade rosa e azul, para distinguir os sexos feminino e masculino. Não sei se foi intencional da parte da autora…

Comprei Você é minha mãe? no natal de 2013 e fui lendo no começo do ano seguinte. Junto com outros livros, a história de Alison me tocou e ajudou a rever melhor a minha própria.

A narrativa é muito intrincada, repleta de idas e vindas no tempo, referências literárias e psicanalíticas. Acompanhar o fio do raciocínio de Alison é como tentar refazer um novelo de lã cheio de nós e remendos. O livro está divido em capítulos: cada um inicia com um sonho de Alison — e o que se segue é uma tentativa de interpretação, recorrendo às sessões de terapia, conversas com a mãe, suas namoradas e sobretudo suas lembranças da infância.

Uma delas me chamou a atenção:

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Não tenho nenhuma lembrança parecida, mas essa polaridade entre corpo e mente que Alison viveu me soou muito familiar. Aquela célebre frase do Pequeno príncipe — “o essencial é invisível aos olhos” — era um tipo de lema. O corpo, esquecido, carregava o peso de uma mente que se enchia de conhecimento. Só agora, tantos anos depois, reconheço esse desequilíbrio, que venho tentando consertar. “Eu” deixei um pedaço de mim esquecido, de lado. Uma hora ou outra é necessário recuperar o que ficou na sombra.

E por falar em sombra, a leitura da Alison ecoa muitas coisas dos livros de Laura Gutman, por mais que os temas pareçam, à primeira vista, distantes. Há muitos pontos de intersecção. Um deles é Winicott, uma das leituras principais de Alison durante seu tratamento psicanalítico. E, mesmo sem o citar, Winicott é também uma das fontes do trabalho de Gutman.

Pela mesma razão, é possível fazer uma leitura num duplo ponto de vista: acompanhando Alison e sua busca autobiográfica, revendo momentos da infância — e também dando atenção à sua mãe e suas dificuldades na criação de sua primeira filha.

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As barreiras sociais, palpites e regras dificultaram a maternagem que Alison recebeu. Tudo isso é tratado de maneira muito delicada e respeitosa. Alison mantém contato com a mãe, expõe seu trabalho e espera dela sua opinião, um retorno. Observar essa relação também me fez pensar muito em mim mesma — tanto na filha como na mãe que eu sou.

EU QUERIA PIPOCA DOCE

daquelas de canjica; elas vinham num saco de plástico rosa; uma marca, chamada “Rock”, trazia desenhos de instrumentos musicais na embalagem.

Estávamos passeando na rua. Era fim de tarde, um domingo? Não sei onde tínhamos ido. Mas talvez meus pais estivessem bem cansados, pra lá e pra cá de ônibus com as três crianças. Eu era a maior e por isso deveria me comportar e dar menos trabalho.

Mas eu queria um saco de pipoca. E meus pais disseram: — não. Pode ser que não fosse hora de comer doce, que o dinheiro estivesse contado. Nada disso me interessava: eu queria um saco de pipoca. Pipoca doce. De canjica. Marca “Rock”.

Fonte da imagem: aqui

Não, não e não. Insisti. Chorei. Gritei. Fiz birra. Queria pipoca. Queria porque queria. Não ter a pipoca parecia o fim do mundo.

Meus pais finalmente cederam. Encontraram um camelô pela rua, que vendia as pipocas, penduradas. Me deram o saco de plástico rosa com os instrumentos musicais.

Tão logo abri a embalagem, perdi a vontade de comer a pipoca. Ela se evaporou no ar. Não queria pipoca doce. Devolvi o saco aos meus pais, que devem ter ficado furiosos. E eu, tão triste como antes.

Eu não queria pipoca doce.

UMA LISTA DE DESEJOS PARA 2015

era a ideia para o primeiro post do ano. Depois de ter relembrado o fim do ano retrasado e passado em revista 2014, parecia interessante lançar o olhar para frente e traçar planos e projetinhos para o futuro.

Eu já tinha começado a fazer um rascunho, criado o post no blog… mas eis que a leitura de “Deixa sair”, de Sonia Hirsch, me indicou algo muito pertinente.

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Essa questão do apego reapareceu em outra leitura que fiz em seguida, “A doença como caminho”.

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Os dois livros possuem temas bem parecidos — cuidar do corpo é também cuidar da alma; nossa realidade é construída num ritmo binário: fora e dentro, inspirar e expirar, entrar e sair. A cabeça ainda está cheia de ideias, insights e analogias… e os desejos ficaram de lado.

Assim, esse post é um não-post. Era para ser uma lista de desejos. Mas acabou virando um desejo só: de poder abraçar e aceitar este ano que começa com tudo o que ele terá a oferecer.

FAZER UM BALANÇO DE 2014

me pareceu uma boa ideia. Muita coisa aconteceu e é interessante organizar os fatos, para então traçar planos para o ano que está chegando.

De uma certa forma, esse balanço já começou no post anterior. No final de 2013 eu coloquei como meta procurar algum tratamento alternativo — para cuidar tanto do corpo como da mente. Como presentes de natal, comprei para mim “Comunicação não-violenta” (de Marshal Rosenberg), “Você é minha mãe?” (quadrinho da Alison Bechdel) e “Mulheres visíveis, mães invisíveis” (da Laura Gutman). Essas três leituras se relacionam entre si, não por acaso, com o momento que estava passando. Vale posts para cada um deles, brevemente.

Em fevereiro, Francisco completou seis meses e começou a comer, por blw, provando as primeiras frutas e legumes. Em paralelo, tirei da minha alimentação açúcar refinado, glúten e quase todos os laticínios. Acredito que, como consequência do tratamento, me dei conta de que estava bebendo água de maneira compulsiva. Só agora no final do ano relaciono a sede excessiva ao consumo do glúten. Os produtos com farinha me pesam no estômago e são difíceis de digerir — o que me dá dor de cabeça e sensação de boca seca. Essa é como meu corpo reage; cada pessoa assimila os alimentos à sua maneira.

O ano passou testando, pesquisando e provando alimentos novos, predominantemente de origem vegetal — mas sem aderir ao veganismo estrito. Na cozinha, preparei coisas que não deram tão certo, mas também delícias como um purê de inhame, temperado com shoyu e cebolinha (inspirei-me aqui).

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Crochê e tricô ficaram meio de lado. O tempo ficou mais curto.

Francisco mal engatinhava no começo do ano; viajou pela primeira vez com 11 meses; deu os primeiros passos sozinho aos 13 meses e agora aos 16 já fala suas primeiras palavrinhas: água, flor, túnel, mamãe, papai, nonna, vovó, cocô, inhame, não, tá bom, tó…

Tem umas semanas que passeamos com um triciclo. Até então, era somente sling ou colo. Ele está maior, mais pesado — mas, principalmente, quer novidade. E se diverte à beça com o triciclo. Quando cansa, vem pro sling.

Tudo flui, está em movimento — de janeiro pra cá, foram tantas pequenas mudanças e descobertas que não caberiam aqui. Termino este ano muito feliz, aceitando a vida com suas passagens, perdas e aprendizados.

UM ANO ATRÁS, EM DEZEMBRO

estava rascunhando o relato de parto; o texto ia crescendo e ficou tão longo que o dividi em partes; elaborei uma série de posts; escolhi dia 21 de dezembro para começar a publicá-los no blog; reiniciaria, assim, a escrever nele, depois de um bom tempo parado.

O Francisco estava começando a se virar deitado; fazia uns sons gostosos, risadas e gritinho agudos; salivava muito; levava os dedos à boca, tanto os dele como os nossos; estranhava as pessoas; teve seu primeiro resfriadinho, que sarou com difusor de óleo essencial de eucalipto, peito, carinho e mais nada; dormia no meu colo enquanto eu fazia uma colcha de crochê ou lia algum livro; as cólicas dos três meses já tinham cessado; passamos pela consulta dos quatro meses, a partir da qual decidimos mudar de pediatra; pequeno, eu passeava com ele amarradinho no sling wrap, sentindo o corpo dele junto ao meu.

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Lá pelos dias de natal e ano novo, disse ao Marco: – preciso de ajuda; uma terapia, tratamento, alguma coisa. 2014 começou meio duro. Era como se eu tivesse perdido as chaves mas estava procurando no lugar errado; o mundo me parecia áspero demais… Meus pés doíam e a cabeça pesava. Precisava de alguma mudança.

Fui atrás. Encontrei livros e pessoas. Essas pessoas e livros me levaram a encontrar outras pessoas e outros livros. Sem elas, não sei o que teria sido deste ano. Sou muito grata pelos encontros e trocas, dentre as quais conto com a atividade do blog. Definitivamente, faz parte da minha terapia — um “cuidar de mim”, um meio de pensar o que vivo, de transmitir e receber coisas boas. Que bom.

AS CÓLICAS DE BEBÊ

surgem nos primeiros dias de vida e vão até aproximadamente três meses. Não são uma regra: há bebês sem esse tipo de problema.

A cólica não tem uma explicação aparente, precisa ou “científica” — ao que tudo indica, acontece somente em nossa cultura ocidental. Há quem compare à dor de parto — o que dá um aspecto interessante, ao meu ver. A criança, em sua transição para o nosso mundo, precisa aprender a digerir as impressões que recebe. E esse processo pode causar dor, incômodo e desconforto.

Muitas vezes essa cólica é percebida como um choro inconsolável, que acontece nos fins de tarde. Passado quase todo o dia, o bebê chega a um ponto de estresse difícil de acalmar.

Não era esse o caso do Francisco. Tivemos um outro quadro aqui em casa: pela manhã, lá pelas 7 horas, quando o Marco saía para trabalhar, o Francisco começava se contorcer e gemer. Eram chorinhos curtos, seguidos de um tempinho de calma. Depois de uma pausa, a cólica voltava. Isso continuava até que ele conseguisse fazer cocô.

fonte: http://pt.wikihow.com/Segurar-um-Bebê

De que maneira lidamos com essa cólica? Primeiro, decidimos colocá-lo ao nosso lado na cama. Ao manifestar desconforto, oferecia o peito. Sugando, muitos bebês se acalmam. Caso ele já estivesse satisfeito e não mamasse, colocava uma bolsinha de sementes quente. Sempre a deixava pronta toda manhã cedinho. Quando o Marco estava em casa, ele o pegava no colo, deitado com a barriguinha apoiada no antebraço. Aliás, essa era uma posição muito gostosa para carregar o Francisco nos primeiros meses, independente da cólica.

Também fazia shantala, caprichando nas perninhas. Eu as movimentava como se ele estivesse pedalando uma bicicleta. Controlei minha alimentação, evitando alimentos pesados. Tomava chá de erva-doce e camomila (não é aconselhável dar esses chás diretamente aos bebês, pois podem complicar ainda mais a digestão deles).

Por volta dos três meses, a cólica foi rareando, até desaparecer por completo. Nenhum remédio (por mais que palpitassem ao nosso redor), muito carinho, proximidade corporal, colo, peito e paciência — assim enfrentamos essa primeira etapa da assimilação e digestão da nova vida que estava começando.

COLO E CAMA COMPARTILHADA

eram os assuntos de uma mensagem que recebi; a pessoa me perguntava alguns detalhes sobre o que havia escrito em alguns posts anteriores: quando exatamente o Francisco começou a dormir junto conosco e como protegemos a cama. Depois o papo enveredou para a questão do colo — porque muitos palpites circulam em torno disso. O senso comum defende que colo é desnecessário, ou que até mesmo deixa a criança mal-acostumada. Como lidar e enfrentar esse tipo de comentário?

Foi uma outra troca de mensagens enriquecedora. Por isso até vale publicar aqui, como já fiz outras vezes.

Olá!
Já na casa de parto, nas primeiras noites, o Francisco dormiu na nossa cama. Lá elas tinham organizado umas almofadinhas que o protegiam; achamos melhor ele dormir conosco do que no berço, que era distante.
Em nossa casa, o berço era colado com a cama, mas já com três semanas de vida ele dormiu definitivamente conosco. Ao mesmo tempo eu comecei a amamentar deitada. Antes eu tinha receio de machucá-lo… até que ouvi de uma consultora que as mães tem o instinto de não se moverem tanto quando dormem ao lado do bebê. E não é verdade? Nunca aconteceu conosco de encostar ou me virar sobre o Francisco.
É necessário proteger os lados da cama. A nossa já era encostada numa parede. Do outro lado o berço protegia. A cabeceira encostamos numa estante. Hoje em dia ainda continuamos a cobrir três dos lados da cama — ela está num dos cantos do quarto, isto é, dois lados estão na parede, e do outro lado encostamos uma cômoda. Assim, só a parte dos pés é livre. Aos dez meses o Francisco aprendeu como descer da cama, de costas, sem se machucar. Aconteceu só duas vezes de ele cair… ele estava dormindo e eu não estava por perto. Mesmo assim não foi nada grave. Há outros bebês que caem de camas e sofás mesmo sem dormir lá; e bebês que pulam inclusive do berço!

Aquelas almofadas de gestação, em forma de U, são muito boas; há modelos menores para bebês. Usávamos muito, quando o Francisco era bem pequeno, para apoiá-lo ao dormir de lado. Assim também havia uma barreira entre ele e nós.
No fim das contas teu filho perceberá a tua presença na cama e pode ser que ele vá querendo se mover na direção do teu peito, ehehe, isso aconteceu com a gente nos primeiros meses! Espero ter respondido tua pergunta, qualquer coisa escreva.

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trecho de “A doença como linguagem da alma na criança”, de Rüdiger Dalhke e Vera Kaeseman, que encontrei dias depois de ter escrito essas mensagens

[mensagem seguinte, sobre o colo]

Imagina como o teu filho estava dentro da barriga: 9 meses de aconchego total. Todo bebê precisa de uma transição que não seja abrupta. As pessoas vão falar de tudo: fazer o quê? É o preço das nossas escolhas… O Marco e eu vemos o resultado de tanta proximidade corporal: Francisco nunca esteve doente, exceto resfriadinhos, quase sempre alegre e muito sociável. Como você mesma me conta, eu também não tinha tempo nem pra ir ao banheiro. É assim, uma dedicação intensa nesses primeiros meses. Posso dizer que vale a pena! Esse tempo passa e não volta mais…

Você o coloca no sling? Ajuda muito, tanto fora como dentro de casa. Teu filho fica gostoso e pertinho do teu corpo e você pode passear, cozinhar, ler…

Algumas pessoas exageram em seus comentários sobre colo. Não é que ele estará o tempo todo grudado em você, mas ele é tão pequeno ainda! Além disso, bebês passam por fases em que precisam de mais peito e colo — e outras em que ele dormirá e brincará sozinho numa boa. O bom é dosar, equilibrar: escutar o coração sem ligar para o que os outros acham.

Ou seja: independente de qualquer conselho que eu mesma e outras pessoas possam te dar, o importante é vocês dois, teu marido e você, escutarem a si mesmos. Pode até ser difícil, mas vale pelo esforço em se autodescobrir: que mãe e pai somos nós? Que mãe e pai queremos ser?

QUANDO EU OUVIA FALAR EM VEGANISMO

pensava que era escolha bela mas bem difícil: deixar de consumir qualquer produto de origem animal requer disciplina e controle. A maneira como criamos animais — as galinhas, vacas, porcos e peixes — em escala industrial é realmente cruel. Nesse sentido, o veganismo é uma decisão louvável, de não participar dessa cadeia de produção tão negativa e danosa ao meio ambiente.

Mas será que conseguimos prescindir do proveito que tiramos dos animais? Você não pode comer qualquer coisinha sem verificar os ingredientes? O que eu observava em pessoas ao redor que se tornavam veganas: muitas delas acabavam por se isolar — frequentando lanchonetes e restaurantes veganos, em companhia de amigxs também veganxs…  Comer é um ato social, e o veganismo me parecia um tanto extremo. E a decisão seria antes por questões éticas do que de saúde. Isso porque observava que a dieta vegana não seria necessariamente saudável.

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Lembro muito bem quando tomei a decisão de não comer mais carne, no começo de 2007. Comi uma esfiha de frango e passei mal. Minha digestão lenta e delicada foi o ponto central. Carne é pesada demais pra mim. Sem ela, sinto-me melhor. Minha exceção era peixe e frutos do mar. Por isso nem vegetariana eu poderia me considerar. Mesmo assim, muitas vezes, em refeições fora de casa, viajando, me via sem opções de comida.

O interesse por um boa alimentação cresceu desde aquela época. Mesmo assim, somente este ano tive uma mudança significativa na dieta. Até então, consumia muitos alimentos com farinha — mesmo sendo integrais, bolachinhas e barras de cereal atrapalharam minha saúde (mas isso rende tema para outro post).

Faz uns seis meses passei por uma consulta rápida com um terapeuta. Não segui tratamento com ele, mas aproveitei a dica que ele me deu. Tinha perguntado o que eu poderia fazer para manter uma vida mais saudável. Ele me responde: “siga uma dieta vegana. teu corpo não precisa tanto de proteína animal”.

A melhor maneira de comprovar se algo funciona é tentar. Como fazer para deixar de comer alimentos que fazem parte do cotidiano? Um conselho muito valioso encontrei aqui: primeiro introduzir outras opções no cardápio, antes de excluir. Fui aos poucos abandonando os alimentos de origem animal que eu ainda consumia: o mel, a manteiga, o queijo, leite de vaca já havia deixado há um tempo, iogurte deixei de lado. Os peixes, salmão que eu comia vez ou outra.

Pesquisei muito na internet. Encontrei blogs legais como esse, que dão o passo a passo das receitas. Criei um painel no pinterest para organizar ideias e pratos que eu fui aos poucos preparando.

Posso dizer que virei vegana? Não. Vez ou outra eu passo um pouco de manteiga no biscoito de arroz, ou uso molho pesto com parmesão. Se estou na casa de alguém, convidada a comer, não pergunto se a pessoa colocou creme de leite no prato que estou comendo. Abro essas exceções.

Além disso, o Marco come de tudo, carne inclusive. É normal que no almoço eu prepare uma omelete, caso ele queira. Não tenho como restringir a dieta de outra pessoa. Nem mesmo do Francisco. Se ele se interessa por um por um pedaço de queijo, come.

Uma amiga, certo dia durante uma conversa, falou da dieta do tipo sanguíneo. E não é que fez muito sentido pra mim? Sou tipo A, que justamente não consegue assimilar bem os produtos de origem animal. Seguindo esse ponto de vista, há ainda pessoas que precisam muito da proteína animal, enquanto que a outras convém um consumo moderado.

Há argumentos mil, pró e contra vegetarianismo e veganismo. Eu gostaria de conhecer mais a macrobiótica. Li um livro sobre crudivorismo, muito interessante, sobre o qual escreverei em breve um post. Fala-se muito da dieta paleolítica, que defende o consumo de carnes. Enfim, a discussão não termina. Penso que cada pessoa pode ir observando as reações do corpo ao alimentar-se. E a partir daí ir construindo sua própria maneira de comer — que é também uma forma de relacionar com o mundo e com a gente ao redor.

MIX DE FRUTAS

no liquidificador: fazemos todo dia em casa. Para mim, é um dos principais substitutos ao pão do café da manhã ou as bolachas do lanche da tarde. Como um mix tem muitos ingredientes diferentes, não dei logo de cara pro Francisco. Depois de alguns meses, aos poucos, comecei a oferecer pra ele.

Muita gente opta por suco de fruta. Nós aqui fazíamos muito suco de laranja, mexerica. É muito gostoso, mas tem o inconveniente de ter muito açúcar e pouca fibra. Ou seja, suco coado não é uma coisa para se tomar sempre, todo dia, nem para bebês nem para adultos.

Meio como cremes ou smoothies, mix são parecidos com papinhas. Também preparo algumas; amasso abacate e misturo com banana, pêra e leite de arroz no garfo, vai virando meio líquido. Já preparei inclusive papas quentes, tipo mingau — como essa receita aqui. Mas não gostamos tanto… ainda preferimos os mix.

Tem uma infinidade de combinações possíveis. Um que faço bastante leva banana congelada, leite de coco, pedaços de manga. Outro exemplo: ameixa seca de molho num copo de água durante a noite com semente de girassol e coco ralado. O importante é que tenha alguma fibra junto com o açúcar das frutas.

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Por aí afora, há mil e uma receitas de creminhos-smoothies-mix — além de sucos verdes, coisa que eu preciso pegar o jeito de fazer. Logo, sei que não estou inventando a roda com as minhas misturas. De toda forma, acho legal compartilhar, neste post, os ingredientes que já bati no liquidificador.

Frutas frescas — muitas delas podem ser congeladas, o que ajuda a dar a consistência cremosa: banana, manga, mamão, abacaxi, abacate, morango, framboesa, mirtilo são ótimas.

Frutas secas — o interessante é deixá-las de molho num copo de água durante a noite; aí elas ficarão molinhas e hidratadas. De manhã, colocar no liquidificador as frutas junto com a água. Ameixa seca é uma ótima fruta para soltar o intestino. Usei muito durante umas semanas em que o Francisco ficou com dificuldade de fazer cocô — o que é comum na introdução alimentar. Além da ameixa seca, uso muito tâmaras, mas também manga seca.

Nozes, castanhas, avelãs — elas também precisam ficar de molho para hidratar. Aliás, é mais ou menos assim que se faz leite vegetal (aqui e aqui algumas possibilidades).

Água, leite de coco — ou um leite vegetal.

Linhaça — o segredo da linhaça é que ela ajuda na consistência gelatinosa. Basta deixar a linhaça num potinho com água dentro da geladeira. Por sinal, é um bom substituto para ovo em receitas. Isso sem falar nos benefícios nutricionais.

Diversos — qualquer coisa que combine com as outras coisinhas acima: gergelim, amaranto em flocos, coco ralado, cardamomo (combina com manga e banana, como no lassi indiano), canela, noz moscada. Depois de batido, tem vezes que misturo com esse creme de arroz molhado; fica ótimo.

Um bom liquidificador, potente e se possível com copo de vidro e modos para picar gelo e fazer smoothies.

Potinhos, colheres a postos e bom apetite!