CROCHÊ E TRICÔ

aprendi pequena, com a minha avó. Pelo que lembro, fui motivada pela curiosidade em fazer também o que ela e a minha tia faziam com aquelas agulhas. Sempre tínhamos uma blusa, pares de meias, casacos, coletes, cachecóis, feitos em casa.  E vovó costurava, inclusive. Comprava-se tecidos e ela fazia vestidos, saias, lençóis, tanta coisa! Até hoje não aprendi a costurar à máquina, quem sabe um dia. É um daqueles sonhos futuros.

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Nos últimos anos, de toda forma, voltei ao interesse pelo crochê e pelo tricô — mais pelo primeiro. Um ano atrás, no começo da gravidez, me veio a vontade de fazer uma colcha de crochê para o bebê que estava a caminho (não sabíamos que era o Francisco, falo sobre isso neste post). Mas falarei mais sobre essa colcha em breve.

Ao longo de alguns meses, publicava fotos do processo da colcha, e eis que surgem pessoas pedindo dicas de como fazer, como aprender. Pelo que eu lembro, minha avó não fazia colchas de quadradinhos como aquela que fiz. A ideia veio fuçando aleatoriamente trabalhos de crochê no flickr:  jogando na busca a palavra knitting (tradução em inglês para tricô) ou crochê e vendo os resultados — com certeza vai aparecer algo que dá vontade de fazer. É possível pesquisar do mesmo jeito no pinterest.

Depois, foi muito bom assistir vídeos: tem inúmeros no youtube — pelo menos é assim que consigo aprender. Há também as explicações por escrito e os diagramas. Depende da maneira como cada pessoa aprende com mais facilidade.

Alguns sites bons que visito com frequência:

Há também uma rede social de tricoteiras: ravelry. Tenho meu cadastro lá mas não postei nada, entro bem pouco. Lá pessoas postam projetos e padrões; vale criar um perfil e olhar o que as pessoas fazem.

Até agora, estou no básico, fazendo mantas, polainas e cachecóis, coisas bem elementares. Aos poucos, sem pressa, vou testando, errando e desmanchando muito!

NÃO POR ACASO

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eu tinha aqueles momentos de insônia  na madrugada: era pra entender que uma noite inteira de sono seria coisa inexistente no futuro; não por acaso eu também acordava no meio da noite com uma grande fome: era pra entender o Francisco e sua necessidade de mamar a qualquer hora; não por acaso eu tinha enjoos e indigestões no começo da gravidez: era pra compreender melhor as cólicas e desconfortos do Francisco nos primeiros meses; não por acaso mudei planos, revi algumas ideias, pesquisei muito: era para me dar conta de que um bebê tem o mundo todo para descobrir, tudo é novo e imprevisível; não por acaso eu suprimi café, álcool, algumas coisas gordurosas ou fortes demais: era para eu perceber que um bebê não tem um estômago maduro o suficiente para determinados alimentos; não por acaso meu humor oscilava: era pra saber viver as mudanças e fases delicadas de todo bebê, as semanas mais dependentes de mim; não por acaso eu precisava dormir muito, seja de manhã, de tarde ou à noite: era pra entender que o Francisco precisa dormir muitas vezes ao dia, sem hora marcada; não por acaso o barrigão dos últimos meses me fazia caminhar mais lentamente, me impedia alguns movimentos: era para me identificar com  o Franciso, quando quer alcançar algo que vê à frente e ainda não consegue

— ao perceber a conexão entre o que acontece comigo e com meu filho, tanta coisa se torna mais compreensível, tanta coisa faz sentido… e tudo é bem-vindo.

21 DE DEZEMBRO

é dia do solstício, quando temos o dia mais longo no hemisfério sul, a noite mais longa no norte; quando o verão ou o inverno começam. É um dia, portanto, de passagem.

21 de dezembro de 2012 era o dia, alguns diziam, que os maias haviam previsto para o “fim do mundo” — ou pelo menos como o marco para o começo de novos tempos; era o ponto final do calendário maia. Ao que tudo indica, o mundo não acabou. No meu caso, esse foi um dia que sinalizou o começo de uma nova vida.

Logo cedinho, umas 5 ou 6 da manhã, fiz o teste de gravidez que havia comprado na farmácia na noite anterior. O resultado: positivo! Não poderia haver surpresa maior que essa. Meses antes, um ginecologista disse que eu poderia ter dificuldades para engravidar, por conta dos ciclos irregulares.

Mesmo antes de confirmar com a ginecologista (fui procurar outra médica para acompanhar a gravidez), já comecei a fazer algo que virou praticamente minha rotina de grávida: estudar, descobrir mais sobre esse mundo que eu ainda desconhecia. Comecei a visitar sites, entrar em contato com pessoas que poderiam me ajudar, buscar livros, filmes…

Tanta coisa nova aconteceu desde então: planos foram mudados; projetos foram deixados de lado; abrimos espaço em casa; rearranjamos muita coisa. Mas, principalmente, aprendemos muito.

O tempo da gravidez foi vivido com todos os seus altos e baixos: muita náusea e cansaço no início, o corpo e as sensações cada dia novas, a sensibilidade diferente, o humor que tantas vezes oscilava, um pouco de insônia… Aproveitei também para dormir muito, viajar e ver filmes. Fiz aulas de ioga para gestantes que me ajudaram bastante durante o parto.

Desde que o Francisco nasceu, incontáveis coisas se passaram num curto espaço de tempo… é toda uma outra vivência do tempo, quando se tem um bebê por perto. Vez ou outra, aproveitando uma brechinha de tempo, esboço o relato do parto. Foi uma experiência sem igual, que vale a pena ser compartilhada — até porque a leitura de tantos relatos, durante a gravidez, me esclareceram e inspiraram. Mas, escrevendo, percebi que apenas um contar como foi o parto não bastava. É um texto razoavelmente longo — e ainda tanta coisa fica faltando contar!

Percebi que seria preciso escrever vários outros textos — longos ou curtos, que dessem conta da experiência da gravidez, do parto, da maternidade. Ficou claro então que o ideal seria retomar a escrita do blog e ir publicando posts, passando adiante o que temos aprendido. Nada melhor, fazer duas coisas que me deixam tão feliz: escrever e escrever sobre ser mãe!

No fim das contas, recomeçar o blog também significa voltar a temas que já faziam parte dele: cinema, desenhos, fotografia, crochê, música. Um pouco de tudo do que eu gosto.

TENHO AGENDAS

desde uns 9 anos de idade. Anotava as coisas mais miúdas do dia: a rotina da escola, devolução de livros na biblioteca, colava recortes de jornal, figuras de revista. Também deixava recados para mim no futuro; em fevereiro, pegava uma página de outubro e deixava alguma pergunta enigmática.

Ontem num caderno, li algo como: “Ana, você não vai viver esse momento duas vezes”. Deve ter sido coisa que ouvi de alguém, não sei quem mais; nem que momento seria esse. De toda forma continua sendo verdade.

ERA UMA VEZ

uma menina que escrevia; ela passava o dia todo pensando nas histórias que ia contar aos amigos: os passeios, os sonhos que ela teve com eles, com personagens de outras histórias, com diretores dos filmes que iam ver no cinema, matando aula; juntava desenhos que encontrava por aí, fotos e cartões postais perdidos no meio dos livros que ela espanava nas estantes; salvava imagens de sites perdidos na internet.

Ela tinha um jeito de escrever que não existe mais – diz um leitor, que sabe de cor um texto dessa menina, que ela mesma desconhece; texto lindo esse, que ele não consegue mais encontrar em lugar nenhum.

DOS DISCOS DAS MANHÃS

de sábado e domingo, alto na vitrola, esse ocupa um lugar central. Era daqueles que agradava tanto meu pai, como minha avó. E a mim, essa capa preta, o traço branco, o olhar tranquilo e ao mesmo tempo inquieto, sentada na cadeira de vime que poderia estar no nosso quintal. Devia saber que era uma cantora já morta, meio mito. As cordas (e ela não tinha anos antes manifestado contra a guitarra elétrica? – me pergunto agora) pareciam levar a cantora para o espaço, num céu sem estrelas, como a capa preta do disco, em meio às manhãs de sol dos finais de semana  – cantando “sou caipira pirapora” com o sino do trem saindo do túnel.

DO MONTE DE COISAS

que nos atravessam todo dia, nomes, sons, lembranças e notícias, pouco fica – e não haveria outro jeito. E o que fica, para mim, é o que consigo colocar numa narrativa, uma história mínima que seja, que prenda esse fio solto a outros fios: uma pessoa existe, veio de um lugar, é rodeada de outras pessoas, que se juntam  num bairro, numa cidade. Das coisas que faz, preciso criar um sentido, mesmo que inventado.

Isso tudo, vai saber porquê, pensei pensando no documentário Dzi croquettes, que fui ver ontem. Ou talvez o porquê não seja tão difícil de encontrar: o ponto de vista duplo do filme (histórico e pessoal) resgata e inventa uma infância.

ALGUMAS REGRAS

eu nunca entendi direito. Ia jogando porque as regras não são a razão do jogo. Algumas vezes elas são incompreensíveis, como nas explicações de manual, nos arquivos de ajuda dos jogos do computador. Mais vale olhar para o tabuleiro, juntar pecinhas, apertar botões sem critério, perder repetidamente, acompanhar o conselho de alguém que sabe mais, lembrar de outros jogos, intuindo. Truco, por exemplo, adorava ver as pessoas gritando e dando risada, batendo as cartas na mesa, trocando olhares, sem ter ideia da regra mais elementar que guiava tudo aquilo. Que mais era necessário?