CADERNOS DE INFÂNCIA

já tem um lugar especial nas lembranças que ligo às leituras. Juntamente com seu tom ao mesmo tempo único e comum a outros maravilhosos memorialistas (observo uma mesma vista embaçada que se volta ao tempo de criança no campo, o espaço da casa, a réstia de luz que também percorrem a Infância de Graciliano e A idade viril de Leiris, construídos em fragmentos, em pequenos seixos), vivi com ele ou por conta dele uma terrível sensação de desmaio hoje, no ônibus.

Norah falava sobre a cicatriz de seu dedo, perdi a pressão, tive que fechar o livro rapidamente. A tempo consegui me sentar, uma senhora de aparelho dentário me ofereceu água de coco, um moço me deu uma barra de cereais.

O aperto frente à narrativa das feridas de infância, tão presente em outros textos igualmente belos e hipnotizantes, me tocou no corpo dessa vez.

A MIM TAMBÉM ME DÓI

foi a única coisa que escreveu, um dia, entre tantos desenhos. Durou pouco tempo, não mais que duas horas: logo a própria polícia veio apagar o muro. E foram apagados tantas outras vezes os traços que você fazia, que eu achava serem para mim. Traços de mim mesma, que com os meus desenhos procurava outros vazios, em outras línguas, imaginando que você fazia outros desenhos, saindo à noite logo em seguida para encontrar os meus. Grafites.

ERA PRA SER

um diário de viagem; anotações do que ia, um dia depois do outro, acontecendo. Para isso ele teria que ser feito a qualquer momento, tirado da bolsa tão logo se passasse algo digno de nota: um chiste, uma nova palavra, uma placa de um lugar já conhecido que se reconhece, depois de anos. Um caderninho de capa bonita, floral. Que chamasse a atenção de quem está ao lado: – nossa, que bonito! deixa ver? – não.

Um diário que fala de todos mas que ninguém sabe o que diz.

Mas foi um caderninho – como outros que tenho, de folhas que se soltam – que me acompanhou mais enquanto estava sozinha. Para eu não dormir sem cuidados.

FOLHEANDO UM LIVRO

percebi aquele alarme metálico que todos os livros das livrarias têm, um pouco diferentes dos alarmes magnéticos das bibliotecas – e semelhante aos alarmes de qualquer outro produto, da farmácia, da loja de departamentos, disfarçado de código de barras. Um elemento que não deve ser percebido, discreto, da cor do papel, ou no fim do livro ou colado entre as mesmas páginas em todo o acervo. Inativo quando o livro é nosso, se substitui à propriedade. Intermitente, o da biblioteca.

A imagem que me veio é a desses inúmeros campos magnéticos silenciosos, que não sabemos ao certo se estão dormindo somente, se ainda há neles uma força que os faz agir em meio às palavras do livro, aos princípios ativos do desodorante. Magnéticos como os dados que guardamos nos discos – e que se apagam com o tempo, sem garantia, sem razão.

Parece a minha inquietação com o ar que eu respirava dentro das catedrais francesas – ar com poderes.

A EXPLICAÇÃO

mais simples é geralmente a correta. Algo assim, aproximadamente, grosso modo.

Mas dentro dessa explicação surge um exemplo: como definir a cor do céu?

dizem:

É claro que o céu é azul, sabemos disso só de olhar para ele, mas de que tom de azul ele é exatamente? Qualquer um que já tenha se envolvido em uma discussão para ver se uma meia escura é preta ou azul-marinho consegue compreender a influência de nossa visão de mundo e como ela afeta nossas decisões.

O que eu vejo agora? Tudo sem nitidez. Mas como já disse Wittgenstein, às vezes precisamos justamente da imagem borrada. Ficar sem os óculos, resgardar-se, procurar um reduto, refúgio, lugar de uma fuga. Forno, casulo, geladeira, toca.

INDO E VINDO

do hospital semana passada, na primeira ida pensei: esse lugar que nos afasta da doença, da morte. Que coloca tudo num mesmo fundo branco, um mesmo cheiro que não é cheiro de nada: assepsia, silêncio, frieza.

E como era tudo num certo antes que não temos mais: dos partos às mortes, tudo acontecia aqui no quarto, ao lado, no contato. Agora, diagnósticos por imagem, e não vemos mais quem sofre.

Ainda voltei ali mais vezes; e voltando, recorri a  imagens de hospitais, de filmes – me veio logo Fale com ela, depois a maca de A vida secreta das palavras (e Srta. Cora do Cortázar), os sanatórios como em O sopro do coração, ou mesmo Um estranho no ninho -, os seriados – Plantão médico que eu via tanto na tevê, e o número considerável de séries médicas, já um gênero à parte.

A repetição: dos turnos de enfermeiros, a visita diária rápida da médica que tem tudo a dizer na ponta da língua, as refeições com sua montagem e disposição, trouxe um pouco do sociável, dosado de acolhida e distância.

Talvez por ter uma cama ali para mim, por eu ter levado livros, por ganhar um tantinho de comida. Por ter uma abertura, mesmo que mínima, de janela.

Talvez por eu poder reencontrar ali, em outro cenário, os mesmos personagens com quem convivo, num roteiro desconhecido. E viver outras cenas, falar outras palavras.

UM CABELEIREIRO CHINÊS

ficava numa casa amarelecida pelo tempo. Velhinho, contava com um assistente, que mais parecia seu chefe. Era um moço loiro, que pouco entendia de corte mas sabia administrar o negócio do chinês, sentado num balcão.
Fui cortar o cabelo com esse chinês. Não queria cortar o cabelo, quero deixar crescer, quero que ele fique bem longo. Eu estava lá mais para ouvir algum conselho desse velho sábio, que com poucas passadas de tesoura conseguia mudar a vida das pessoas.
Ele cortou meu cabelo seco, e ele parecia crespo, assim como ele era quando eu tinha uns 12 anos. Esse sonho me lembrou um corte de cabelo, num salão na rua Martim Francisco, que nem deve mais existir. A velha senhora cortou meu cabelo seco também. Sabe-se lá porque eu não estava sentada, mas de pé. Tive uma tontura, uma queda de pressão, quase ia desmaiar mas aguentei até o final. Meu cabelo ficou horrível, todo despontado. Minha mãe reclamou e nunca mais voltamos lá.
No sonho, o mestre chinês falou sobre a minha boca e a minha respiração.
Queria 38 reais pelo corte, eu tentei negociar, mas o moço loiro não deixava que se pagasse menos que isso.
Eu acabei abandonando o salão do velho chinês antes que o corte terminasse.

PARECE QUE DO NADA

uma vontade vem: de sair da mesa, pegar um livro. Tinha uma desculpa para isso: estava com uma dor nas costas.
E o livro parece muito mais convidativo. Lê-lo na cama, sem interrupção, até o fim. Por mais que haja a obrigação, a prioridade, dá muito gosto o desvio. Ou melhor, a bifurcação mesmo. O fato de haver as duas possibilidades: o sim e o não.
As coisas todas na agenda esperam o seu tempo.

DA ORTODONTIA

eu esperava a correção de um erro de posição dos articuladores do maxilar: atm, do qual pouco sei em teoria, mas talvez o necessário na prática. Erro aparente desde as primeiras fotos de infância, mas que era só um traço da fisionomia. No fim da adolescência, e anos depois desse fim, o erro começou a se mostrar doloroso. E insuportável. A solução foi tratar desssa dor e desses movimentos com outras dores e outros movimentos. Movimentos e dores estes com função de fazer pensar em atos cotidianos que podiam me passar despercebidos: a mastigação, o bocejar de manhã, morder um chocolate, dar uma aula. Tratamento que me leva a descobertas recentes: 1) o toque dos dentes não é necessário: somente em 17% do dia;  2) tenho força de 120kg/cm cúbico mas não tenho coragem de morder uma maçã. 3) a arte da conversa – dos dentistas – para o qual só podemos responder: – ah! – com a boca aberta.