A LUZ DA LUA

não era a única fonte; mas foi mais dela que vieram os novos traços azuis que eu via. Num ponto do passeio pelos limites do arame farpado, a cerca era baixa, um tronco caído facilitou a nossa passagem. Depois de histórias, ossos, circulação sanguínea, formigamento, veias, fraturas, hematomas, posição de dedos, mãos que se encontram, uma ferida me veio, voltando a atravessar a cerca. Estava olhando para o alto enquanto minha coxa direita ficou: quatro cortes seguidos, fundos, cada um com que doeram logo de início, sangraram, pintaram a outra coxa. A dor ainda se movimenta, sob a luz difusa de um sol que se esconde, cheia de calor querendo chuva, nos quatro traços preenchidos de vermelho, emoldurados de rosa. A vontade de que fique uma cicatriz.

HAVERIA UMA RELAÇÃO

entre o início de uma estação do ano e a mudança de fases da lua? Deve haver, já que são fenômenos dos astros, de todo um jogo de variações e recorrências, aos quais damos algum significado.

Conversando com uma amiga, ela me deu uma explicação simples: não há relação, visto que as fases da lua mudam no calendário, e que o começo de uma estação acontece numa data mais ou menos fixa.

Mesmo com a explicação simples, que eu precisava ouvir, ainda quero encontrar uma resposta para minha curiosidade. Mas, em vez de procurar a informação, vou deixar o tempo passar – e ver se essa resposta aparece algum dia, ao observar que mudanças vêm junto com as próximas estações.

AS PEQUENAS COISAS

dos filmes do Rohmer, em meio às conversas que nunca terminam, os passeios, as viagens, são as que mais ficam. Agora terminando um texto, virando o dia sem dormir, começam os primeiros passarinhos cantar. Aí me vem “a hora azul” de Reinette et Mirabelle, no meio do mato; o raio verde do pôr-do-sol na praia, durante as férias de uma menina deprê e sem rumo; o joelho de Claire na paisagem alpina; o chapéu azul da duquesa; uma aula de francês para crianças; uma festinha nos anos 80; um menino indo embora na estação de metrô; encontros num bar.

Sozinha o tempo todo, procurando o raio verde, ele aparece quando ela está do lado de alguém.

E por aí vai.

A EXPLICAÇÃO

mais simples é geralmente a correta. Algo assim, aproximadamente, grosso modo.

Mas dentro dessa explicação surge um exemplo: como definir a cor do céu?

dizem:

É claro que o céu é azul, sabemos disso só de olhar para ele, mas de que tom de azul ele é exatamente? Qualquer um que já tenha se envolvido em uma discussão para ver se uma meia escura é preta ou azul-marinho consegue compreender a influência de nossa visão de mundo e como ela afeta nossas decisões.

O que eu vejo agora? Tudo sem nitidez. Mas como já disse Wittgenstein, às vezes precisamos justamente da imagem borrada. Ficar sem os óculos, resgardar-se, procurar um reduto, refúgio, lugar de uma fuga. Forno, casulo, geladeira, toca.

BEBÊS FALAM

nos sonhos de muitas pessoas, me disse o Sérgio quando contava que tinha um deles que falava num meu. Ele era pequeno, filho sabe-se lá de quem. De todo mundo e de ninguém. A família toda, numerosa, se espalhava pelos cômodos da casa. Talvez a casa fosse grande (mas não chique) porque aqui fui num tipo de “casa cor”, na futura casa do governador Gaguim.

Fora isso, vida de poucos sonhos marcantes, por ter dormido pouco todos os dias, e dias sem dormir nada mesmo. Madrugada de sábado para domingo passei entre o sono e o despertar, calor, ar condicionado fazia muito barulho.

Os dias já são amarelos e azuis, ritmados pelos jogos da copa.

Os fins de tarde, céu que é uma redenção.