Do francês, do verbo contraindre: que exerce uma ação contrária a; forçar alguém a agir contra a vontade; obrigar, empurrar, controlar, condenar, reduzir.
Coerção, força, violência, intimidação, ameaça, pressão. Coisa que impede, que coloca obstáculo. Regra, disciplina, lei. Opressão.
[adaptado do dicionário le Petit Robert]
O dicionário le Petit Robert elenca ainda duas outras acepções para contrainte, uma para o mundo jurídico, outra para a física e geofísica. Mas não diz nada do emprego da contrainte na literatura (francesa principalmente) e nas artes.
Usar contrainte na criação artísitica é trabalhar sob regras e limitações, impostas arbitrariamente. Essas limitações podem ser dos mais variados tipos: na redação de um texto, pode-se limitar o número de palavras, pode-se proibir o uso de um dado tempo verbal ou mesmo de uma letra do alfabeto. Um exemplo: o escritor Georges Perec escreveu um romance sem usar uma única vez a letra “E”, a mais frequente no francês: La disparition.
Enquanto escrevia o texto abaixo me perguntava se eu estava fazendo sob uma limitação. E acho que sim, talvez mais de uma. Escrevendo sobre limitação sob limitações.
também visto agora em janeiro, assim como “Cidadão Boilesen”. Penso que ambos mereciam ser tratados juntos, pelas suas semelhanças como no que se distinguem, mas já escrevi sobre Boilesen em separado.
“Crítico” também é um trabalho de anos de pesquisa e coleta de material, também dirigido por alguém que manteve trabalhos e projetos paralelos ao documentário – Kleber Mendonça Filho, que além de realizador é crítico.
Não sendo as únicas ocupações de seus realizadores (o que não é negativo), os dois documentários se mostram como frutos de esforço e de uma grande vontade de mostrar (ou mesmo de contruir?) o objeto de suas preocupações. Em “Boilesen”, o que ainda não investigamos suficientemente sobre a nossa própria história; em “Crítico”, perguntar a quem faz cinema e quem escreve sobre cinema o que é falar sobre cinema.
Kleber fez algo muito mais simples do que Litewsky: pegou os aparelhos que estavam à mão e foi aproveitando as oportunidades que apareceram; soube recolher o que estava à disposição, o que estava ao seu alcance. Ao menos é o que parece. Daí, dessa aparente pouca ambição, ele consegue falar com todo mundo – algo que à sua maneira também aconteceu em “Boilesen”. Kleber fala com diretores e críticos de jornal das mais diferentes origens e orientações… Consegue juntar os produtores dos irmãos Farelly e Aki Kaurismaki (a “entrevista” das mais sintéticas e poderosas), de Carlos Saura a Samuel L. Jackson. De todos parece ter conseguido confiança: os relatos são todos simples e sinceros, como conversas entre companheiros de trabalho, ou entre amigos, recortados, organizados tematicamente, entremeados por imagens mudas em movimento (disponíveis em domínio público): o cinema no que teria de mais técnico (ou algo tão técnico quanto a realização e a crítica?) – o fenômeno físico que conseguimos captar com nossos olhos, a mecânica dos corpos e das máquinas.
O final reserva uma pergunta que ia me fazendo ao longo do filme: onde está o Kleber, falando também, como os outros, sobre o que faz, ele tanto crítico como realizador? A rápida participação de Rodrigo Santoro traz a pergunta – algo como “onde está você?” – e a deixa em aberto.
Eu, como me dedico também a um trabalho crítico, mas concentrado em literatura, sempre me faço perguntas como essa (“onde está o pesquisador?”), tanto no que escrevo como no que leio dos outros. A presença do sujeito no que faz, no caso dos filmes, já disse isso em outro lugar (e essa ideia não é minha), está nos nomes próprios, que nos filmes vão se desenrolando nos créditos – e são bem mais numerosos do que num livro, por exemplo. A autoria é um trabalho dissolvido em mais de um indivíduo.
Nesse sentido, que documentário mais autoral do que “Crítico”, feito por Kleber e poucos parceiros, com poucos recursos e ao longo de anos de trabalho – mas que ao mesmo tempo reúne 70 vozes de horizontes diferentes?
Fora tudo isso, vejo que faltou pensar na crítica de cinema feita na academia e mesmo no público, na crítica não profissional. Quanto à relação entre a formação de cineastas na universidade, eu me pergunto, não sei: há uma formação universitária para críticos de cinema? Aconteceria o contrário de um curso de Letras, que visa, entre outras coisas, formar críticos literários mas não forma necessariamente escritores? Inevitavelmente pensei como seria instigante pensar num documentário sobre crítica literária…
É como eu estou tentando definir “Berkeley em Bellagio”, que li hoje. Pode ser por conta de tantas outras coisas acontecendo e que estou lendo, o livro me pegou. O resto do dia (comecei o livro umas 10h, no metrô Santana, peguei a linha verde e descobri a recém-terminada estação Sacomã, com plataforma protegida por portas de vidro, como a linha 14 em Paris; dei voltas na linha verde, desci na estação Brigadeiro, por lá terminei e voltei para casa com as primeiras gotas da chuva muito forte) fui andar ao redor de escritas que o Noll me trouxe.
A Vanessa, que estuda justamente ele (como foi mesmo que começamos a nos falar? será que eu mandei o cartão postal pra ela?…); o Barthes, pensei muito em Incidentes e Noites de Paris, que justamente terminei de ler hoje também; essa busca desesperada por afeto.
Mas também a outras: as fotos que precisavam ser melhor organizadas, essa coisa de estação do metrô abrindo e o preço do transporte subindo, as chuvas cada vez mais fortes, o terremoto do Haiti e Dany Laferrière está lá, escrever emails como se fossem cartas, os textos e as pessoas que estão nos meus textos.
só sei que nada sei?
É isso, não tem mais discussão.
Desde pequena, vendo “Vinte mil léguas submarinas”, “A volta ao mundo em oitenta dias” na sessão da tarde na tevê, eu jurava que Jules Verne era inglês. Começando a facu, descobri a nacionalidade dele. Mesmo assim, pra mim ele continua inglês. E até hoje não li nada dele, esse francês tão inglês.
E Musil? Pra mim, outro britânico. Hoje descubro: austríaco, como vários outros que davam a Viena o peso de Viena. Tanto austríaco, gente. Wittgenstein criança na escola junto com Hitler. Schönberg fugido da Europa, nos Estados Unidos, vizinho de Gershiwn, os dois se disputando em partidas de tênis… ai ai.
Nada como a leitura de umas páginas de Wikipédia.
NÃO CONSIGO SER FIEL
a séries, mesmo sendo ótimas, mesmo tendo todos os episódios ao alcance da mão.
Flight of the Conchords foi uma referência perdida que eu recuperei faz um mês. A coisa mais engraçada e modestamente bem feita dos últimos tempos – não só a série, mas as músicas, feitas antes da série, e o documentário dos neozelandeses num festival de música. Esqueci de assistir os episódios a partir do último da primeira temporada. Só a Karen é que me lembra de assistir.
Ainda preciso pensar (ou achar) a explicação para o nome da banda. Tenho uma hipótese, mas preciso conhecer mais sobre aviação.
Tudo o que é sólido pode derreter é um sopro renovador na dramaturgia da tevê cultura. Depois de “O Mundo da Lua” e “Confissões de adolescente”, o que tinha sido feito no gênero, para adolescentes? Não lembro de nada.
Os caras de “tapa na pantera” provaram que sabem fazer mais do que um “sucesso do youtube”, e estão trazendo leituras apaixonantes dos nossos “clássicos da literatura”, e acho que sem cair na reconstituição ou na explicação facilitada para vestibulandos. Mesmo. E engraçado ver um ex-colega das aulas de sintaxe na Letras fazendo o pai da protagonista…
Nada como a postagem de séries da televisão na internet.
que mais são ajustes da realidade que outra coisa. Ajustes, lembretes, antecipação do que se tem que fazer. Hoje por exemplo, eu fui à locadora procurar o filme O testamento do senhor Nepomuceno, que eu vi na época mas do qual eu não lembro nada a não ser a aparência do ator principal, brasieiro. No sonho meu pai queria o livro do escritor, na realidade foi a Lúcia que me pediu. Durante o dia escrevi para ela, na busca de uma resposta sobre como achar A ilha fantástica, do mesmo escritor.
Além disso teve um remake de filme chato francês com uma atriz chata, filme sem pé nem cabeça, e dei bronca em quem achava que tinha que dar e não dei de verdade, mas fico tentando.
DIAS ATRÁS
eu fiz coisas muito úteis como procurar colares e bonitos e conversei com Chico Buarque numa situação inimaginável. Eis o que eu lembro dos dois sonhos:
Ontem estava passeando e resolvi parar numa loja, onde tinha em bancas vários colares bonitos, parecia que a preços módicos. Fui revirando o que ali havia, cheguei num colar de prata, com desenhos de frutos do mar, pedrinhas e tudo. Fiquei encantada. Vi o preço, custava 10 parcelas de 950 reais. Ai que triste. Então a moça da loja começou a me mostrar coisas “para dar sorte”, uma rosa de plástico, uma outra com um líquido que mudava de cor. O líquido quando encostei ficou amarelo, então ela me disse que eu estava seca por dentro. Acordei com sede.
Hoje eu já saí correndo à Cachoeirinha, para o centro cultural onde a Karen trabalha. Ela organizou um show com o Chico Buarque. Cheguei depois da hora que o show começava, mas eu era a primeira pessoa que chegava para o show. Fiquei abismada. Só eu ouvindo o Chico Buarque cantar com violão e só ele no palco. Nem sou tão fã assim do Chico, não sabia cantar todas as músicas, que vergonha. Ele também muito envergonhado. Depois do show, puxei papo com ele, disse que gostei muito de Budapeste, que vou tentar ler o livro novo dele (que realmente lançou, agora). Ele pegou um elevador, foi-se. Eu disse que achei legal tê-lo visto num lugar que não aquelas salas de show caríssimas e lotadas.
que da poesia, e o que me atraiu ao livro de Nathalie Quintane, Começo (Début), publicado em 2004 pela 7letras e Cosac&Naify, foi o sub-título entre colchetes: [autobiografia]
Je m’appelle encore Nathalie Quintane. Je n’ai pas changé de date de naissance. J’habite toujours au même endroit.
Je suis peu nombreuse mais je suis décidée.
Eu ainda me chamo Nathalie Quintane. Não mudei de data de nascimento. Ainda moro no mesmo lugar. Sou pouco numerosa mas sou decidida.
Assim ela se apresenta no site do seu editor, onde ela mantém uma produção considerável, regular e constante. Além das publicações, Nathalie faz leituras públicas e vídeos de seus poemas.
Autobiografias em poemas como Começo, que se assumem como tal, são menos comuns, mas existem. Nesse caso, Nathalie página a página, com poemas em prosa e com a dicção da prosa, recupera momentos e objetos da infância, adolescência, até um fecho pouco positivo, “a entrada no mercado de trabalho”.
Acho que se pode ver os poemas de Começo como um todo, ou pelas seções que dividem o livro e ficam cada vez menos marcantes, ou separadamente.
Prefiro considerá-los pelas seções, deixar algumas dessas seções de lado, e dizer que as que mais apreciei foram as iniciais. Talvez as menos autobiográficas, uma vez que elas discorrem sobre fatos corporais, as sensações destacadas da inércia rotineira. Me lembrou Amélie Nothomb e sua vida de bebê-cano, que ela narra em Metafísica dos tubos.
Um trecho:
Começo 4
Porque não nasci com uma colher na boca, é preciso a cada vez que ela chegue de fora.
(…)
Porque o meu nariz não cresceu para dentro, é o fora que eu respiro.
(…)
Porque os meus ossos estão ligados por nervos e por músculos, sou feita de uma só peça.
(…)
Só de botar o dedo na água, sente-se bem que não é assim tão natural que ele esteja normalmente no ar.
Desnecessário dizer o seu nome corretamente para saber que é este aí.
A constante descoberta do corpo como movimentos e possibilidades me pareceu um traço da poesia de Nathalie. Falo isso também por conta do vídeo a seguir:
O blog da revista Modo de usar fala melhor que eu sobre a autora e apresenta outro trabalho em áudio. Tudo devidamente traduzido para o português. Legal saber que eles são da livraria Beringela, um lugar muito bacana que visitei lá no Rio.