da pele da minha mãe, de creme talvez, mas que ficava bem só nela, eu procurava o braço dela quando menos esperava; do corredor do apartamento na Barão de Tatuí, que eu acreditava vir do lustre, de vidro fosco e contorno verde-água; dos biscoitos dentro da lata marrom, com flores amarelas; dos ares dos lugares: cada lugar, um cheiro diferente; o cheiro de bicho (um mamífero, sabe-se lá qual) nadando num rio; de funghi, que a moça da zona cerealista acha nojento; cheiro de chuva; cheiros dos livros novos no começo do ano; da fita 3M para os livros da biblioteca; de vinil novo, no plástico.
Categoria: corpo
ESTENDE A MÃO

JÁ PENSARAM
que eu era bailarina, por conta dos meus pés; que eu era arquiteta, pela minha letra; que eu tinha uma banda, porque falava muito de música durante as aulas; que eu me chamava Cristina ou Laís; que eu tinha nascido no interior, a família morava toda lá; que em São Paulo eu dividia um apartamento com meu irmão; que eu era carioca; do sul; chilena, árabe, italiana.
Já disseram que as mãos são de pianista, os dedos muito pra fora; que o nome é de personagem do Camilo Castelo Branco; o nariz mostrava minha origem grega; os pés, novamente, fenícios. Que os olhos têm íris exemplares; o jeito, de personagem de Jane Austen; ou Mafalda; que tenho tudo a ver com Talking Heads; que poderia ser adulta nos anos 80, comendo sempre no Frevinho, descendo a Augusta cantando Ná Ozetti.
– E não sou eu?
SE VOCÊ ESCREVE
– é porque sente falta de algo e acredita que, escrevendo, as linhas se acumulando, essa falta fica escondida entre as letras. Elas te serviriam como uma defesa: você gostaria de ser protegido pelas suas palavras.
– você precisa escutar com generosidade o que as tuas palavras te dizem; e esse esforço nunca será suficiente.
– é porque viu algo escrito antes de você, coisa do mundo que você quer para si também, você sabe; e o mundo não é você, nem eu. Não passamos de um acidente, peças do acaso; o mundo continua a girar, escrevendo ou não.
DAS POUCAS CERTEZAS
O ASSUNTO ERA EU
e meus pais recordaram juntos de uma historinha.
Estávamos no consultório médico, otorrino provavelmente. O médico deixou o estetoscópio na mesa, eu o peguei e aproximei da boca. Ele me perguntou: – O que você quer fazer com isso, mocinha?
Disse: – Quero ver o que eu tenho por dentro, minha goela.
Fui chamada de curiosa.
Lembro disso, e também tinha outra versão, que minha mãe não conseguiu confirmar. Assim: na hora em que o médico pegou o palito de madeira para ver as amídalas, perguntei a ele: – Você quer ver minha goela?
A palavra goela, muito usada em casa, minha mãe corrigiu: – Não é goela, Ana Amelia; é garganta que se fala.
Goela (e gueule, em francês) rendem uma explicação no dicionário, em breve quem sabe.
UMA OUTRA VONTADE
foi ter guardado a foto desse livro:
era leitura da faculdade, peça de Beaumarchais (ou O barbeiro de Sevilha ou As bodas de Fígaro, ou as duas, visto que uma é continuação da outra). O que a foto diz do enredo? Não sei mais, sei lá se eu sabia na época. A data da foto, diz aqui, é 15 de junho de 2006. Ficou só ela, tirada mais ou menos na mesma posição em que me encontro agora enquanto escrevo.
COISAS PEQUENAS
que vão aparecendo aqui e ali, sem ligação entre si e com mais nada além delas próprias:
- depois do sonho que tive na Polônia, achei uma cantora polonesa gracinha;
- semana passada experimentei de novo duas coisas que não gosto: quindim e água com gás; estavam ali à minha frente, me ofereceram, não me pareceram tão ruins, mas também não são coisas deliciosas;
- finalmente peguei a linha amarela do metrô; bonitinha; esperei o metrô longe do vidros da plataforma; eles me assustam mais do que a plataforma sem eles;
- fui ver Tropa de elite 2 e fiquei pensando talvez o óbvio: se o filme tivesse sido lançado antes do primeiro turno teria influenciado as discussões sobre os candidatos do legislativo?
- descobri por acaso também quem é o Fraga do Tropa 2. E fico com outra pergunta: o filme precisa dizer que é ficção?
INDO E VINDO, DE NOVO
tanto nos meus sonhos – de carro e a pé, junto com minha professora, dizíamos que qualquer caminho vale, que todos, por mais sinuosos e complicados que sejam, levam ao ponto de chegada. Subíamos de carro umas ruas arborizadas, cheias de casinhas, como se fosse ali pelo Pacaembu, mas com um ar mais hospitaleiro, não sei dizer. Chegávamos num ponto alto, um prédio antigo, janela ampla, festa no primeiro andar. – É uma festa de médicos, eu dizia.
como na vida – e indo e vindo, lá e cá, uma coisa vale pela outra: vale pelas pessoas e pelos abraços que dou e recebo, partindo e chegando.
A LUZ DA LUA
não era a única fonte; mas foi mais dela que vieram os novos traços azuis que eu via. Num ponto do passeio pelos limites do arame farpado, a cerca era baixa, um tronco caído facilitou a nossa passagem. Depois de histórias, ossos, circulação sanguínea, formigamento, veias, fraturas, hematomas, posição de dedos, mãos que se encontram, uma ferida me veio, voltando a atravessar a cerca. Estava olhando para o alto enquanto minha coxa direita ficou: quatro cortes seguidos, fundos, cada um com que doeram logo de início, sangraram, pintaram a outra coxa. A dor ainda se movimenta, sob a luz difusa de um sol que se esconde, cheia de calor querendo chuva, nos quatro traços preenchidos de vermelho, emoldurados de rosa. A vontade de que fique uma cicatriz.



