DORMIR JUNTOS

é uma das coisas mais gostosas da nossa vida de mãe, pai e filho. Faz bem a nós três. É uma coisa linda de viver. E de quebra ajuda no sono de todo mundo.

Quem diria que no começo a gente tinha preparado um berço pro Francisco. Ficava colado na cama. Nas primeiras noites foi lá que ele dormiu. Quando acordava pra mamar, eu levantava, amamentava sentada no sofá. Caía no sono muitas vezes, com ele no colo… Cansativo. Compreensível que assim muitas mães comecem um desmame noturno precoce — por falta de energia para encarar um sono picado. Eu encararia esse ritmo. Mas ainda bem que apareceu essa solução elementar: a cama compartilhada.

Agradeço ao Marco por ter tomado a iniciativa de trazer o Francisco pra nossa cama na hora de dormir. Foi ótimo! Comecei a amamentar deitada. Isso significa que de madrugada temos um mínimo de esforço. Praticamente dormindo o Francisco se aproxima e mama.

Mas não quero dizer que dormimos a noite toda, sem acordar. Eu mesma preciso muitas vezes fazer um xixi noturno.

E por falar em xixi noturno, o Francisco usa uma fralda de pano com cobertura extra; assim, trocamos de fralda de manhãzinha, na maior parte das vezes.

O dormir junto também vale para as sonecas durante o dia. Dá para perceber claramente a qualidade e a duração do cochilo quando estou junto e quando deixo o Francisco dormindo sozinho. Até mesmo junto com o Marco o Francisco dorme melhor. Certamente é algo instintivo: um bebê pré-histórico dormindo desacompanhado seria uma presa muito fácil, não?

E os afazeres da casa, você deixa de lado pra ficar deitada junto com o Francisco? Sim. Prefiro que a louça, o amontoado de roupas e a poeira no chão fiquem esperando… questão de priorizar.

Com o tempo percebemos o quanto é valioso o sono — não somente do ponto de vista prático, mas pelo aspecto afetivo. Dormir junto é dividir muito carinho, proteger-se uns aos outros.

Quem opta por cama compartilhada se confronta com alguns mitos que circundam o assunto. Tudo fácil de rebater!

Em outro post já recomendei alguns textos, vale a pena repetir os links: aqui e aqui; recomendações e cuidados, aqui. Ah, tem esse aqui também.

E bom sono ;)

“CADÊ A CHUPETA DO BEBÊ?”

essa é uma pergunta que muitas crianças já fizeram ao ver o Francisco. Parece natural que um bebê use chupeta. Algumas dessas mesmas crianças ainda tem chupeta.

Lembro-me muito bem de quando eu era pequena. Tive chupeta até uns quatro anos. Larguei uma noite, antes de dormir. Pareceu simples: joguei-a fora no lixo do banheiro. Minha mãe insistia para eu largá-la, atendi ao seu pedido. Por outro lado, a mamadeira, essa foi duro de largar. Demorou muito mais tempo. Em família, não me envergonhava de tomar com o bico meu leite com nescau.

Só pela minha experiência de criança, eu não dou nem chupeta nem mamadeira ao Francisco.

A lista de contras é muito grande. Vai de danos à formação dos dentes, à respiração, à postura corporal como um todo, passando pela dependência afetiva. O bico artificial supre uma falta e torna-se um objeto transicional. Quando a criança “já está grandinha” os adultos querem a todo custo — até mesmo colocando pimenta — tirar esse hábito que lhe dá tanto conforto. Afinal, pensa-se sobretudo no ponto de vista do adulto: quando pequeno, é conveniente dar uma chupeta. Já grande, melhor escondê-la, eliminá-la.

Já disse em outro post que o pós-parto é um momento delicado, em que nossas convicções podem enfraquecer. Pois eu confesso que por um átimo — foi um momento bem breve — eu cogitei dar chupeta ao Francisco. Isso porque eu estava com o mamilo ferido e me perguntava se eu daria conta de atender à sua necessidade de sucção. Amamentar, como bem sabemos, não é só alimentar mas dar aconchego, carinho. A sucção relaxa, ajuda nas cólicas, auxilia o sono.

Ainda bem que encontrei os argumentos que me fizeram de uma vez por todas ter a certeza de que a chupeta nos prejudicaria. Seguimos forte no peito, confrontando a ideia de que ele faça meu peito de chupeta — coisa que, pensando bem, não faz sentido algum: o peito é natural, a chupeta é que foi criada para substituí-la!

Mas e a mamadeira? Há uma alternativa muito simples, o copo! Ele ainda não segura o copo sozinho, mas com um pouco de ajuda nossa ele já dá seus golinhos.

Pra finalizar, deixo algumas indicações de leitura: na vila mamífera, no slingando, e na cientista que virou mãe.

MEU ANIVERSÁRIO

é no mês de julho e quase sempre acontecia durante as férias da escola — ou ao menos no final de semestre. Minha irmã nasceu numa data bem próxima, por isso organizava-se uma festinha para as duas, sempre simples, em casa.

Virou feriado na cidade de São Paulo, quando eu já tinha uns 10 anos. Assim, era um dia livre, sem escola nem trabalho. Comemorava junto com a irmã ou outras amigas que também nasceram em julho.

Uma vez era final da Copa, França e Itália; o bar cheio de gente vendo o jogo no telão. Foi divertido, talvez porque o jogo tirava um pouco da atenção sobre o momento.

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Os anos foram passando e meu aniversário começou a me trazer uma sensação estranha. Uma vez estava voltando de avião pra casa, depois da primeira viagem ao exterior. E em outros anos, calhou de passar o aniversário fora, por conta de alguma viagem — fazendo cursos, que normalmente acontecem em julho, período de férias estivais no hemisfério norte. Aí um ano eu realmente me mandei. Quis me isolar, ter pouca gente ao redor. E repeti o isolamento outras vezes. Ia pra algum outro lugar. Evitava que as atenções se voltassem para mim.

Ano passado estava já com um barrigão. Fiz poucas coisas, comemos fora. Não vi muita gente. Preferi assim.

Muitas vezes associamos aniversário com festa, ver pessoas, comer e beber, agitação, barulho. Acho bem válido, mas não em todos os casos. Aniversário é a marca do nosso nascimento, nossa vinda a este mundo. Recomeça um novo ano. Deve ser especial sim. Mas não necessariamente efusivo.

Pode ser que ano que vem eu mude de ideia e faça uma grande festa. Pode ser que não. Quem sabe?

O CHORO E O SONO DO BEBÊ

são os assuntos mais comentados quando se tem um recém-nascido por perto. É receber uma visita ou encontrar alguém na rua e ouvir: “E aí, ele dorme bem? Dorme de madrugada? A noite toda? Chora muito?”

Admito que eu mesma já recorri a perguntas como essa. A gente nem sabe por que entra nesse tipo de conversa com mães e pais; por simples costume, quem sabe. Imaginamos que os primeiros meses de um bebê são marcados por dificuldade, por noites em claro e choros inexplicáveis.

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Grávida, ouvia muito outro tipo de conversa, aquela coisa meio ameaçadora: “Você vai ver o que é dormir pouquíssimo, com um bebê que não para de chorar”. Estranho isso, perceber x bebê como algo que vai incomodar. Eu já vivi muitas noites em claro, seja estudando, preparando aulas ou até no bar conversando com amigxs ou na balada. Seria tão ruim passar a madrugada acordada com um/a bebê? “O bebê faz manha, não faça todas as vontades dele, deixa chorar, não pega muito no colo senão acostuma…” Esse papo também me deixava desconfiada. Além do mais, me partia o coração ao ver alguém deixar seu/sua filhx chorar no berço ou no carrinho. Se está chorando é porque precisa de algo, não?

Fui então ler a respeito. Felizmente encontrei boas leituras, como a Laura Gutman e o Carlos González; eles deram o outro lado de toda essa história de choros, manhas e noites em claro. Também me deparei com algumas técnicas, métodos para acalmar ou fazer dormir x filhote. Até achei interessante a ideia do dr. Karp, dos cueiros, o ruído branco — de simular o ambiente uterino. Mesmo assim eu testei pouquíssimo essas ideias. Preferi a fusão emocional e a necessidade de contato físico de que falam Gutman e González.

“E aí, o Francisco dorme bem de noite?” Sim. Ele dorme junto conosco. Adormece quase sempre no peito ou embalado por alguma música. Dormir a noite toda é um mito. Bebês tem estômago pequeno e sentem fome de madrugada. Sempre dou peito quando ele precisa. O leite artificial é mais difícil de digerir, por isso alguns bebês dormem pesado por longas horas. Mas esse não é o nosso caso. É ruim criar essa expectativa do sono contínuo logo no primeiro ano de vida. É preciso aprender a dormir. E bebês podem aprender de várias maneiras….

“Mas o Francisco chora pouco, né?” Eu digo que ele chora quando precisa chorar. Em boa parte dos casos, e principalmente nos primeiros meses, o choro é um recurso extremo de comunicação. Se está chorando é porque antes tentou comunicar algo, por gestos, sons ou feições do rosto, que algo não está bom — mas não foi atendido. Pode ser fome, fralda suja, pessoa estranha, cansaço, tédio, tantas outras coisas.

E o que viria a ser a tal manha? Necessidade de contato, afeto, proteção?

Falando de choros que são interpretados como manha, um amigo contou uma história de sua infância — da qual ele não se lembra mas lhe contaram. Quando tinha uns dois anos de idade, e a irmã mais nova era bebezinha, ele começou a chorar muito. Pensaram logo que era manha, ciúmes. O choro continuou, levaram o menino ao médico. Saíram de lá com o mesmo diagnóstico. Dias depois, como o choro persistia, voltaram ao hospital: era apendicite o problema. Se tivessem esperado mais tempo, seria tarde demais. Por que se ignora o fato de que o choro sinaliza algum problema que deve ser levado a sério?

A gente buscou desde o início afinar a comunicação com o Francisco. Talvez por isso chore pouco — porque levamos qualquer resmungo, gesto agitado ou gritinho em consideração. Sei que há diversos tipos de temperamento, experiências as mais variadas. O tema é muito vasto. Vale ler o texto sobre choros no blog da cientista que virou mãe, um dos melhores a respeito. A síndrome dos pais sortudos, igualmente. E esse texto do Carlos sobre cólicas também.
Uptade: esses oito fatos são igualmente importantes!

Acima de tudo, fazer o esforço de observar o mundo pelos olhos dx bebê faz com que tudo mude de perspectiva.

UMA MUDANÇA NA ALIMENTAÇÃO

começou aqui em casa, em fevereiro. Ao mesmo tempo em que o Francisco completou seis meses e foi experimentando as primeiras frutas e legumes, eu dei início a um tratamento que exclui açúcar, trigo e laticínios do cardápio.

Assim, somos nós dois a aprender a comer. Pelas minhas leituras, parece comum esse tipo de situação: mães e pais tomam a introdução alimentar dxs filhxs como uma oportunidade para comer com mais consciência, cozinhar melhor e de maneira mais saudável.

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Por que essa minha restrição? Observando meu histórico de saúde e fazendo alguns controles, cheguei ao seguinte resultado: metabolismo muito baixo e, principalmente, sistema imunológico bem fraquinho. Tanto uma coisa como outra são consequência de uma série de fatores. De toda forma pode-se dizer que a alimentação desempenha um papel muito importante nesse jogo. Açúcar, glúten e proteína de leite de vaca seriam agentes que me levaram à situação em que me encontro.

Já faz uns anos que conheço, mesmo que superficialmente, o trabalho de Sonia Hirsch e seus livros. Sabia que deveria mudar minha alimentação para melhorar a saúde e o espírito. Ter me tornado mãe está me dando essa chance.

Para a minha saúde, tenho sentido os efeitos dessa mudança — não só no corpo mas também na disposição e no humor. De alguma forma os doces agiam sobre minha ansiedade. Comer também se relaciona muito com nossos afetos e lembranças. Da mesma forma, age como elemento de socialização. Todos ao redor estão tomando um delicioso café com bolos, croissants e geléias, cheio de cores e cheiros… enquanto eu estou comendo pêra, ameixa e banana. O que isso interfere na nossa comunicação?

Isso tudo me faz repensar as relações com as pessoas, com a natureza e até mesmo com o dinheiro. Qual o custo dos orgânicos, em confronto aos industrializados, por exemplo?

Esses meses tem sido bons e cansativos. A rotina mudou bastante. Antes, era rápido matar a fome com um sanduíche de queijo, um biscoito integral. Agora, precisamos ir atrás de frutas frescas, cozinhar os legumes, preparar arroz… No fim das contas, é tudo uma questão de hábito. Mas está aí o ponto: mudar um hábito às vezes é o principal desafio.

O BLW, NOS TRÊS PRIMEIROS MESES

foi uma experiência muito rica para nós. Francisco já tinha curiosidade em pegar nos alimentos, nos talheres e copos sobre a mesa.

Começamos com banana. As primeiras engolidas são estranhas, mas não tivemos nenhum engasgo forte! Os pedaços grandes ou que ele não consegue engolir a língua se encarrega de colocar pra fora.

Como já disse no primeiro post sobre blw, esse método prevê muita sujeira: mesa, roupa, cadeira, chão… em todo lugar vai parar um pedaço de comida. Muitas vezes é melhor ir direto pro chuveiro depois da refeição. Paciência também é muito importante! A carinha feliz dele provando os alimentos compensa o esforço.

Talvez não lembre de tudo, mesmo assim vale listar algumas coisas que o Francisco experimentou: banana, pêra, maçã, mamão, pêssego, ameixa fresca e seca, damasco fresco e seco, abacate, kiwi, melão, abacaxi, morango, framboesa, cereja, manga, laranja, mexerica… entre as frutas. De resto: abobrinha, tomate, cenoura, berinjela, pimentão, batata, aspargo, mandioca, ervilha, cebola, alho, alface, rúcola, espinafre, arroz, lentilha, quinoa.

Frutas são mais fáceis de servir. Ainda sinto muita necessidade de aprender a cozinhar bem, condimentar de um jeito gostoso sem apelar pro sal. Cozinho a vapor os legumes, asso quando possível, com óleo de coco ou azeite. Compramos orgânicos maior parte das vezes.

De laticínio só iogurte natural, puro, mesmo assim super pouco, menos de uma colher de chá no café da manhã, quando ele demonstra interesse. Com o tempo, quero aprender a fazer iogurte em casa.

Até agora, nada com farinha de trigo, açúcar ou industrializados. Se oferecem, recusamos.

Tudo legal nesses primeiros três meses de introdução alimentar. Depois dos 9 meses, nos deparamos com alguns limites: coisas como espinafre, arroz, quinoa, lentilha, grão de bico são difíceis de pegar. Dizem que se deve esperar que o bebê desenvolva o movimento de pinça com os dedos. Mas eu fico aqui me perguntando se eu não poderia oferecer com uma colher…

O Francisco desenvolveu seu gosto; reconhece de imediato uma banana, uma fatia de melão, uma cenoura. Mas também quer variedade. Seu apetite e interesse pela comida ainda não é constante. Tem vezes que come muito, em outros momentos não aceita nada. Ele também se interessa muito pelas coisas que nós comemos e não podemos lhe dar.

A partir dos nove meses do Francisco meus desafios são: pesquisar receitas de comidinhas alternativas, que fujam dos laticínios, glúten e açúcar; integrar mais o Francisco nas refeições; variar o cardápio (muitas vezes sirvo tomate ou cenoura pela rapidez, por exemplo). Em suma, aprender muito sobre cozinha e comida.

ERA FESTA JUNINA

no pré, a professora estava organizando a quadrilha. Não lembro direito: acho que na turma havia bem mais meninas que meninos. Por isso, não dava pra criar pares sem que algumas meninas se vestissem de menino.

Qual o critério que a professora levou em conta pra escolher que meninas seriam meninos? Arrisco dizer que eu mesma me ofereci pra ser menino.

As roupas de quadrilha das meninas pareciam chatas. Aquele chapéu com duas trancinhas magras e postiças nunca me agradou. Eu, de cabelo ralo e curto também não poderia ter boas tranças.

A roupa dos meninos era toda improvisada. Não precisava comprar pronta no Jumbo, como o vestido de chita. Era pegar uma calça jeans e costurar remendos falsos. Uma camisa xadrez de flanela, que sempre tivemos. Qualquer sapato ou tênis. Um lenço colorido da mãe. Com a maquiagem da mãe também, fazer uns desenhos de bigode e cavanhaque. Ah, não esquecer de pintar uns dentes de preto. Tá pronta.

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A foto é escura; mesmo assim dá pra perceber meu sorriso.

Muitos anos depois, dancei quadrilha de menina, com tranças verdadeiras e tendo como par meu então namorado.

“E O MEDO?”

muita gente já me perguntou, das maneiras mais variadas. É normal esperar que se sinta medo durante a gravidez e principalmente o parto. A dor, sobretudo, é o que mais assusta.

No começo da gravidez relembrei a célebre frase do Gênesis: “parirás teus filhos com dor”, algo assim. A dor seria então um castigo divino, equivalente ao suor do rosto, o trabalho árduo necessário à sobrevivência.

Dá medo de um castigo tão forte imposto a nós mulheres? Uma moça me disse, no começo da gravidez: “é impossível suportar as contrações; você vai pedir por anestesia!” Ela teve seus dois filhos por cesárea, eu nem quis argumentar; limitei-me a dizer: “eu prefiro parir sem anestesia”.

Sim, a minha ideia era sentir tudo. E felizmente foi o que eu vivi.

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Não lembro mais onde eu li que o contrário do medo é o amor. Dediquei-me a amar tudo com todas as minhas forças: amar a mim, meu corpo, o Marco, x bebê. Amar a água, a comida, o sol, a cama. Tentava irradiar de alegria. Fechar os olhos e ficar desejando o melhor para nós.

Muitas vezes se compara o parto com um passeio de montanha russa. Faz bem sentido: uma vez lá no alto, o melhor a fazer é se deixar levar. No caso das contrações, deixando o corpo livre, movimentando-se, gritando, abraçando alguém próximo.

Bem no momento em que o Francisco estava saindo, o que fiz foi segurar as mãos do Marco. Eu sentia o círculo de fogo, talvez o ponto mais forte do parto. Dias depois, me disse o Marco que eu apertei com tanto vigor que suas mãos doeram. Eu sou o tipo de pessoa que tem dificuldade pra abrir vidro de geleia. De onde tirei força pra esmagar as mãos do Marco?

A quem me pergunta sobre o medo, a dor e as sensações do parto, tento responder que cada pessoa vive à sua maneira essa experiência. E que podemos sempre nos surpreender com a força e a coragem que vive dentro da gente.

O PARTO, COMO EU IMAGINAVA

seria na água. Gosto muito de água, acreditava que seria um bom meio de transição para x bebê. Assisti vários vídeos de partos em banheiras. Assegurei-me que poderia ter uma na casa de parto.

Também imaginava um trabalho de parto longo. Muitas contrações espaçadas; eu poderia dormir entre elas. Talvez durasse mais de um dia… estava pronta pra enfrentar uma maratona.

Levei umas garrafas de água de coco na mala. Queria tomar algo de gostoso e nutritivo durante o trabalho de parto; hidratar e dar um gostinho de coco àquele momento.

Pensava que iria chorar muito ao ver x bebê, assim como eu chorava lendo e vendo vídeos de parto.

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No fim das contas, Francisco nasceu na cama da sala de parto. Poderia ter sido de cócoras; mas na hora, improvisei ficar de quatro apoios — de acordo com o que sentia naquele momento. Nem foi possível cogitar a banheira porque chegamos na casa de parto com dilatação total e quase coroando. Tive contrações pouco espaçadas, não dormi. Foi muito rápido, tudo aconteceu em seis horas. Só comi uma banana durante esse tempo. A água de coco ficou lá esquecida na mala. Não chorei ao ver o Francisco; estava radiante de alegria. Fui chorar só dias depois, ao voltar pra casa e quando recebemos a certidão de nascimento.

Entre o planejado e a realidade, o mais importante foi ter-me preparado para o imprevisível.

UMA FOTO MINHA, DE 2010

DSCN2673me chamou a atenção, dia desses; ultimamente tenho reaberto muitas pastas de fotos, no computador, no disco de backup, no flickr, por aí. Fui olhar para mim no passado, para os passeios que fazia, as pessoas com quem me encontrava, as atividades de que participava, os lugares que me interessavam.

Alguém, não sei mais quem, tirou essa foto de mim, com a minha câmera nikon que me acompanhou durante uns cinco anos. Foi a primeira digital, num tempo em que não valia a pena tirar foto com o celular. Estava me apresentando no encontro de francês, na faculdade, em outubro de 2010. Participava de uma mesa intitulada “Autobiografia e mulheres”. Na verdade, minha pesquisa trabalhava pouquíssimo, senão nada, com a questão feminina. O “mulheres”, no meu caso, poderia se referir ao fato de eu ser mulher, talvez — de que eu pesquisasse sob um ponto de vista feminino. Digo isso porque eu estudava um crítico francês, seus textos, principalmente aqueles em que ele falava de outros homens: Rousseau, Leiris, Gide. Também textos de outros homens críticos — Starobinski, Poulet, Raymond — falando também de outros homens: Rousseau de novo, Sartre, entre outros.

Fui reler o texto da apresentação. Sempre tive dificuldades, por conta do tempo limitado para falar; da fala contínua de 15 ou 20 minutos sem interrupção. E o texto para os anais parece mais estranho ainda, visto o limite de páginas, somente duas. Consigo até entender o que eu quis transmitir, mas duvido daquilo que quem lê compreenda.

Sobre a foto, ela me faz lembrar como eu estava naquela época. Tinha emagrecido bastante, depois de uma época mais cheinha. Agora pensando, talvez tivesse engordado antes por conta de um tratamento a base de antibiótico forte, para aliviar um problema de pele. Será, faz sentido essa relação? Estaria eu vivendo o retorno de Saturno, mudança de setênio, coisas que conheço superficialmente?

Estava quase toda de preto, blusa de alcinha, saia cinza bem escura, meia calça. Reconheço os sapatos que estava usando, redondinhos na frente e baixos.

Imprimi o texto em folhas de sulfite verde claras, como eu gostava de fazer. Usava fonte cinza, para dar baixo contraste. Com certeza também tinha escrito algo num caderninho. Poucas vezes usei power point para me apresentar, só quando muito necessário, para mostrar fotos ou imagens.

Dois anos depois, em outubro de 2012, estava defendendo a dissertação. Desse ponto até lá, tanta e tanta coisa mudou. Eu quase não falava mais das fraturas que estavam tão presentes em 2010 — elas praticamente sumiram no texto final. Espero ter me tornado um pouco menos enigmática, mas não de todo.