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SE VOCÊ ESCREVE

– é porque sente falta de algo e acredita que, escrevendo, as linhas se acumulando, essa falta fica escondida entre as letras. Elas te serviriam como uma defesa: você gostaria de ser protegido pelas suas palavras.

– você precisa escutar com generosidade o que as tuas palavras te dizem; e esse esforço nunca será suficiente.

– é porque viu algo escrito antes de você, coisa do mundo que você quer para si também, você sabe; e o mundo não é você, nem eu. Não passamos de um acidente, peças do acaso; o mundo continua a girar, escrevendo ou não.

ANDAVA DE BICICLETA

no shopping. Outras poucas pessoas também. Era estranho, as famílias olhavam com cara feira na praça de alimentação. Eu mesma não achava prático. Queria comer, fui num quilo, com um buffet comprido. Muitas opções de comida. Algumas com indicação, outras coisas eram um mistério, escondidas sob o molho.

Tinha carne de bisão. Peguei, seguindo minha regra de comer carnes que ainda não comi. Pensei em escrever um sms avisando mais alguém que poderia se interessar.

Entre as bebidas, leites de diferentes mamíferos. Pensei em ‘Tigermilk’, do Belle and Sebastian.

O buffet não terminava, mais comida se enfileirava, a balança muito longe ainda. O meu prato no entanto diminuía de tamanho, ficava cada vez menor para a comida que eu já tinha escolhido.

A MOÇA PARECIDA

com a Ellen Page apareceu num sonho. Ela organizava uma campanha na escola, para ajudar a reorganizar o acervo da biblioteca. Decidiu com uns colegas realizar um grande evento e arrecadar dinheiro. Eu estava lá no dia, com minhas amigas bibliotecárias. Ellen Page conseguiu convidar a Gisele Bündchen que, descobríamos quando ela chegou à escola, tinha estudado biblioteconomia em paralelo à carreira de modelo.

O ASSUNTO ERA EU

e meus pais recordaram juntos de uma historinha.

Estávamos no consultório médico, otorrino provavelmente. O médico deixou o estetoscópio na mesa, eu o peguei e aproximei da boca. Ele me perguntou: – O que você quer fazer com isso, mocinha?

Disse: – Quero ver o que eu tenho por dentro, minha goela.

Fui chamada de curiosa.

Lembro disso, e também tinha outra versão, que minha mãe não conseguiu confirmar. Assim: na hora em que o médico pegou o palito de madeira para ver as amídalas, perguntei a ele: – Você quer ver minha goela?

A palavra goela, muito usada em casa, minha mãe corrigiu: – Não é goela, Ana Amelia; é garganta que se fala.

Goela (e gueule, em francês) rendem uma explicação no dicionário, em breve quem sabe.

ME VEJO NA RUA

sem roupa nenhuma. O que aconteceu antes no sonho, desconheço. Estou na Augusta, na parte mais movimentada, depois da Antônia de Queirós. É noite. Não estou sozinha. Uma outra pessoa me acompanha, também sem roupa. A mínima ideia de quem seja: uma mistura de amigos e desconhecidos, gente que mora perto e longe, personagem de histórias.

Sonho-padrão, como perda de dentes, queda em buraco, morte. Não estava com vergonha em meio à movimentação da Augusta. Talvez estivesse realizando um desejo-padrão também: ficar invisível.

HOJE NADJA DISSE

– você vai me ler. – tá bem, eu disse; tirei-a da estante.

Anos já eu olho para essa capa:

E fui de mãos dadas com ela que, como a André, me deixou uma pequena certeza: todos os livros devem ser como Nadja. Uma porta, um passeio entre pequenas e ricas coincidências: outubro, mãos e luvas, encontros marcados que não acontecem, acasos e enigmas que se acumulam. 10 de outubro Nadja disse a André: “tudo enfraquece, tudo desaparece. De nós alguma coisa deve permanecer”. Como, se mesmo a cidade já mudou de paisagem?

Não sou eu quem vai meditar sobre o que advém da “forma de uma cidade”, nem mesmo da verdadeira cidade, alheia e abstrata, daquela em que moro, por força de um elemento que seria para a minha mente o que o ar é para a vida. Sem nenhum arrependimento, agora a vejo tornar-se diferente e até fugir. Resvala, se incendeia, afunda no redemoinho de suas barricadas, no sonho das cortinas de seus quartos, onde um homem e uma mulher continuarão a se amar indiferentes.

Assim, num livro, as histórias não se apagam; são apenas outros começos.

O QUE SURPREENDEU

num filme do qual eu pouco criei expectativa?

A trilha sonora. Desde os créditos iniciais, aparecendo entre imagens de Manhattan ensolarada, a voz de David Byrne já garantia uma parte das boas sensações do filme. E não foram muitas mais, além do que Byrne e Brian Eno trouxeram com suas músicas.

Assim, o filme dura mais do que o que vi na sala – e de outro jeito, ouvindo e reouvindo a trilha.

PASSA NA LIVRARIA

era o que eu me dizia desde o começo do dia. Passa lá, vai ler quadrinhos! Fui, pensando num livro. Chegando lá vi outro:

Peguei na hora. Elefante. Memória. Memória de elefante, Caeto. Contracapa: “graphic novel autobiográfica”, “David B.”… pronto, não deu outra. Sentei para ler.

Já disse algumas vezes que a autobiografia é que me acha, mesmo eu sem procurar. Por ora, adorando: pelas durezas, pelo andamento que não é épico mas traz o cotidiano nas pequenas coisas, a vida entre livros lidos e não lidos, as esquinas por onde eu também passo, o preto-e-branco, nos grandes problemas que parecem tomar conta das nossas vidas. E que nos levam sempre a mais outras coisas.