EU QUERIA SABER

— esse é um rascunho de post, de quatro anos atrás, que encontrei há pouco tempo. A foto é de um caderno, daqueles que eu usava como diário, naquele época. Eu desenhava, copiava trechos de livro, traçava planos, contava pequenos causos.

O que escrevi tem tudo a ver com coisas que eu penso desde pequena. Com uns nove anos de idade, comecei a ter agendas e diários. Num deles, de brincadeira, escrevia pequenas mensagens para o futuro. Por exemplo: era fevereiro; eu abria uma página em setembro e escrevia algo curto. Pensava em fazer um teste comigo mesma — será que daqui alguns meses vou me lembrar desse momento aqui presente?

Anos e anos depois, fazendo o mestrado, fui atrás do diário de Helena Morley. Já tinha assistido ao filme, e gostado muito. Num trecho ela fala em “histórias do tempo antigo para o futuro“. Essa expressão me marcou demais. Porque é isso mais ou menos que me dá prazer em criar: pequenas histórias, como garrafas que se lança no mar, para se ler num tempo posterior.

O eu do passado diz muitas coisas ao eu de hoje. Só não sei que carta é essa que não chegou. Pensando bem, talvez ela já tenha chegado, essa carta que eu estava esperando.

QUANDO NOS MUDAMOS

para um apartamento, depois de uns anos em casa com quintal em rua calma, fazíamos muito barulho. Mas talvez um momento ficávamos mais quietinhos: quando o dia ia acabando, o sol indo embora, era bonito ver a paisagem que se abria na janela.

O apartamento ficava no oitavo andar: em volta, poucos prédios próximos. Por isso, a visão era bem ampla. Dava para ver a torre do Banespa, o Altino Arantes, lá longe, bem no centro da nossa sala. Um belo privilégio. O sol nascia bem nessa direção, a leste. A luz invadia toda a sala, até a porta de entrada.

Olhando bem para baixo, havia muitas casinhas. Um grande terreno, daqueles antigos, com fundos vastos. Tinha uma mangueira (ou era um abacateiro?). E galinhas ciscavam. O galo cantava, principalmente de manhãzinha.

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Raramente, podíamos ver arco-íris abrindo-se no céu. A gente corria atrás da máquina fotográfica para fazer um registro desse acontecimento tão único.

Uma vez pude presenciar uma gata dando à luz, no telhado de uma dessas casas. Os gatinhos saindo, um a um, de dentro da mãe. Eu duvidava da cena, mas era aquilo mesmo.

Morávamos no mesmo quarteirão da escola. Adiante, dava para ver a quadra de esportes. Uma parte do pátio coberto também. Assim, quando eu estava doente e faltava no dia de alguma festa — junina ou da primavera — eu ficava na janela observando o movimento das crianças. Por sinal, eu quase sempre ficava doente em dia de feira de ciências ou festas. Ausentava-me dos momentos especiais e festivos da escola, ainda sem saber direito o porquê.

SÍNDROME DE MIGUELITO?

era o título de um post que publiquei em 5 de novembro de 2003, no colher. Cheio de pontos de interrogação, me questiono sobre o tempo e uma provável preguiça. O interessante é que, relendo hoje, não me parece preguiça o que eu sentia. Quem sabe fosse tédio.

Lembro bem que eu me recusava a sentir tédio. Tanta gente ao meu redor falava dele, mas eu achava que aquilo não me atingia. Eu tinha muito o que fazer, sempre uma atividade, um compromisso, uma tarefa. Sentia-me feliz ocupada e distraída.

Repensando agora, evitar o tédio era também evitar pensar sobre coisas importantes na vida. Sempre em movimento, não me permitia enfrentar as dúvidas que nos perseguem.

Durante muito tempo quis ser uma menina exemplar: boas notas na escola, simpatia. Era uma tentativa de agradar, satisfazer alguma possível expectativa dos outros. Essa menina que quis ser exemplar tornou-se mãe e se confronta com a mesma questão. Só que se deu conta de que não é necessário agradar a ninguém mais que eu mesma. Se estou feliz e segura das minhas escolhas, então o mundo estará feliz.

De uma forma ou de outra nós enfrentamos o tédio, o Francisco e eu, em dias chuvosos, em que o melhor é ficar dentro de casa. Aí me defronto com minhas escolhas: suas vantagens e seus pontos fracos. Como tanta coisa na vida, nada é perfeito, tudo tem seu defeito. Luz e sombra existem uma pela outra.

Algo estava acontecendo lá em novembro de 2003. Eu não sabia explicar o quê. Fazia muitas alusões a mudanças, transformações, dar espaço a coisas novas, futuro.

Como faço agora, exponho pela escrita minhas incertezas, lanço-as ao futuro, para que eu mesma possa ler anos e anos depois.

 

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Talvez sim. Está difícil de explicar, de tentar esclarecer. De saber qual seria a razão. Não que haja só uma razão. Como também não dá pra se dizer que nada está acontecendo. O tempo está passando – como sempre. Tenho coisas pra fazer – tem sido assim desde há muito. E o que há de diferente então nesse exato momento? Cansaço? Ansiedade? Angústia? Incerteza? Alegria com pequenas coisas que a gente tenta prolongar? Fins-de-semana que passam rápido como um piscar de olhos? Desilusão? Isolamento? Vontade de desistir com uma coisa pra dar espaço pra outra? Tentar passar a limpo um monte de coisas pra uma folha nova, pra que tudo fique claro? Querer continuar a fazer o que se gosta? Iniciativa de tomar novas atitudes, ao mesmo tempo descontroladas e sensatas? Necessidade de férias que não virão? Dependência de outras coisas pra que hajam mudanças? Não conseguir saber como serão as coisas mesmo a curto prazo? Tudo isso junto. E nem tudo isso também.

Como anda tão difícil pra mim mesma tentar definir, parece que todo mundo consegue entender. E uma das maneiras de chegar mais perto disso está sendo a de demonstrar em maior ou menor ângulo justamente o que eu não sei o que é.

LEITE COM NESCAU EMBAIXO DA CAMA

— era com isso que eu tinha sonhado. Um copo de vidro, daqueles de requeijão, e leite achocolatado. Seguramente, colocavam um pouco de açúcar, para adoçar ainda mais a mistura. Era isso o que eu bebia todas as manhãs. Provavelmente, tinha pão com manteiga, ou banana, para acompanhar.

Certa vez, sonhei que o copo com nescau tinha sido deixado pela minha avó embaixo da cama, onde eu dormia. Ela teria feito isso como uma surpresa, para mim, antes de eu acordar. No sonho, eu acordo, pego o copo ainda deitada e logo bebo o leite que eu tanto gostava.

Mas o que aconteceu depois do sonho? Eu acordei, do mesmo jeito que tinha acordado no sonho. Só que dessa vez não havia nada embaixo da cama. O leite com nescau estaria na cozinha, como sempre esteve todos os dias da vida.

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Cheguei à cozinha triste. Perguntei à vovó: “cadê o leite que você colocou embaixo da minha cama?” Ela não deve ter entendido nada da minha pergunta.

Talvez já naquele momento eu teria compreendido que há sonhos muito parecidos com a realidade. Às vezes até paralelos a ela. Esses sonhos ao mesmo tempo são próximos e distantes do que vivemos. Seriam uma outra vida?

SEIS ANOS ATRÁS

encontrei, seguidas vezes, um velhinho no cinema — uma vez no belas artes, depois no antigo unibanco; até no ponto de ônibus na frente do MIS, voltando para casa (já escrevi sobre ele rapidamente, naquela época).

Ele vestia camisa e paletó, apoiava o corpo pesado com uma bengala. Movimentava-se lento e não sem alguma dificuldade. A fala era pausada.

Conversamos essas vezes. Ele comentava um pouco de tudo: a melhor cor de roupa para proteger-se dos raios solares era azul marinho, por exemplo. No MIS ele foi acompanhar o festival de filmes de surf, o que nos pareceu bem inusitado para o gosto de um senhor idoso.

Sobretudo, falamos de literatura. Ele tinha feito Letras como eu, na FFLCH. Disse a ele que estava começando a fazer o mestrado. Recebi dele uma das dicas mais valiosas:

— Escreva todos os dias; um pouquinho que seja. Pratique a escrita como se pratica um esporte. Assim vai ser mais fácil enfrentar o processo de construir a dissertação.

Com isso em mente, voltei a escrever com mais regularidade, sobre coisas corriqueiras, sonhos, filmes, livros, músicas. Seis anos atrás abri o ovonovo, este blog aqui, deixando o colher, que também me acompanhou tanto tempo. Tanto num blog como no outro, há fases de pausa, como momentos de atividade intensa.

Captura de Tela 2015-01-18 às 22.34.06essa era a carinha do colher no começo

Releio os posts e me surpreendo, me redescubro. Me deparo com verdadeiros lembretes que escrevi para mim mesma no futuro.

São inúmeros os pequenos encontros nesse caminhar da vida: volto o olhar para trás muito grata e feliz por todos eles; por terem me trazido aqui e agora.

EU QUERIA PIPOCA DOCE

daquelas de canjica; elas vinham num saco de plástico rosa; uma marca, chamada “Rock”, trazia desenhos de instrumentos musicais na embalagem.

Estávamos passeando na rua. Era fim de tarde, um domingo? Não sei onde tínhamos ido. Mas talvez meus pais estivessem bem cansados, pra lá e pra cá de ônibus com as três crianças. Eu era a maior e por isso deveria me comportar e dar menos trabalho.

Mas eu queria um saco de pipoca. E meus pais disseram: — não. Pode ser que não fosse hora de comer doce, que o dinheiro estivesse contado. Nada disso me interessava: eu queria um saco de pipoca. Pipoca doce. De canjica. Marca “Rock”.

Fonte da imagem: aqui

Não, não e não. Insisti. Chorei. Gritei. Fiz birra. Queria pipoca. Queria porque queria. Não ter a pipoca parecia o fim do mundo.

Meus pais finalmente cederam. Encontraram um camelô pela rua, que vendia as pipocas, penduradas. Me deram o saco de plástico rosa com os instrumentos musicais.

Tão logo abri a embalagem, perdi a vontade de comer a pipoca. Ela se evaporou no ar. Não queria pipoca doce. Devolvi o saco aos meus pais, que devem ter ficado furiosos. E eu, tão triste como antes.

Eu não queria pipoca doce.

SOBRE AQUELA FOTO, DE 2010

que foi o tema desse post aqui, ainda me vieram à mente outras coisas, sobre as quais vale a pena escrever.

Semanas antes da apresentação, entrei num estado de crise. Bateu uma profunda dúvida em relação ao que eu estava fazendo. Quero estudar autobiografia? É isso mesmo o que quero para mim? Será que não haveria outro tema, outro interesse que eu poderia explorar? Não enxergava nenhuma resposta. Fui adiante, mesmo com a visão embaçada. Às vezes é necessário confrontar-se com uma imagem pouco nítida, como uma pessoa em movimento — é mais ou menos o que diz Wittgenstein num texto que me tocou muito um ano antes. O mestrado foi um enorme aprendizado, no âmbito pessoal, sobretudo: para lidar com x outrx e comigo mesma.

Voltando àquele tempo, sentia-me bonita, gostava daquelas roupas, do corte de cabelo; essa lembrança foi clara, logo ao ver a foto. Acho bonita essa Ana Amelia de quatro anos atrás. Paro pra pensar em como o tempo voa rápido e talvez não passe de uma ilusão.

Eu estava magra, mas isso não significa que comia bem ou que estivesse bem de saúde. Lembro que para compensar o estresse, abria uma lata de leite condensado — coisa tão comum, fazer um brigadeiro de panela para acalmar os nervos. Devorava doces, sedenta. Agora entendo melhor aquela minha dependência de açúcar. Antes, eu diria que chocolate era algo indispensável na minha alimentação. Hoje, quase seis meses seguidos sem comer nenhum tipo de doce, percebo que podemos mudar nossos hábitos.

Naquele outubro de 2010, estava me tratando com homeopatia e tinha me matriculado no kung fu. Ouvia muita música, ia a vários shows, mesmo sozinha. Era como se o som do palco e a multidão da plateia me davam um pouco de força. Uma força que eu tentava obter também nos movimentos do kung fu. Força que estou ainda à procura.

Olho para trás com felicidade: sim, tanto agora como naquele momento caminho minha estrada, ao mesmo tempo tão diferente de antes, mas tão igualmente parecida.

MEU ANIVERSÁRIO

é no mês de julho e quase sempre acontecia durante as férias da escola — ou ao menos no final de semestre. Minha irmã nasceu numa data bem próxima, por isso organizava-se uma festinha para as duas, sempre simples, em casa.

Virou feriado na cidade de São Paulo, quando eu já tinha uns 10 anos. Assim, era um dia livre, sem escola nem trabalho. Comemorava junto com a irmã ou outras amigas que também nasceram em julho.

Uma vez era final da Copa, França e Itália; o bar cheio de gente vendo o jogo no telão. Foi divertido, talvez porque o jogo tirava um pouco da atenção sobre o momento.

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Os anos foram passando e meu aniversário começou a me trazer uma sensação estranha. Uma vez estava voltando de avião pra casa, depois da primeira viagem ao exterior. E em outros anos, calhou de passar o aniversário fora, por conta de alguma viagem — fazendo cursos, que normalmente acontecem em julho, período de férias estivais no hemisfério norte. Aí um ano eu realmente me mandei. Quis me isolar, ter pouca gente ao redor. E repeti o isolamento outras vezes. Ia pra algum outro lugar. Evitava que as atenções se voltassem para mim.

Ano passado estava já com um barrigão. Fiz poucas coisas, comemos fora. Não vi muita gente. Preferi assim.

Muitas vezes associamos aniversário com festa, ver pessoas, comer e beber, agitação, barulho. Acho bem válido, mas não em todos os casos. Aniversário é a marca do nosso nascimento, nossa vinda a este mundo. Recomeça um novo ano. Deve ser especial sim. Mas não necessariamente efusivo.

Pode ser que ano que vem eu mude de ideia e faça uma grande festa. Pode ser que não. Quem sabe?

ERA FESTA JUNINA

no pré, a professora estava organizando a quadrilha. Não lembro direito: acho que na turma havia bem mais meninas que meninos. Por isso, não dava pra criar pares sem que algumas meninas se vestissem de menino.

Qual o critério que a professora levou em conta pra escolher que meninas seriam meninos? Arrisco dizer que eu mesma me ofereci pra ser menino.

As roupas de quadrilha das meninas pareciam chatas. Aquele chapéu com duas trancinhas magras e postiças nunca me agradou. Eu, de cabelo ralo e curto também não poderia ter boas tranças.

A roupa dos meninos era toda improvisada. Não precisava comprar pronta no Jumbo, como o vestido de chita. Era pegar uma calça jeans e costurar remendos falsos. Uma camisa xadrez de flanela, que sempre tivemos. Qualquer sapato ou tênis. Um lenço colorido da mãe. Com a maquiagem da mãe também, fazer uns desenhos de bigode e cavanhaque. Ah, não esquecer de pintar uns dentes de preto. Tá pronta.

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A foto é escura; mesmo assim dá pra perceber meu sorriso.

Muitos anos depois, dancei quadrilha de menina, com tranças verdadeiras e tendo como par meu então namorado.

A FACULDADE, EM 2007

estava em greve. Era julho, eu tinha a tarde livre antes de ir trabalhar. Resolvi tirar umas fotos do prédio da Letras, praticamente vazio. Hoje revejo as fotos, enquanto estava escrevendo um novo post sobre a rua Paim.

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Alguma semelhança percorre a série de fotos das demolições da Paim e as instalações precárias da faculdade: são registros de um momento de transição, pouco antes de reformas, ampliações, construções. São parte de um cotidiano passado — o tempo em que passava todo dia pelas mesmas ruas, pelos mesmos corredores.