LISTA DE PROFISSÕES

que eu já pensei em seguir, e ainda penso em alguns momentos:

1. funcionária do metrô
2. cabeleireira
3. arquiteta
4. percussionista
5. funcionária de sala de cinema (como meu avô, que fazia um pouco de tudo: que ia pegar rolos de filme na distribuidora, rasgava o papelzinho na entrada, ficava na bilheteria, etc.)
6. cartunista da Folha (nada mais, nada menos)
7. ghost-writer
8. apresentadora de programa de viagem da tevê paga
9. jardineira

UM HOMEM SÉRIO

começa de várias maneiras, ou começa em diferentes momentos: uma citação, a pequena história do dybuk na casa de judeus em algum lugar da Polônia, os créditos iniciais com os nomes dos atores, o check-up que o pai de família está fazendo numa época que oscila, num lugar também incerto – mas nos EUA.

Só nos momentos finais temos a ligação do médico, um tanto assustadora: o resultado do raio-x precisava ser informado pessoalmente. Durante todo o filme, o que acompanhamos seria um tipo de exame desse homem: o irmão com um problema de cisto, o dentista que encontra mensagens nos dentes de um cliente, a vizinha que se bronzeia no quintal, a filha que quer operar o nariz, o filho que terá provavelmente problemas de audição no futuro.

POR ACASO

juntamos dois passeios com a mesma temática hoje: museu Lasar Segall, com a exposição de Hildegard Rosenthal e Horacio Coppola e exibição de São Paulo sinfonia da metrópole no Sesc, com acompanhamento musical ao vivo.

O olhar atento tentando descobrir que cantos da cidade a imagem conseguiu guardar. A sedução dos anos 20-30-40-50… tudo o que seja suficientemente passado. Os prédios em construção se levantando em todo canto, os carros enchendo as ruas, o amontoado de gente que não cabe na calçada. Será mesmo muito diferente de hoje?

NÃO DIZER NADA

mas mostrar.

Coreografar os mínimos movimentos cotidianos, arquitetar todos os planos em espaços milimetricamente simétricos, ou quando não, ao menos demarcá-los muito bem, para que neles as cores falem por si mesmas, que os olhares cúmplices digam tanto quanto as velhas canções. Mostrar que as coisas não são naturais.

O que resta do tempo” tem muito do humor silencioso de Buster Keaton ou de Jacques Tati (fiquei com medo de essa minha impressão durante o filme ser um lugar-comum), tanto pelo vazio-cheio do cotidiano, como pela própria presença deles frente às câmeras. Eles circulam por entre os outros personagens menos para agir do que para multiplicar e desequilibrar o olhar.

Elia Suleiman traz a história de seu pai e de sua mãe, mais do que a história de seu retorno à casa; e é menos uma tentativa de contar a ocupação do que simplesmente contá-la como se pode, com o silêncio resignado e resistente, com esmero em criar coisas belas. De um mesmo belo de “Paradise now”, outro palestino.

Suleiman fala de outro retorno seu a Nazaré em “Crônica de um desaparecimento“, que está completo no youtube, assim como “Intervenção Divina“, entre vários outros filmes palestinos . Uma experiência e tanto, ver um longa no youtube em várias partes…

E mesmo assim, pensando nas experiências que são os filmes, não consigo evitar: adoro essas fotos de Cannes, que mostram talvez a razão de ser do cinema.

OUTRO DOCUMENTÁRIO

também visto agora em janeiro, assim como “Cidadão Boilesen”. Penso que ambos mereciam ser tratados juntos, pelas suas semelhanças como no que se distinguem, mas já escrevi sobre Boilesen em separado.

“Crítico” também é um trabalho de anos de pesquisa e coleta de material, também dirigido por alguém que manteve trabalhos e projetos paralelos ao documentário – Kleber Mendonça Filho, que além de realizador é crítico.

Não sendo as únicas ocupações de seus realizadores (o que não é negativo), os dois documentários se mostram como frutos de esforço e de uma grande vontade de mostrar (ou mesmo de contruir?) o objeto de suas preocupações. Em “Boilesen”, o que ainda não investigamos suficientemente sobre a nossa própria história; em “Crítico”, perguntar a quem faz cinema e quem escreve sobre cinema o que é falar sobre cinema.

Kleber fez algo muito mais simples do que Litewsky: pegou os aparelhos que estavam à mão e foi aproveitando as oportunidades que apareceram; soube recolher o que estava à disposição, o que estava ao seu alcance. Ao menos é o que parece. Daí, dessa aparente pouca ambição, ele consegue falar com todo mundo – algo que à sua maneira também aconteceu em “Boilesen”. Kleber fala com diretores e críticos de jornal das mais diferentes origens e orientações… Consegue juntar os produtores dos irmãos Farelly e Aki Kaurismaki (a “entrevista” das mais sintéticas e poderosas), de Carlos Saura a Samuel L. Jackson. De todos parece ter conseguido confiança: os relatos são todos simples e sinceros, como conversas entre companheiros de trabalho, ou entre amigos, recortados, organizados tematicamente, entremeados por imagens mudas em movimento (disponíveis em domínio público): o cinema no que teria de mais técnico (ou algo tão técnico quanto a realização e a crítica?) – o fenômeno físico que conseguimos captar com nossos olhos, a mecânica dos corpos e das máquinas.

O final reserva uma pergunta que ia me fazendo ao longo do filme: onde está o Kleber, falando também, como os outros, sobre o que faz, ele tanto crítico como realizador? A rápida participação de Rodrigo Santoro traz a pergunta – algo como “onde está você?” – e a deixa em aberto.

Eu, como me dedico também a um trabalho crítico, mas concentrado em literatura, sempre me faço perguntas como essa (“onde está o pesquisador?”), tanto no que escrevo como no que leio dos outros. A presença do sujeito no que faz, no caso dos filmes, já disse isso em outro lugar (e essa ideia não é minha), está nos nomes próprios, que nos filmes vão se desenrolando nos créditos – e são bem mais numerosos do que num livro, por exemplo. A autoria é um trabalho dissolvido em mais de um indivíduo.

Nesse sentido, que documentário mais autoral do que “Crítico”, feito por Kleber e poucos parceiros, com poucos recursos e ao longo de anos de trabalho – mas que ao mesmo tempo reúne 70 vozes de horizontes diferentes?

Fora tudo isso, vejo que faltou pensar na crítica de cinema feita na academia e mesmo no público, na crítica não profissional. Quanto à relação entre a formação de cineastas na universidade, eu me pergunto, não sei: há uma formação universitária para críticos de cinema? Aconteceria o contrário de um curso de Letras, que visa, entre outras coisas, formar críticos literários mas não forma necessariamente escritores? Inevitavelmente pensei como seria instigante pensar num documentário sobre crítica literária…

[adendos: uma entrevista e uma crítica, que encontrei depois de ter escrito]

UM DOCUMENTÁRIO

que  vimos no mês que se passou.

Cidadão Boilesen, indicação de uma professora. Se não fosse por ela, talvez para mim o filme tivesse passado despercebido, perdido em uma sala em poucos horários. O título já evoca o gênero de objeto de que o filme vai tratar: o “outro lado” de um nome, de uma dupla vida pública.

Para falar de Boilesen, o diretor Chaim Litewski empreendeu uma pesquisa de anos e anos. Conseguiu depoimentos de vários nomes ligados à vida do executivo que se destacou, dentre tantos, na repressão aos opositores da ditadura. A busca por relatos e documentos produz um efeito discordante ao mesmo tempo que detalhista. Tanto que tenta relacionar a crueldade de Boilesen a um acontecimento de sua infância pobre, na Dinamarca. Um pouco demais, para mim, valorizar esse tipo de achado. Mas é um achado dentre muitos valiosos para preservar, num tratamento visual ágil e elaborado para um tema tão pesado.

Muitas vozes falam sobre Boilesen, dos militantes que organizaram seu assassinato aos miltares que o admiravam –  exceto ele mesmo. Por quê? Falta de material, de declarações escritas ou imagens com sua voz?

Uma frase simples, agora me foge quem a disse no documentário, pode defini-lo: “foi vítima de si mesmo”. E quem é que não acaba sendo?

DURANTE O SONHO

eu já comecei a pensar que eu podia escrever sobre ele no blog.

Seguindo uma coisa que o Luís tinha começado a fazer na casa dele (ele estava colocando fotos malucas nos perfis de orkut e facebook dele, que não existem), eu queria fazer fotos dos objetos que eu tenho, dos bonequinhos, elefantes, bichinhos, dos bibelôs. Tudo era super colorido. Mas ao contrário do que eu tenho realmente, eu tinha muitos bonecos de figuras humanas: jogadores de futebol, integrantes de uma banda de rock de sucesso que eu nunca tinha ouvido falar, um caminhoneiro, uma moça do nordeste em cima de um jegue. Era tudo realmente colorido mas chegou a me confundir. Eu comecei a tirar algumas fotos, mas fui interrompida por uma pessoa de uma comunidade negra. Ela acompanhava um grupo de turistas africanos lusófonos. Parecia que estávamos na frente da confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro – isso porque ontem eu li o post em que eu falava dela.

Na frente da confeitaria tinha uma sala de cinema antigo, era ao mesmo tempo como se fosse o espaço unibanco daqui da Augusta, três salas com os pôsteres na entrada. Eu queria muito assistir um filme, era quinta e a sexta-feira chegou logo de cara e eu perdi os filmes.

Na sexta, só tinha filme chato em cartaz: algo como um “Halloween 4 – as caveiras pedem fogo”, o cinema cheio de góticos e sósias do Marilyn Manson, gente com unhas compridas e sobretudos pretos. Achei uma chatice.

Resolvi virar uma assombração do cinema. Comecei a voar como um fantasma, com um lençol branco transparente, para assustar. Vi chocolates na bombonière, entrei no banheiro. Depois fiquei me virando de cabeça para baixo e as pernas para o alto de uma fileira para outra, dando risadas bem alto, daquelas do “Thriller”. Talvez as pessoas só tenham pensado que aquilo fazia parte da divulgação do filme.

MAIS UM

e mais outros desenhos no bloco. folha branca, riscos a lápis meio sem precisão, sem foco mesmo. desenhos incompletos, sem decisão, sem saber para que lado olhar.

tive sonhos com um sarau de poemas: eu escolhi ao acaso um de Ana Cristina César, que eu conheço pouco, de quem li umas coisas meio recentemente. escolho um que tem algo como “eu me lembro que não me lembro mais do que eu me lembro”… nem sei se isso dela existe. mas no fim das contas o sarau acaba e eu não li o poema. fico meio triste.
depois fico conversando com alguém que não sei quem é sobre “antes do amanhecer” e “antes do pôr-do-sol”, os filmes.

FILME ATRASADO

era a grande questão de um sonho de segunda pra terça. Fazia já uns dois anos e oito meses que eu tinha alugado um filme na locadora.

A 25a hora, de Spike Lee.
Fui na locadora, que ficava numa daquelas lojas no térreo de prédios como os da avenida Angélica, aqueles prédios antigos, como os do Artacho Jurado. As atendentes não demonstraram nenhuma surpresa em me dizer que a locadora não liga cobrando filmes atrasados, deixam o sócio tranquilo com o filme em casa! Deu uma nota pagar o aluguel do filme.
Mas a grande questão é que de repente o filme se transforma em Matrix Reloaded. Aí eu desencanei, vi que era um sonho e ele virou outra coisa.

Mas há outra grande questão: o 25e hora, nem sei se é esse o filme com o Edward Norton, eu vi no cinema. Filme longo, e os filmes do Spike Lee são longos, é pra se ver no cinema e não em casa. Não me lembro de nada do filme. Ele só voltou à memória porque revirei o fim de semana hds e cds de backup antigos. Esse pôster estava no meio das mensagens porque quando vi o filme falei sobre ele, mas o mistério é que eu não sei o que disse sobre ele.