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ME AGRADAVA REPETIR
coisas pequenas no dia a dia: sentar-me sempre no mesmo lugar da mesa para comer, usar a mesma colher para mexer o chá mate, comer o mesmo lanche no recreio, no mesmo lugar do pátio; manter fixas na semana as datas de devolução dos livros na biblioteca; numa mesma ordem pentear o cabelo, escovar os dentes e tomar banho; organizar na mochila os livros e cadernos para cima, os livros atrás, cadernos à frente; as cores os lápis e canetas no estojo; tomar o metrô no mesmo vagão, escolher, se livre, o mesmo banco.
Ainda continuam certas coisas assim, que percebo se elas mudaram de lugar.
GUARDEI UMAS FOLHAS
no meio do caderno, para ler depois, anotações de um ciclo de palestras; mais de dois anos se passaram, peguei agora.
Pouca coisa das notas me dá alguma informação precisa – incompletas e lacunares demais. Não sei o que foi dito pelos professores e o que eu mesma pensei. Alguma coisa ali ainda é verdade para mim hoje.
ALGUNS CHEIROS
da pele da minha mãe, de creme talvez, mas que ficava bem só nela, eu procurava o braço dela quando menos esperava; do corredor do apartamento na Barão de Tatuí, que eu acreditava vir do lustre, de vidro fosco e contorno verde-água; dos biscoitos dentro da lata marrom, com flores amarelas; dos ares dos lugares: cada lugar, um cheiro diferente; o cheiro de bicho (um mamífero, sabe-se lá qual) nadando num rio; de funghi, que a moça da zona cerealista acha nojento; cheiro de chuva; cheiros dos livros novos no começo do ano; da fita 3M para os livros da biblioteca; de vinil novo, no plástico.
ESTENDE A MÃO

JÁ PENSARAM
que eu era bailarina, por conta dos meus pés; que eu era arquiteta, pela minha letra; que eu tinha uma banda, porque falava muito de música durante as aulas; que eu me chamava Cristina ou Laís; que eu tinha nascido no interior, a família morava toda lá; que em São Paulo eu dividia um apartamento com meu irmão; que eu era carioca; do sul; chilena, árabe, italiana.
Já disseram que as mãos são de pianista, os dedos muito pra fora; que o nome é de personagem do Camilo Castelo Branco; o nariz mostrava minha origem grega; os pés, novamente, fenícios. Que os olhos têm íris exemplares; o jeito, de personagem de Jane Austen; ou Mafalda; que tenho tudo a ver com Talking Heads; que poderia ser adulta nos anos 80, comendo sempre no Frevinho, descendo a Augusta cantando Ná Ozetti.
– E não sou eu?
SE VOCÊ ESCREVE
– é porque sente falta de algo e acredita que, escrevendo, as linhas se acumulando, essa falta fica escondida entre as letras. Elas te serviriam como uma defesa: você gostaria de ser protegido pelas suas palavras.
– você precisa escutar com generosidade o que as tuas palavras te dizem; e esse esforço nunca será suficiente.
– é porque viu algo escrito antes de você, coisa do mundo que você quer para si também, você sabe; e o mundo não é você, nem eu. Não passamos de um acidente, peças do acaso; o mundo continua a girar, escrevendo ou não.
DAS POUCAS CERTEZAS
O ASSUNTO ERA EU
e meus pais recordaram juntos de uma historinha.
Estávamos no consultório médico, otorrino provavelmente. O médico deixou o estetoscópio na mesa, eu o peguei e aproximei da boca. Ele me perguntou: – O que você quer fazer com isso, mocinha?
Disse: – Quero ver o que eu tenho por dentro, minha goela.
Fui chamada de curiosa.
Lembro disso, e também tinha outra versão, que minha mãe não conseguiu confirmar. Assim: na hora em que o médico pegou o palito de madeira para ver as amídalas, perguntei a ele: – Você quer ver minha goela?
A palavra goela, muito usada em casa, minha mãe corrigiu: – Não é goela, Ana Amelia; é garganta que se fala.
Goela (e gueule, em francês) rendem uma explicação no dicionário, em breve quem sabe.
HOJE NADJA DISSE
– você vai me ler. – tá bem, eu disse; tirei-a da estante.
Anos já eu olho para essa capa:
E fui de mãos dadas com ela que, como a André, me deixou uma pequena certeza: todos os livros devem ser como Nadja. Uma porta, um passeio entre pequenas e ricas coincidências: outubro, mãos e luvas, encontros marcados que não acontecem, acasos e enigmas que se acumulam. 10 de outubro Nadja disse a André: “tudo enfraquece, tudo desaparece. De nós alguma coisa deve permanecer”. Como, se mesmo a cidade já mudou de paisagem?
Não sou eu quem vai meditar sobre o que advém da “forma de uma cidade”, nem mesmo da verdadeira cidade, alheia e abstrata, daquela em que moro, por força de um elemento que seria para a minha mente o que o ar é para a vida. Sem nenhum arrependimento, agora a vejo tornar-se diferente e até fugir. Resvala, se incendeia, afunda no redemoinho de suas barricadas, no sonho das cortinas de seus quartos, onde um homem e uma mulher continuarão a se amar indiferentes.
Assim, num livro, as histórias não se apagam; são apenas outros começos.


