MOQUECA COM MOLHO SHOYU

pode ser uma maneira de sintetizar rapidamente o gosto do filme “Besouro”. Fui ver hoje de tarde e fiquei surpresa. Pouco sabia, talvez somente que se lutava capoeira como em “O tigre e o dragão”. Ok, ok: eles voam. Mas não só.

Da história não é possível que se pedir maior “fidelidade” ou “autenticidade” na construção que faz do imaginário da cultura negra – o fato de um filme desse existir já é um mérito em si. Achei as imagens bonitas, tudo visualmente muito bem dosado, o roteiro não é bobinho, a trilha comandada por Gil e Nação Zumbi… No mais, os personagens se assemelham ao exu – tentam fugir (mas não conseguem sempre) ao dualismo bom-mal, e voam quando é preciso voar. Adorei.

Além de tudo, o filme me lembrou o sonho que eu tive de um filme que contava uma rebelião de escravos – bem a ver.

SONHOS ACUMULADOS

e de alguma maneira relacionados.

Eu estava num tipo de residência universitária (a vida universitária tomando conta dos meus sonhos), uma espécie de sala de convivência, anotando coisas, debruçada num caderno, quase caindo no sono. Chegam um professor que conheço de vista e uma de quem sou um pouco mais próxima. Ela começa a falar mal do marido, eu começo a anotar tudo sem que ela perceba, provavelmente ela pensava que eu estivesse dormindo. Ela propõe ao professor que os três vivam juntos, os dois que estão conversando e o esposo da professora. Ele já tinha concordado, segundo ela. Eu finjo que acordo de supetão, ela se assusta e quer ver o que eu anotava.

Como achava que isso não levaria muito a lugar qualquer, comecei a circular e vejo que estou num grande palácio moderno, alguma grande instituição. E tudo se transforma no novo filme do Tarantino, que não seria Bastardos inglórios, mas um filme seguinte, ainda com Brad Pitt, mas também com Uma Thurman, Lucy Liu e Mike Myers de cabeça raspada. Nesse grande palácio, escondiam-se réplicas dos planetas, que aos poucos iam sendo fabricados. Eles eram feitos pelos fabricionistas, que acreditavam que, depois do fim do sistema solar, seria preciso refazer todos os planetas (é do verbo fabricar que vem o nome do grupo). Júpiter já estava pronto, escondido – Mike Myers vigia o novo planeta, ele e outros atores menos conhecidos.


Júpiter por Júpiter…

Tudo funcionava como numa sociedade secreta. Mas pessoas contrárias aos fabricionistas, os elementares, resolvem acabar com todos os planetas que os fabricionistas estão fabricando. Os elementares resolvem entrar como espiões na propriedade dos fabricionistas, e depois de apuros conseguem destruir tudo. Mas ao saírem do palácio (algo como a Casa Branca), eles encontram guardas que sem fazerem uma pergunta metralham os elementares, Uma Thurman, Brad Pitt e Lucy Liu. A platéia dá risada e os créditos começam a subir.

Antes, semana passada, outro sonho que tem tiros. Dessa vez, era um filme histórico brasileiro, que mostrava uma revolução de escravos que queriam ser batizados. Os senhores eram contra. Mas a mobilização dos escravos foi tamanha que houve uma grande reunião de toda a comunidade, os senhores, as famílias, os escravos, para que se chegasse a um acordo. Os senhores dizem sim aos escravos, eles serão todos batizados. Os escravos ficam muito alegres, comemoram, a comunidade fica aliviada (que “comunidade” seria essa, intermediária, entre os senhores e os escravos?). Mas em segredo, os senhores já estavam de acordo com a idéia de matar todos os escravos rebeldes, que ali estavam reunidos. Chegam mercenários e matam todos os escravos com tiros ali mesmo. Os senhores, agora sim, ficam aliviados. Todas as outras pessoas, chocadas. Isso inclui um jovem português, que tinha acabado de chegar de sua terra natal, para se instalar na colônia e usar seu talento para pintar as paisagens tropicais.


No sonho estavam a cavalo?

O que se segue pode ser duas coisas: ou é uma lembrança de Portugal ou é algo que ele viveu na colônia, está difícil decidir. Era uma grande casa, um outro palácio, de outro tipo, de arcadas abertas, espaços amplos, tapeçarias nas paredes, afrescos, algo mediterrâneo com inspirações moçárabes.
O sol entra docemente, o jovem português, loiro de cabelos cacheados, está pintando uma tela (talvez a matança dos escravos?) e uma mocinha aparece. Ela está apaixonada por ele. Ele larga a pintura, e sai andando pelos espaços dessa enorme casa, escadarias, vasos, espelhos. Os dois conversam. Ela quer se casar com ele. Mas ele diz a ela que não gosta de mulheres. Ela diz que isso não é um problema para ele, ele pode continuar a ver outros homens. Em um momento, os dois deitam no tapete, perto de uma estante – agora parece aquela livraria que tem em Buenos Aires, que era um antigo teatro, ou a livraria cultura, que fica onde era um cinema – para se esconder de alguém.

Sonhei também, durante a semana, com algo que poderia ser um documentário sobre o PT. Como começou o PT? A história era assim, antes, só se votava em quem era poderoso. Os senhores de novo. A classe trabalhadora começou a juntar dinheiro para formar um partido. Com o valor que conseguiram acumular, era possível colocar candidatos nas eleições. Os salários dos novos deputados e senadores também servia para financiar mais candidatos. Isso teria sido uma dica do Ziraldo.


Adoro esses olhos

Mas logo em seguida, estou de novo numa universidade que não conheço, será no Rio de Janeiro? Era uma aula de ciência política, ou administração pública. Um professor jovem começa a explicar o funcionamento da “máquina”, coloca na lousa que há um princípio que diz que 1 = 1 e 50 = 50. E que 50 dividido por 50 dá 1. Até aí tudo bem. Mas na máquina pública as coisas funcionam de outra maneira, 1 = 2, as dívidas sempre oneram o Estado, para beneficiar o setor privado, os grandes proprietários. A aula fica interessante, as pessoas começam a participar, o professor diz que talvez “melhor assim”, que o Estado seja onerado, em vez de prejudicar a iniciativa privada. Eu de repente estou numa loja de perfumaria, apertadíssima, com caixas no chão, prateleiras com xampus mil (um tipo de Teruya!), lugar escuro onde mocinhas etiquetavam os produtos com o preço. Eu precisava de um creme para o cabelo mas não achava.

FUI DAR UMA SONECA

e antes de acordar com frio eu sonhei que a Karen tinha feito um vídeo de uma aula da ginástica. Ela era aluna da aula de ginástica, algo meio recreativo, meio de dança. O sonho era simplesmente esse vídeo, eu e a Karen por trás dele comentando a respeito. Era um vídeo bem simples, feito com uma câmera fotográfica digital. A aula vai começar, a professora coloca uma música dançante, que me deixou vestígios de Moby, apesar de não ter nada a ver com Moby. A Karen tá sentada no chão, e se levanta. Dá para ver a sala toda, e a Karen de roupa preto e branco se levanta em meio aos outros alunos, dos quais não tenho nenhuma informação. O que eu tenho na cabeça é que a câmera muda subitamente de posição, e eu não entendo como a Karen está filmando e participando da aula ao mesmo tempo. Depois de rever o vídeo (o vídeo se repete duas vezes no sonho) é que ela se vale do fato de a sala ter espelhos, logo no começo do vídeo ela está de frente a uma das paredes de espelho e no decorrer da aula isso vai mudando. Ela até faz cirandas com os alunos, dois a dois. Os alunos tem que se movimentar como numa coreografia bem complexa. E NÃO FOI UM sonho somente, mas dois! Lembrei enquanto escrevia de um do outro. Sonhei em alemão! Ou com uma tentativa de entender alemão. Foi um sonho do filme Corra Lola Corra, mas no sonho o filme não se passava inteiramente em alemão, e em algumas cenas o filme era preto e branco. Lembrei do sonho quando escrevi “preto e branco” da cor da roupa da Karen. Mas acontece que na cena do telefonema o namorado da Lola dizia que se chamava Moritz, mas esse é o nome do ator, Moritz Bleibtreu. No filme é Manni. Ich heiße Moritz. Por que ele precisaria dizer isso, que se chama Moritz para a própria namorada, Lola? A ligação fica confusa e cai várias vezes, eles não conseguem se falar. Duas coisas de uma mesma época, Lola e Moby. Dois vídeos muito inventivos, que eu não consigo entender à primeira vista. Vontade de fazer ginástica e de voltar ao curso de alemão?

Um pouco de tudo, o episódio dos Simpsons aí em cima. Até a ciranda a Lisa faz no terceiro minuto. E as imagens estão invertidas como num espelho.

SABE O PERSONAGEM PRINCIPAL

de Sinédoque, Nova Iorque?
Ele existiu de verdade, mas ele se chamava Jacques Tati, morava na França.
Quando criou sua sinédoque, Playtime, Tati fazia já filmes, já tinha ganhado Oscar de melhor filme por Mon oncle, quando decidiu criar uma cidade inteira, uma nova Paris, desfigurada, povoada por enormes prédios modernistas, envidraçados.

Playtime é o filme que arruinou Tati, que teve fôlego para ainda uns dois filmes depois desse. Tinha visto muito tempo atrás, e admito que não tinha entendido tanto dele. Aquela coisa: anos depois, a gente reconhece mais coisas, vê detalhes – e no caso de Playtime eles são inúmeros. Exigente e rigoroso, Tati criou uma verdadeira cidade em movimento, com pedaços de conversas, personagens mais ou menos anônimos, carros e ônibus…

Incompreendido, perdeu os direitos dos filmes, mas nos últimos anos vem ganhando relançamentos e retrospectivas. Agora em 2009 a Cinemateca francesa organizou uma exposição em sua homenagem. O cartaz gerou polêmica ao substituir o cachimbo de Tati por um catavento… medo dos publicitários de infringir a lei francesa que proíbe propaganda que incite o uso de fumo.

Revi Playtime numa circunstância bem legal: o grupo Uakti criou uma trilha para o filme, e o apresentou ao vivo no sesc Vila Mariana. Talvez o primeiro evento do ano da França a que eu vou.

Em tempo: música de filme do Tati é sempre demais.
A música-tema de Mon oncle é das coisas que eu mais gosto.

Parece fácil pensar no tempo que passa…

TEM SIDO RECORRENTE

sonhos feitos de encontros. Grandes grupos de gente, reuniões, cumprimentos, conversas. Pessoas que não vejo faz tempo, gente que vejo na rua mas fico com vergonha de cumprimentar porque muito tempo atrás eu não respondi um email por vergonha igualmente ou por medo de não ter papo.
Pessoas da televisão, semi-stars ou atrizes de novela.

Os lugares são bem amplos, há cadeira para todo mundo nos jantares dos sonhos.

Um dos sonhos desta noite foi o contato com um grupo de kung fu que realizava aulas num cemitério em Pinheiros. O cemitério todo lindinho, colorido, mármore e azulejo, vasos de flores.

O grupo de kung fu praticando em meio aos enterros.

Fui conhecer os praticantes dessa modalidade única de luta marcial. Me lembrei da Uma Thurman.

Isso porque, é óbvio, ela protagoniza Kill Bill.
Isso porque vimos faz umas semanas um curta estrelado por Selton Mello e Seu Jorge, Tarantino’s mind, dedicado às inúmeras correspondências entre os filmes de Tarantino. Coisa ou outra vai-se misturando, algumas referências eles forçaram, mas é simpático. O que o filme relevou a mim mesma é que Mia e a Beatrix Kiddo se comunicam por meio dos pés.

Não que isso seja algo que eu faça, mas fui influenciada pela cena em que Mia vira os pés, e isso é algo que eu faço com certa frequência.

Procurando a cena dos pés, e não achando, me deparei com uma série de filmes editados em cinco segundos, dos quais Kill Bill é um dos melhores.

Comi cachorro quente de soja hoje à noite, depois de ver Sinédoque, Nova Iorque.
Salsicha é sempre ruim, mesmo de soja.

ANTES DE REALMENTE

começar a sonhar, me deu uma vontade enorme de comer cachorro quente. Já deveria ser um sonho: eu ainda não teria pegado no sono, e me veio cachorro quente à cabeça. Nunca fui hiper fã de cachorro quente, estranho ter esse desejo, justo agora que não como mais carne.

Aí pensei naqueles carros que param na rua vendendo cachorro quente. Catchup e mostarda.
Talvez porque eu de tarde comi hamburguer de soja, e pensei que o da Sadia combina mais com pão branco, e não com pão integral. E que não é necessário nenhum tempero com esse hamburguer, tão forte ele é nos condimentos. Aquela coisa: “é de soja mas é gostosinho”.

Aí pensei que poderia comprar no mercado salsicha de soja. Ou melhor: que a banquinha de tapioca da ECA teria cachorro quente prensado de soja.

Teve vários sonhos depois disso, uma filha de professora que não existe, mais uma criança para eu dar aula.

O que me restou foi esse cachorro quente. E não a vontade de comer cachorro quente: essa acho que passou.

ANTES DISSO

vi uma cena histórica que não conhecia: um discurso do Ronald Reagan em frente à porta de Brandenburgo, justo no limite entre Berlin ocidental e oriental.

Era criancinha na época, passou batido. Pra mim, soou ousado. Sei lá. Gostei, independente de qualquer outra coisa.
Foi como ver Che, quinta-feira de cinema lotado no Unibanco. Fiquei pensando se o que nos resta agora é assistir – e só isso…

VER O CHE

me fez ter um sonho lindo.
Estava em Santos, naquela parte mais centrão da cidade, construções antigas, pintadas de cores alegres. Dia de sol agradável.


esse dia em Santos estava agradável somente dentro do aquário

Olhando com mais atenção para o que acontecia nas ruas, deu pra perceber que tínhamos bondes andando. Olha bondes!
Provavelmente Santos teve bondes. Pois então. Eles saíam das garagens e dos depósitos, voltavam à ativa.
Havia vários modelos, uns que mais pareciam trens de carga, mas ok, o transporte era barato, tinha lugar pra todo mundo.

RESOLVI VOLTAR

a pé para São Paulo. Não foi difícil escalar a serra.
Aprendi vendo um filme que precisamos ter três membros firmes na pedra, um braço e as pernas, para poder procurar com outro braço uma pedra mais acima. E foi assim.

As pedras, chegando no planalto, tinham duas cores, um bege clarinho e marrom mais forte, que pareciam pintadas ou um efeito da luz do sol.

Chegando, cometi um erro. Coloquei Guarulhos no sul, no lugar de Diadema.
Fiquei procurando um ônibus intermunicipal, os bondes talvez voltando também a funcionar, mas nada estava mais certo.
Peguei um bonde andando, acho…

ALGUMAS COISAS RÁPIDAS QUE PRECISAM SER DITAS

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pensei ontem que uma das coisas que fazem a vida valer a pena, para mim, é contar e ouvir histórias.

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acho que não sou uma pessoa organizada, mas que gostaria de ser; quase sempre estou arrumando meu arquivo (aqueles cinzas de escritório), as estantes, os armários; não dou conta! jogo fora quilos de papel, para a reciclagem…

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consegui vender bem rapidinho um livro na estante virtual; achava que ia ficar lá por anos, mas dá certo! fica a dica.

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quem frequenta os cinemas da região da Paulista já deve ter visto um senhorzinho de bengala, gordinho e de cabelos brancos, foi ao festival de filmes de surf e ao noitão do hsbc; é alguém com quem vale a pena conversar enquanto o filme não começa.

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última vez que conversei com ele foi segunda passada, me deu dicas de como sobreviver ao mestrado, falou da letras durante a guerra com o mackenzie em 1968; imagina o que era estudar russo naquela época, com a ditadura começando a pegar pesado.

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a gente foi ver o documentário dos titãs na segunda, fiquei feliz e ao mesmo triste (o que já falei deles aqui explica porque feliz e triste)
– o tempo passa…