O PARTO, COMO EU IMAGINAVA

seria na água. Gosto muito de água, acreditava que seria um bom meio de transição para x bebê. Assisti vários vídeos de partos em banheiras. Assegurei-me que poderia ter uma na casa de parto.

Também imaginava um trabalho de parto longo. Muitas contrações espaçadas; eu poderia dormir entre elas. Talvez durasse mais de um dia… estava pronta pra enfrentar uma maratona.

Levei umas garrafas de água de coco na mala. Queria tomar algo de gostoso e nutritivo durante o trabalho de parto; hidratar e dar um gostinho de coco àquele momento.

Pensava que iria chorar muito ao ver x bebê, assim como eu chorava lendo e vendo vídeos de parto.

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No fim das contas, Francisco nasceu na cama da sala de parto. Poderia ter sido de cócoras; mas na hora, improvisei ficar de quatro apoios — de acordo com o que sentia naquele momento. Nem foi possível cogitar a banheira porque chegamos na casa de parto com dilatação total e quase coroando. Tive contrações pouco espaçadas, não dormi. Foi muito rápido, tudo aconteceu em seis horas. Só comi uma banana durante esse tempo. A água de coco ficou lá esquecida na mala. Não chorei ao ver o Francisco; estava radiante de alegria. Fui chorar só dias depois, ao voltar pra casa e quando recebemos a certidão de nascimento.

Entre o planejado e a realidade, o mais importante foi ter-me preparado para o imprevisível.

AMAMENTAR, NO PRIMEIRO MÊS

é bem difícil: mas, se tudo correr bem nesse primeiro momento, você pode ter certeza que vai dar tudo certo daí pra frente — foi isso o que me disse uma consultora de amamentação, quando veio me visitar.

Escutar isso me deu muita força. Fazia uns dias, uma dor forte surgiu, no seio esquerdo. Logo depois, uma ferida foi se abrindo no mamilo. Estava triste e precisava de uma orientação.

Tudo o que eu quero é amamentar. Dava o peito, mesmo com a dor. O receio era a ferida piorar e eu ser levada a interromper a amamentação. Não queria nenhum substituto ao peito, que poderia levar ao desmame. O Francisco mamava muito e eu me perguntava se os seios resistiriam às longas mamadas.

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Primeira coisa: se apareceu alguma ferida, é porque a pega não está correta. Pois é, eu controlava tanto a pega no começo… mas tinha desencanado. Corrigir esse problema foi o primeiro passo.

Além disso, a consultora recomendou repouso ao máximo. O Marco se ocupou de grande parte das tarefas da casa. Amamentar deitada: ela me incentivou a essa posição, que eu achei ótima. Até então eu ficava sentada, o que me deixava bem cansada. Em suma, continuar firme na amamentação, em livre demanda.

Para cuidar da ferida, passar chá de sálvia, depois enxaguar. Ficava um bom tempo com os peitos de fora. Passava o próprio leite e deixava secar.

Mesmo assim, após alguns dias recorri àqueles bicos de silicone que protegem o mamilo durante a mamada. Não são recomendados, mas foi algo que ajudou durante um curto tempo, até a ferida fechar. O Francisco estranhava o bico, rejeitava, mas no fim mamava. Eu mesma não queria que ele se acostumasse, ainda bem que realmente ele preferia sugar direto o peito!

Também tentei bombear o leite com uma maquininha, mas não gostei da experiência. Pessoalmente, acho preferível a ordenha manual.

A ferida sarou, em poucas semanas. Estamos firmes e fortes no mamá, sempre que a gente quiser; felizes por termos superado um pequeno obstáculo em nossa estrada.

AMAMENTAR, NO COMEÇO

é algo absolutamente novo, num momento de transformação radical; talvez por isso também seja difícil, cansativo e desafiador. Já tive contato com várias histórias de amamentação — muitas delas trazem esse elemento de dificuldade.

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No que toca ao Francisco e a mim, posso dizer que enfrentamos alguns poucos obstáculos. Há sempre um controle do peso do bebê nos primeiros dias de vida. É normal que percam um pouco do peso inicial, mas não em demasia. Felizmente a perda de peso foi mínima depois dos três dias na casa de parto.

Logo que nasceu, o Francisco veio pro meu peito, mas não mamava. Dava uns suspiros e descansava. Almocei, dormimos e logo depois, hora do peito.

Sabia que a sucção estimula a produção de leite, que chegaria no dia seguinte. Naquele momento, saía colostro, super importante para o bebê. Eu o deixava mamar muito tempo… além do que me recomendaram. Diziam 20 minutos. Mas ele ficava no peito até eu cansar — ou ele cair realmente no sono e largar.

Sim, dar de mamar era cansativo; eu tinha dores nas costas e nos braços, suava como se estivesse fazendo fitness ou uma arte marcial. Lembrava das minhas primeiras aulas de kung fu… desajeitada e dolorida, mas bem feliz.

Tentei todo tipo de posição para amamentar. É bom ir variando mesmo. Era preciso ficar de olho em tudo: massagear os seios para não deixar empedrar; atentar para os mamilos; respirar com calma; não tensionar as costas; encontrar um apoio para as pernas…

Eu vivia um mar de sensações novas e além disso precisava guiar o Francisco: segurá-lo bem em meus braços, apoiar a cabeça, acertar a pega do seio, incentivá-lo a mamar. Às vezes parecia que ele buscava o seio em outra direção, meio perdido. Cabia a mim ter a calma e me antecipar ao choro — pois o choro é sinal tardio de fome. Eu observava muito seus movimentos para reconhecer a sua vontade de mamar. Até hoje, ele não é de chorar tanto. Busca o peito, se mexe bastante, fala mamama quando quer peito.

Os seios sofriam com o mamar. Para aliviar, ficava sempre que possível com os peitos de fora. Deixava uns 15 minutos tomando um sol. Descansava, dormia. Pomadas não são recomendadas, mesmo assim usei uma totalmente natural, durante um tempinho.

Quando o leite desceu e os peitos ficaram pesados e quentes, coloquei umas folhas de repolho branco geladas dentro do sutiã. Ufa, foi valiosa essa dica!

Depois da primeira semana, parecia que tudo estava indo bem. Eu apoiava os braços e o Francisco numa almofada de amamentação. Ele dormia, eu até aproveitava pra ler ou ver o noticiário. Mas eis que uma dor foi aparecendo no seio esquerdo… sobre isso falo no próximo post.

A MATERNIDADE E O ENCONTRO COM A PRÓPRIA SOMBRA, DE LAURA GUTMAN

é outro dos livros interessantes que descobri durante a gravidez. Estava lendo um relato de amamentação e lá encontrei a referência a ele. Fui atrás, encomendei, comecei logo a ler. Depois disso, em vários blogs, sites, relatos que eu acompanhava, via a mesma indicação de leitura.

Laura Gutman é uma best-seller. Tem um instituto em Buenos Aires, onde orienta famílias; muitos livros publicados; dá palestras, entrevistas. Em razão do sucesso de A martenidade…, ano passado, dois outros livros seus ganharam tradução para o português.

O livro parte de uma ideia muito elementar: a de que mãe e bebê vivem, nos primeiros momentos, uma relação fusional. O bebê vive no interior do corpo de sua mãe, durante a gestação. Mas, mesmo ao nascer, separado daquele corpo, a fusão ainda se mantém — falar de mãe ou de bebê é falar dos dois ao mesmo tempo.

Essa dimensão fusional é tratada em diversos escritos. Até mesmo em Shantala: a massagem conduz mãe e bebê a se descobrirem.

O bebê tem a capacidade de revelar à mãe sua sombra, ou seja, tudo aquilo que ela rejeita ou renega a respeito de si mesma. O pós-parto seria o momento-chave, durante o qual a mãe entra em contato com sentimentos contraditórios, inesperados.

Cabe à mãe colher a oportunidade de encontrar com sua própria sombra. Mas como a sombra dá medo — é obscura, misteriosa, pesada — muitas mães evitam esse processo de autodescoberta. Deixam a cargo da criança manifestar a sombra, das maneiras mais diversas: problemas na amamentação, doenças, desvios de comportamento, por aí vai… Em suma, qualquer interferência na relação fusional vai se manifestar, muito provavelmente, por meio do bebê.

Por esse ponto de vista, a autora comenta uma série de situações da maternidade: a gravidez, o parto, o papel do pai, a amamentação, a vida sexual, o sono, o nascimento de um segundo filho, a escola, o retorno à vida profissional…

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Outro ponto que me chamou muito a atenção durante a leitura: o bebê que temos nos braços se vincula ao bebê que também somos. Isso me encantou: acompanhar o Francisco me faz rever e renovar a criança que sou eu, que eu fui. Minha descoberta do papel de mãe envolve questionar como eu vivi minha infância, relembrar situações, buscar novos meios de me relacionar com o mundo.

Gutman também trata das doenças como manifestação da sombra — como uma mensagem que enviamos a nós mesmos. A mudança de alimentação pela qual estou passando faz parte desse meu esforço em entender melhor meu corpo e minhas necessidades (escrevi sobre isso aqui e aqui). Já me perguntei se a água que bebia em exagero não era algo que eu escondia de mim mesma.

Minha intenção neste post não é resumir o livro, até porque um post não dá conta disso, dada a variedade de temas que ela aborda. Escrevendo como fiz nos parágrafos acima, o livro pode parecer confuso, hermético. E não é. A escrita de Gutman é bem simples, sensível. Ela ilustra suas ideias com casos de mães, pais e filhos que ela atendeu em sua longa experiência como psicóloga.

O livro se dirige não somente a gestantes, mas a mães e pais de bebês, crianças pequenas, até mesmo adolescentes. Desde a gravidez, já o reli em vários momentos, discutindo sempre com o Marco.

Para finalizar, aponto dois aspectos que faltam ao livro. Primeiro: sinto falta de relatos autobiográficos. Gutman é mãe: como ela viveu sua autodescoberta? Ela se limita a descrever seus partos. Por que não fala mais sobre si? Segundo: em poucos momentos ela traz a referência às ideias que apresenta: Jung e Rüdiger Dahlke são alguns deles. Winicott parece ser um autor que a inspira mas ela não o cita. De qualquer maneira, o tema me interessa tanto que estou começando a ir atrás dessas leituras relacionadas. Assunto para outros posts…

OS ÚLTIMOS MESES DE GESTAÇÃO

foram tranquilos. A barriga foi aumentando de tamanho, pontuda. Por isso muitos dos palpites que circulavam entre nós era de que ali dentro tinha um menino. Além disso, as pessoas começaram a perguntar: — E aí, quando nasce? Reagia com muita calma. Há aquela pressão das 40 semanas, que não passam de uma estimativa para a duração da gravidez. Bebês saudáveis nascem antes ou mesmo depois dessa data, até em 42 semanas.

Desde junho, pelo ultrassom, vimos que x bebê já estava com a cabeça para baixo. Dava chutes fortes, principalmente quando eu estava deitada. Aliás, se no segundo trimestre me mexi pra caramba, esses meses finais voltou aquela vontade de deitar e dormir.

Mas e a dificuldade para dormir confortável com o barrigão? Deitar de costas, muito difícil. De lado era melhor. Mesmo assim, era preciso mudar de lado, esquerdo ou direito, frequentemente. De madrugada, vinha a fome e a vontade de fazer xixi. Em suma, o sono era picado, fragmentado. Entre 3 e 5 de manhã, muitas vezes estava lá eu acordada, pensando na vida. Pensando em todas as mudanças que a chegada dx bebê estava fazendo em nossas vidas.

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Sobre mudanças, foi só nesses meses finais que começamos realmente a nos equipar. Com o mínimo necessário: um berço, seminovo, que logo depois abandonamos (o Francisco dorme conosco na cama) e uma nova cômoda para as roupas. Já tinha alguns presentes e roupas usadas de amigos. Já tinha comprado também os slings. Organizei-me e fui comprar mais algumas roupinhas que faltavam para as primeiras semanas, aproveitando uma liquidação.

As aulas de ioga acabaram quando eu estava no fim do oitavo mês. Depois disso, fazia em casa, sozinha, alguns movimentos. Lia e relia Parto ativo. Assistia mil e um vídeos de parto. Acompanhava também relatos, de todos os tipos de experiência.

Concentrei-me bastante em informações sobre parto. Se pudesse mudar algo, teria ido atrás de mais conhecimento a respeito da amamentação. Pesquisei razoavelmente, mas muita coisa aprendi nas primeiras mamadas. Repensando hoje, até teria feito algum curso de amamentação antes de parir.

Estrias bem fortes apareceram. Desde o começo da gravidez passava óleo na barriga, mesmo assim ela cresceu tanto no final que a pele não resistiu. Isso varia de mulher pra mulher; eu tenho propensão a estrias, já esperava por elas… aos poucos estão apagando. De qualquer maneira, é interessante ver as estrias como uma recordação daquele momento da minha vida.

Os pés incharam pouco, mais nos dias de calor. Acredito que tomar suplemento de magnésio tenha ajudado. Além dele, também tomava outro multivitaminas específico para gestação e pós-parto.

Por volta das 32 semanas começamos a massagem perineal, quase diariamente. Valeu muito a pena, não tive nenhuma laceração na passagem do Francisco. Recomendo a toda gestante fazer a massagem, sozinha ou com ajuda dx parceirx.

Gostava de passear. Andava a passos curtos, por causa da barriga, que ia chamando cada vez mais atenção. É um tempo para curtir, porque passa rápido e já me dá saudades: sentir as mexidas lá dentro, o corpo diferente e bonito. Ah, sim, eu me sentia bonita demais!

barrigaoArrematei os quadradinhos da colcha de crochê bem no finalzinho. E o diário, trabalhei nele até o último dia de gestante! Por coincidência, também tirei fotos da barrigona menos de 24 horas antes do nascimento do Francisco.

As parteiras já tinham avisado para colocar um plástico cobrindo o colchão, para o caso de a bolsa estourar de madrugada. Dito e feito! Era por volta de 3h da manhã quando senti um ploc! e a água escorrendo. Sobre isso, já escrevi no relato de parto

BLW: BABY-LED WEANING

é uma expressão em inglês que muitas vezes traduzem como “desmame guiado pelo bebê”. Eu prefiro dizer que se trata de um método de introdução alimentar guiado pelo bebê — visto que o termo “desamame” pode dar a impressão que o leite materno está sendo suprimido da alimentação do bebê. Há pessoas também que interpretam o desmame como um longo processo, a partir do qual o leite materno deixa de ser a única fonte de alimento do bebê, até o momento em que ocorre o desmame total. Questão de ponto de vista…

Independente de como se pode traduzir, o BLW tem se tornado mais popular, nos últimos tempos. O termo foi cunhado por Gill Rapley, agente de saúde britânica. Ela percebeu, durante seu trabalho já uns 30 anos atrás, que muitos bebês tinham dificuldade para começar a comer com colher. Rejeitavam as papinhas que lhes eram oferecidas.

Pelo BLW, o próprio bebê conduz sua refeição. Ele pega os alimentos com suas mãozinhas e os leva à boca. Mais simples e elementar do que isso, impossível. De maneira intuitiva, descobre os primeiros alimentos, saboreia, rejeita, se lambuza… tudo de acordo com sua própria vontade e interesse.

Muitos bebês vão ficando curiosos com a alimentação dos pais e da família, quando se sentam à mesa, já por volta dos 4 meses. De toda forma, o que se recomenda é manter os seis meses de amamentação exclusiva. Mesmo depois disso, o leite materno se mantém como a principal fonte de alimento até um ano.

Quando o Francisco completou os seis meses, compramos uma cadeirinha, mas montamos sem aquela bandeja que vem na maior parte dos modelos. Assim, o Francisco come à mesa, como nós, sem distância. Até agora, ele provou frutas e legumes. Tudo cozido em casa, nada de papinha industrializada nem comida pronta de supermercado. Tempero pouco, orégano, manjeiricão, alecrim, azeite. Colocamos em pratinhos de plástico. Come-se junto conosco, no café da manhã, nos lanches, no almoço, na janta. Não me preocupo se ele está dormindo e perde alguma dessas refeições.

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É natural que haja, sobretudo, bagunça. Muitos pedaços de comida pela cozinha toda. Preciso sempre dar uma limpada no chão quando terminamos de comer. Roupas manchadas de comida, idem. O Francisco já tem várias camisetas e bodies com marcas de banana, manga, beterraba, coisas do tipo. Às vezes usa babador, mas tem momentos que ele mesmo o tira! Quando não quer comer mais, brinca com pratos e colheres.

Nesses primeiros meses, tenho visto que o Francisco tem tido cada vez mais interesse pelo que comemos. Gostou praticamente de tudo o que lhe foi oferecido. Frutas ácidas ainda evitamos, por conta das assaduras. De resto, ainda preciso aprender muito a me planejar e cozinhar, poder variar o cardápio, incrementar de maneira saudável sem apelar para industrializados, molhos com muito sal ou açúcar, etc. etc.

Tenho me informado muito pela internet, em sites, blogs e grupos de discussão. Gosto muito desse texto aqui: ressalta que comer é uma atividade sensorial e um momento em família. O blog todo, aliás, é muito inspirador.

Visito também a página oficial do BLW, que traz inclusive algumas receitas. Comprei também o livro de receitas delas, mas sinceramente não me agrada que tantas delas contenham farinha de trigo… Estou pesquisando alternativas, como farinha de arroz, por exemplo.

Além disso, acho legal recomendar esse blog de uma mãe falando sobre BLW e seus dois textos “teóricos”: 1 e 2. Essa outra blogueira também traduziu algumas diretrizes para o BLW, muito boas.

Para finalizar, um texto que não fala diretamente sobre BLW, mas tem muito a ver com o assunto: existe alimento infantil? A resposta é bem simples: salvo o leite materno, não existe “alimento para criança”! Infelizmente somos levados a acreditar que o melhor para os bebês são as comidinhas pré-fabricadas, com seus rótulos gentis e que escondem tanta porcaria. Continuo num próximo post…

O SEGUNDO TRIMESTRE DE GESTAÇÃO

é conhecido como a “lua-de-mel”. No meu caso, foi assim. Depois de passado o período inicial de muito cansaço e enjoo, tudo se renovou! Tinha energia para pesquisar, ler muito, caminhar. A barriga demorou pra crescer, foi aparecendo aos poucos. Precisei novamente comprar sutiãs e umas poucas peças de roupa.

A seção de gestantes das lojas tem quase sempre umas roupas que eu não via muita graça. Adaptei: comprei umas saias e camisetas de tamanho maior, do vestuário normal. De gestante mesmo só duas leggings e uma calça. Nada mais. Foi o suficiente. Boa parte das minhas camisetas e vestidos me serviam, mesmo que mais curtas por conta da barriga.

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Algumas das atividades desse trimestre:

– comecei a colcha de crochê; fazia ouvindo música, acompanhando o noticiário, conversando

– o diário de gravidez

– as aulas de ioga para gestantes, super importantes pra relaxar e descobrir posturas para o parto

– leituras como aquelas que eu indico nesse post

– escrevi uma resenha e enviei dois artigos pra revistas acadêmicas

– viagens, sozinha, com os amigos e com a família; a última eu fiz no limiar dos sete meses, de avião; correu tudo bem, valeu a pena!

Cada gestante vive essa experiência a seu modo. No meu caso, sentia-me feliz em derrubar o clichê de mulher grávida como frágil, doente. Gostei muito de viver esse momento de transição fazendo tantas coisas variadas. Mas passado esse trimestre, voltei à tranquilidade, nos meses finais da gestação. Sobre isso, falo em breve!

PARTO ATIVO, DE JANET BALASKAS

foi uma leitura muito importante durante a minha gestação. Ajudou a entender o mecanismo do parto, a estrutura do corpo feminino e os movimentos que eu poderia praticar como preparação para a passagem do bebê.

Balaskas parte de uma premissa muito simples: a mulher, durante o trabalho de parto, deve sentir-se livre, movimentar o corpo como sentir melhor.

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A imagem padrão de um parto é a mulher deitada, sofrendo e rodeada de pessoas ajudando. Pois justamente essa é a postura menos adequada para a saída do bebê. Pensei numa comparação: tente beber um copo de água deitado de lado. É mais fácil beber quando se levanta, ao menos com a cabeça mais elevada, não? Isso porque a água precisa descer pela garganta…

Por experiência própria, os momentos mais difíceis do parto foram as contrações que senti deitada. Pensava que deveria dormir, mas o intervalo entre as contrações era bem curto; impossível dormir nesse caso. Quando me levantei, me mexi, caminhei pela casa, abracei e beijei o Marco, gritei, me coloquei de cócoras — enfim, quando estava ativa — tudo foi diferente; mais solto e, quem sabe até por isso mesmo, mais rápido.

Devo essa liberdade às leituras que fiz, aos vídeos de parto e às aulas de ioga. Caso contrário talvez estivesse presa à imagem da mulher deitada que espera o filho nascer.

O livro traz inúmeras fotos e imagens, tudo muito explicado, de maneira bem simples. Lembro que folheava-o junto com o Marco, no fim da gravidez, imaginando feliz como seria o parto.

Tenho boas recordações dessa leitura e só posso sentir-me muito grata que ele tenha feito parte da minha experiência. Resta, por isso, recomendá-lo sempre que posso!

OS PRIMEIROS TRÊS MESES GRÁVIDA

eu passei cansada, dormindo e com enjoo — pouco além disso!

O cansaço era tanto que não conseguia caminhar até a esquina. Algo muito forte! Larguei um freela, deixei de lado uma aulas que estava fazendo, ficava em casa o tempo todo. Vi alguns filmes, mas a atividade principal era dormir.
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Tinha uns sonhos bem diferentes — pesadelos inclusive… Lembro de um sonho fofo: bebê vestidx de vermelho que falava tudo no diminutivo: engraçadinho, bonitinho, espertinho…

Acordada, o que tomava conta era o enjoo. Todos os odores me rodeavam. Era uma aventura sensorial! Sentia o cheiro das coisas mais distantes. Enjoei do sabonete que eu estava usando. As comidas também tinham outro gosto. A sensação estranha me fez até perder uns quilos…

Diziam que gengibre ajudava; tomava no chá. Mas no fim das contas não segui muitas receitas; fui levando.

Durante mais ou menos um mês, essa situação era bem intensa. Foi se dissipando na passagem pro quarto mês, quando voltou a energia… sobre esse momento, faço outro post.

DIZER NÃO

pode ser difícil, em alguns momentos. Escutar, compreender, filtrar o que se ouve é muito importante. Ainda assim, é preciso não ceder às próprias opiniões e princípios.

Estava relembrando situações em que disse não, quando li um texto de Eliane Brum que levanta essa discussão. Ela coloca o não como um elemento importante no caso da cesárea forçada a que foi submetida Adelir, no começo deste mês; um trecho:

Ao dizer “não”, Adelir tornou-se perigosa. Como uma mulher, usuária do SUS, moradora da zona rural, recusa-se a cumprir a ordem de uma doutora? Como ela ousa escolher o que considera melhor para ela e para seu bebê? Não como uma inconsequente, mas como alguém que se preparou para o parto, informou-se, contratou uma doula para ajudá-la? Nem mesmo quando botam um termo de responsabilidade diante dela, sempre assustador para todos e mais ainda para os pobres, Adelir recua. Ela assina. E vai para casa continuar a se preparar para dar à luz sua filha.
(…)
O que se torna claro no comportamento de Adelir é que ela tem a coragem de se responsabilizar. E se responsabilizar é ser mãe.
(…)
Quem já ousou enfrentar um diagnóstico médico, seja na rede pública ou na privada, sabe como essa é uma batalha penosa. Pode, inclusive, apalpar o tamanho da coragem de Adelir.

Adelir afrontou todo um sistema quando disse não às médicas que a atenderam. Infelizmente, sua vontade não foi respeitada — já tratei um pouco do assunto em outro post. E vale muito a pena ler o texto da Brum na íntegra.

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Aqui vai uma lista de nãos bem marcantes que dissemos ultimamente:

Não para o ginecologista. Numa consulta de rotina, já quase dois anos atrás, o doutor pergunta as datas em que menstruei. Ele se dá conta de que meu ciclo é irregular. Isso eu soube desde sempre, e vivo bem com essa irregularidade. Ele se preocupa e recomenda que eu faça um tratamento de fertilidade. Segundo ele, eu teria dificuldades para engravidar. Disse não repetidas vezes. Não via necessidade em controlar minha ovulação. Queria muito engravidar, mas não queria me preocupar com isso. Se não rolasse, tudo bem. Alguns meses depois, eu estava grávida. Falo disso também aqui e aqui.

Não para uma outra ginecologista. Ela estava cobrindo as férias da médica com quem eu estava fazendo o pré-natal. Durante o ultrassom, ela diz que o bebê é pequeno. E me propõe uma consulta adicional, em uma semana. Recuso. Ela insiste. Recuso novamente. E, como já disse, teria feito o pré-natal de outra maneira, sem tantos controles e exames, cuja necessidade é discutível. Pouca gente fala a respeito das imprecisões e riscos do ultrassom. Dias depois desse controle, a bolsa rompeu, entrei em trabalho de parto e o Francisco nasceu, sem nenhuma intervenção.

Não para a parteira. No relato de parto essa história já foi contada. Recusei o medicamento para dormir, que a parteira me recomendava. Ela pensava que melhor seria se eu poupasse minhas forças dormindo, sob efeito de medicamento. Eu queria um parto sem qualquer intervenção.Felizmente, foi o que vivemos. Prefiro nem imaginar como teria sido se eu tivesse tomado o remédio.

Não para o dermatologista. Tenho um problema de pele. Para tratar pela via tradicional, não poderia amamentar. O Francisco tinha 3 meses quando fui ao dermatologista e ele disse: “pare de amamentar. Dar de mamar é coisa do passado”. Sim, ele disse isso, contrariando todas as evidências e benefícios da amamentação. O que eu respondi: não! Eu quero amamentar! Hoje estou fazendo um tratamento alternativo, com base na minha alimentação. Está me fazendo super bem e o problema está melhorando aos poucos, naturalmente. O assunto é vasto, falo mais em outro post.

Não para a pediatra. Já contei sobre a consulta dos quatro meses. É impressionante como médicos estimulam que as mães desmamem! Por que será?

Certamente, essa lista poderia se estender…

Como tanta coisa na vida, dizer não é um exercício constante. Percebo que com o tempo tenho melhorado nessa prática de recusar, discordar, refutar — mas ainda há tanto o que aprender! Acima de tudo, é preciso saber que o quero para mim. Eis aí outro tema para desenvolver, em outro momento: “eu sei o que quero para mim?” Rende bastante assunto.